Professora emérita da UFPA morreu aos 74 anos e deixa uma das trajetórias mais marcantes da história do movimento negro na Amazônia
O Pará perdeu ontem (8) uma de suas mais importantes referências na educação, na cultura e na luta contra o racismo. Morreu, aos 74 anos, a professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA) Zélia Amador de Deus, intelectual, escritora, atriz, diretora de teatro e uma das principais vozes do movimento negro amazônico.
Nascida no território quilombola de Mangueiras, no Marajó, Zélia construiu uma trajetória que ultrapassou os limites da universidade. Durante mais de cinco décadas, participou de debates e movimentos que ajudaram a transformar a presença da população negra nos espaços de educação, cultura e poder no Pará.
Na UFPA, onde ingressou no curso de Letras em 1971, tornou-se professora, pesquisadora e gestora. Entre 1993 e 1997, ocupou a vice-reitoria da instituição. Em 2019, recebeu o título de professora emérita, uma das principais homenagens concedidas pela universidade.
Mas sua história também foi construída fora das salas de aula. Zélia esteve entre as fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e teve participação importante na defesa dos direitos da população negra, das comunidades quilombolas e das políticas de ações afirmativas.
Arte também fez parte da trajetória
Antes mesmo de se consolidar como referência acadêmica, Zélia encontrou no teatro uma forma de expressão e resistência. Nos anos 1970, participou da criação da Companhia de Teatro Cena Aberta, atuando, dirigindo e utilizando a arte como instrumento de reflexão sobre a sociedade.
Na universidade, ajudou ainda a fortalecer os estudos sobre a população negra e a cultura afro-amazônica. Foi uma das responsáveis pela criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos da UFPA.
Sua atuação contribuiu para ampliar o debate sobre racismo, identidade, ancestralidade e inclusão no ensino superior.
DESPEDIDA
A UFPA decretou luto oficial de três dias pela morte da professora. O velório está sendo realizado no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém.
Em homenagem à professora, a universidade destacou também um dos últimos gestos de Zélia em seus espaços: o plantio de um baobá no campus, acompanhado por familiares e amigos. A árvore passou a representar simbolicamente a ancestralidade, a resistência e a continuidade de um legado que atravessa gerações.
Com a morte de Zélia Amador de Deus, o Pará perde uma educadora e uma intelectual de enorme importância. Permanecem, porém, as ideias, os projetos, os alunos, pesquisadores e militantes que foram influenciados por sua trajetória.
Mais do que uma professora, Zélia se tornou parte da própria história da luta por igualdade racial na Amazônia.
Do PASSAPORTE/Foto: Reprodução/UFPA
