DiCaprio mira garimpo ilegal no Pará e alerta para veneno que chega à mesa das comunidades

Astro de Hollywood e ativista ambiental chama atenção para contaminação de rios e peixes por mercúrio e para os riscos à saúde de populações indígenas e ribeirinhas no Médio Xingu

O alerta veio de Hollywood, mas o problema está dentro da Amazônia e atinge diretamente o Pará. O ator Leonardo DiCaprio voltou a utilizar suas redes sociais para denunciar os impactos provocados pelo garimpo ilegal na região amazônica e chamou atenção para um dos efeitos mais perigosos e silenciosos da atividade: a contaminação de rios e peixes por mercúrio.

Na publicação, feita nesta terça-feira (8), o astro norte-americano destacou que o uso do metal pesado durante a exploração ilegal de ouro provoca uma cadeia de contaminação que começa nos cursos d’água, chega aos peixes e pode terminar no prato das populações que dependem dos rios para alimentação e sobrevivência. O alerta ganha especial importância no Pará, onde áreas do Médio Xingu estão entre as regiões afetadas pela atividade garimpeira.

A preocupação não está apenas relacionada à destruição da floresta. O mercúrio utilizado no processo de separação do ouro pode contaminar os ambientes aquáticos e permanecer na cadeia alimentar. Peixes expostos ao contaminante podem servir de veículo para que o metal chegue às pessoas que consomem regularmente esse alimento.

Um problema que não termina quando o garimpo vai embora

A denúncia de DiCaprio chama atenção justamente para a dimensão de longo prazo do problema.

A destruição provocada por uma frente de garimpo pode ser percebida imediatamente pela abertura de clareiras, movimentação de máquinas e alteração dos cursos dos rios. Já a contaminação por mercúrio é menos visível e pode permanecer como ameaça para comunidades que vivem próximas aos locais atingidos.

Em regiões amazônicas, especialmente onde o peixe representa uma das principais fontes de proteína, a contaminação dos rios representa também um problema social e de saúde pública.

No Pará, essa situação ganha dimensão ainda maior devido à extensão da atividade mineral e à presença de comunidades indígenas e ribeirinhas que mantêm uma relação direta com os rios.

Xingu volta ao centro da preocupação internacional

A manifestação de DiCaprio também tem relação com uma trajetória de décadas de envolvimento do ator com a proteção da Amazônia e dos povos indígenas.

Durante sua passagem pelo Brasil, no início deste mês, o ator esteve em diferentes regiões e, em 2 de setembro, foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela primeira-dama Janja, no Palácio do Planalto. A conversa envolveu mudanças climáticas, proteção ambiental, combate ao garimpo ilegal e defesa dos territórios indígenas.

DiCaprio também relembrou sua relação com o Xingu, região que conheceu há cerca de 25 anos, e sua amizade com o cacique Raoni. A organização ambiental Re, da qual é um dos principais nomes, desenvolve iniciativas de proteção de florestas e territórios indígenas no Brasil.

Em 2023, a Re firmou acordo com o governo brasileiro para atuar na recuperação de áreas amazônicas degradadas pelo garimpo ilegal e em ações de descontaminação ambiental.

O MERCÚRIO É O PERIGO INVISÍVEL

O garimpo ilegal de ouro utiliza o mercúrio para facilitar a separação do metal precioso de outros materiais. O problema começa quando o contaminante chega ao ambiente e passa a circular pelos rios e pela cadeia alimentar.

A preocupação é particularmente grande com comunidades que consomem peixe frequentemente. O contaminante pode se acumular nos organismos e chegar aos seres humanos por meio da alimentação.

Por isso, o debate sobre o garimpo na Amazônia deixou há muito tempo de ser apenas uma discussão sobre desmatamento. Trata-se também de uma questão relacionada à qualidade da água, segurança alimentar, saúde pública e sobrevivência cultural de povos que dependem dos rios.

Pará no centro de uma discussão que ultrapassa fronteiras

Ao citar os impactos do garimpo e da contaminação por mercúrio na Amazônia, DiCaprio coloca novamente o Pará no centro de uma discussão ambiental de repercussão internacional.

O Estado reúne algumas das áreas mais importantes da Amazônia brasileira e, ao mesmo tempo, enfrenta conflitos relacionados à exploração mineral, ocupação irregular de territórios e pressão sobre áreas indígenas e unidades de conservação.

A repercussão da manifestação do ator ocorre poucos dias depois de sua agenda ambiental no Brasil e reforça a pressão internacional para que o combate ao garimpo ilegal não se limite à retirada de máquinas e à destruição de estruturas clandestinas, mas também contemple a recuperação dos rios e das áreas já contaminadas.

O recado deixado por DiCaprio é direto: quando o mercúrio entra no rio, o problema não fica restrito ao garimpo. Ele pode percorrer toda a cadeia alimentar e atingir justamente quem depende da floresta e dos rios para viver.

Do PASSAPORTE/Foto: Divulgação