Em poucas horas, milhões de pessoas ocupam as ruas da capital paraense para acompanhar a berlinda de Nossa Senhora de Nazaré; dimensão da procissão ajuda a explicar por que o evento ganhou projeção internacional
Belém vive, todos os anos, uma transformação que poucas cidades experimentam. No segundo domingo de outubro, ruas, avenidas e praças da capital paraense são tomadas por uma multidão que acompanha a imagem de Nossa Senhora de Nazaré em uma caminhada marcada por fé, promessas, lágrimas e homenagens. É o Círio de Nazaré, manifestação religiosa que coloca o Pará no centro das atenções e está entre as maiores concentrações de fiéis do mundo.
A dimensão do evento é um dos fatores que explicam a fama internacional do Círio. Segundo a Diretoria da Festa de Nazaré (DFN), a procissão principal de 2025 reuniu aproximadamente 2,6 milhões de pessoas. O diferencial apontado pela organização não está apenas na quantidade de participantes, mas na concentração desse público em uma única manhã e em uma única procissão.
É justamente essa característica que sustenta a afirmação de que o Círio é a maior procissão mariana do mundo em um único dia.
A expressão “mariana” é importante porque se refere às manifestações de devoção dedicadas a Maria, mãe de Jesus. Nesse universo, o Círio se destaca pela quantidade extraordinária de pessoas que se reúnem simultaneamente para acompanhar a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré.
UMA CIDADE INTEIRA EM MOVIMENTO
A Grande Procissão percorre aproximadamente 3,6 quilômetros, entre a Catedral Metropolitana de Belém, na Cidade Velha, e a Praça Santuário de Nazaré. Apesar de relativamente curto, o percurso pode levar muitas horas devido à quantidade de pessoas que acompanham a berlinda.
A programação começa ainda antes da saída. Tradicionalmente, a manhã do Círio é marcada pela missa na Catedral, seguida pelo início da caminhada pelas ruas da capital.
No trajeto, a cena se repete de diferentes formas: devotos caminham descalços, pagam promessas, seguram imagens, carregam objetos simbólicos e tentam se aproximar da corda que acompanha a berlinda. Nas calçadas, moradores e visitantes montam pontos de observação para acompanhar a passagem da imagem.
O resultado é uma manifestação que ultrapassa os limites de uma celebração exclusivamente religiosa e passa a interferir diretamente na rotina de toda a cidade.
TRADIÇÃO QUE ATRAVESSA SÉCULOS
A primeira procissão do Círio de Nazaré foi realizada em 8 de setembro de 1793, ainda no período colonial. Inicialmente, a caminhada ocorria à tarde. A partir de 1854, passou a ser realizada pela manhã.
Em 1882, foi estabelecida a saída da Catedral, tradição mantida até os dias atuais. Já em 1901, ficou definido que o Círio seria realizado sempre no segundo domingo de outubro.
São mais de dois séculos de história, mas a festa não ficou restrita à preservação de uma tradição antiga. Ao longo do tempo, incorporou novas manifestações e transformou-se em um complexo calendário de romarias.
O calendário oficial de 2026 prevê 14 procissões, entre elas o Traslado para Ananindeua, a Romaria Rodoviária, a Romaria Fluvial, a Moto Romaria, a Trasladação, o Círio, a Romaria dos Corredores, a Romaria da Acessibilidade, a Ciclo Romaria, a Procissão da Festa e o Recírio.
A FORÇA NÃO ESTÁ APENAS NO DOMINGO
Embora o Círio seja identificado principalmente com a grande procissão dominical, a mobilização começa dias antes.
A Trasladação, realizada na noite anterior ao Círio, também reúne uma multidão pelas ruas de Belém. De acordo com a organização da festa, a procissão noturna já ultrapassa a marca de 1,8 milhão de participantes.
Há ainda o impacto provocado pelas demais romarias, pela chegada de visitantes, pelas homenagens à imagem e pela movimentação nos espaços ligados à Festa de Nazaré.
Assim, o Círio não é apenas um evento de algumas horas. Ele altera o ritmo da capital paraense durante vários dias e mobiliza diferentes setores da sociedade.
Por que a comparação com outras procissões exige cuidado?
Grandes manifestações religiosas acontecem em diferentes partes do mundo e algumas reúnem multidões superiores às registradas em Belém quando considerados períodos maiores, festividades completas ou eventos realizados durante vários dias.
A particularidade do Círio está justamente no recorte utilizado para a comparação: uma procissão mariana, concentrada em uma única manhã, reunindo milhões de pessoas em um mesmo cortejo.
É essa combinação de fatores — número de participantes, concentração temporal, caráter mariano e continuidade histórica — que dá ao Círio uma posição singular entre as grandes manifestações religiosas do planeta.
A própria Arquidiocese do Rio de Janeiro, em artigo publicado em julho de 2026 pelo cardeal Orani João Tempesta, que foi arcebispo de Belém entre 2004 e 2009, descreveu a experiência de ver mais de dois milhões de pessoas reunidas em uma única manhã como uma característica extraordinária do Círio.
MUITO ALÉM DE UMA PROCISSÃO
Para quem observa de fora, os números impressionam. Para quem participa, porém, o Círio costuma ser definido por experiências pessoais: uma promessa cumprida, uma graça alcançada, uma homenagem a alguém que morreu, um pedido de saúde ou simplesmente a tradição de acompanhar a imagem todos os anos.
É essa combinação entre fé individual e participação coletiva que ajuda a explicar a longevidade da manifestação.
Em Belém, durante algumas horas, milhões de histórias particulares acabam se encontrando nas mesmas ruas.
E é justamente aí que está uma das maiores singularidades do Círio de Nazaré: uma devoção que nasceu há mais de dois séculos transformou-se em uma das maiores manifestações públicas de fé do mundo, sem deixar de preservar seu caráter profundamente popular e paraense.
Do PASSAPORTE/Foto: Agência Ronabar
