Daniel Vorcaro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em Londres — Foto: Reprodução/Jornal O Globo
Por unanimidade, conselheiros decidiram contra o afastamento do procurador-geral da República das investigações sobre o Master. Placar pelo arquivamento de pedido de apuração da conduta de Gonet ficou em 5 a 4.
O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) decidiu, por unanimidade, nesta sexta-feira (25) não afastar o procurador-geral da República, Paulo Gonet, dos casos relacionados ao Banco Master em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
E, por 5 votos a 4, o conselho decidiu arquivar um pedido de aprofundamento de investigações contra Paulo Gonet pela relação dele com o banqueiro Daniel Vorcaro.
O colegiado analisou a situação de Gonet em duas frentes:
- Afastamento do PGR: o placar foi 9 a 0 para não afastar Gonet dos casos relacionados ao Master;
- Abertura de apuração preliminar contra o procurador: o placar foi 5 a 4 pelo arquivamento de um pedido para aprofundamento das apurações contra Gonet.
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Nove dos 10 integrantes do CSMPF participaram da sessão. Paulo Gonet, que preside o órgão e é alvo da representação em análise, não compareceu.
O relator da representação, Francisco Sanseverino, e os conselheiros Celso de Albuquerque, Alexandre Camanho, Hindemburgo Chateaubriand e Nicolao Dino votaram pelo arquivamento do pedido de investigação.
Janice Ascari, Samantha Chantal, José Adônis e Ana Borges Santos divergiram do relator e defenderam a designação de um subprocurador-geral da República para aprofundar as apurações sobre a conduta de Gonet (leia detalhes de cada voto abaixo).
Gonet e o escândalo Master
A análise no Conselho do MPF ocorre após a divulgação de relatórios da Polícia Federal produzidos a partir da extração de dados do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, apreendido durante a Operação Compliance Zero.
As mensagens recuperadas pela perícia da PF indicam a existência de interlocução entre o banqueiro e o procurador-geral, realizada majoritariamente por meio do advogado Ciro Soares. Entre os pontos mapeados nos relatórios estão:
- Viagem a Londres: registros de mensagens apontam que Daniel Vorcaro autorizou o custeio de despesas de viagem a Londres para Pedro Gonet, filho do procurador-geral, em abril de 2025.
- Foto em confraternização: a divulgação de uma fotografia tirada em 2024 em Londres, na qual Vorcaro aparece sentado próximo a Paulo Gonet — que segura um charuto em frente a uma mesa com copos de uísque —, motivou manifestações internas no Ministério Público.
- Articulação no CNPG: diálogos de abril de 2024 mostram o advogado Ciro Soares afirmando a Vorcaro que pediu a intervenção de Gonet para convencer Georges Seigneur a desistir da disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG). Três dias após os diálogos, Seigneur retirou a candidatura; Jarbas Soares foi eleito por aclamação.
- Mensagens sobre interlocução institucional: em mensagens de outubro de 2025, Vorcaro citou o procurador-geral ao pedir a um interlocutor que reforçasse conversas com autoridades para evitar medidas do Banco Central contra a instituição financeira.
- Paulo Gonet, tem negado proximidade com Daniel Vorcaro e, simultaneamente, pediu ao STF a anulação de relatório da Polícia Federal relatado pelo ministro André Mendonça em que é citado. Gonet argumentou que o relator extrapolou suas competências ao ordenar investigações sem solicitação prévia do Ministério Público.
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O relator votou contra a instauração de procedimento contra o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por ausência de elementos mínimos de materialidade ou autoria de crime.
“Não se pode examinar frases ou troca de mensagens de forma isolada e, ou, descontextualizada para não criar uma situação artificial e que não corresponda à realidade dos fatos”, afirmou o relator
Ele destacou que mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro não podem ser analisadas de forma isolada e que não há registro de conversa direta ou contato salvo entre o ex-banqueiro e o PGR.
Sobre o encontro em Londres e as menções a Gonet identificadas em conversas de terceiros — como entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares —, o relator pontuou que se tratou de episódio isolado sem solicitação de vantagem.
Sanseverino concluiu que a atuação de Gonet seguiu os princípios da legalidade e que medidas institucionais foram adotadas após ele tomar conhecimento das investigações.
Por fim, o voto apontou que a discussão sobre eventual suspeição ou impedimento de Gonet não cabe ao Conselho, devendo ser apresentada e decidida diretamente nos processos em tramitação no Supremo Tribunal Federal.
Com isso, os pedidos para afastar o procurador-geral das investigações relativas ao Banco Master foram considerados prejudicados.
Voto de Janice Ascari
A conselheira Janice Ascari acolheu parcialmente a representação para designar um subprocurador-geral da República responsável por analisar a notícia-crime.
Segundo ela, a medida não equivale à abertura automática de investigação criminal, cabendo ao membro designado avaliar as providências cabíveis.
A magistrada ressaltou que o relatório da Polícia Federal teve caráter sumaríssimo e que os elementos reunidos exigem maior aprofundamento.
Ascari destacou que menções a Paulo Gonet em mensagens e dados sobre viagens não comprovam, de forma isolada, recebimento de vantagens.
Ela apontou que faltam provas de que o procurador-geral ou seu filho soubessem de custeios ou que tenha havido interferência em investigações.
Apesar disso, ponderou que questões pontuais sobre contatos, ligações e encontros precisam de esclarecimentos antes de qualquer decisão definitiva.
Por fim, a conselheira concluiu que os elementos atuais não sustentam nem a abertura imediata de inquérito nem o arquivamento do caso, mas que é necessária uma apuração preliminar.
Voto de Celso de Albuquerque
Durante a sessão, o conselheiro Celso de Albuquerque Silva votou pelo arquivamento da representação contra o procurador-geral, acompanhando o relator por não identificar justa causa ou linha investigativa idônea.
Ele destacou a ausência de provas mínimas de que o filho do PGR tenha sido convidado para o evento em Londres ou de que qualquer despesa tenha sido paga.
