Produção paraense completa um ano e se consolida como uma das experiências audiovisuais mais ousadas da música brasileira ao colocar Belém, a periferia, o tecnobrega e a cultura das aparelhagens no centro da narrativa
Há obras que acompanham um momento da música. Outras conseguem transformar um movimento cultural em imagem, memória e identidade. “Rock Doido”, projeto audiovisual de Gaby Amarantos realizado em parceria com o coletivo paraense Altar Sonoro, pertence à segunda categoria.
Um ano depois de seu lançamento, o filme continua sendo lembrado pela capacidade de traduzir para a linguagem audiovisual uma experiência essencialmente paraense: o universo das festas de aparelhagem, do tecnobrega, da dança, da rua, da moda, da religiosidade e da exuberância amazônica.
Lançado em agosto de 2025, o filme nasceu com uma proposta pouco convencional. Em vez de construir uma narrativa sobre a cultura paraense a partir de um olhar externo, a produção decidiu colocar a própria Amazônia no centro da obra.
Belém não é apenas cenário. É personagem.
A periferia não aparece como pano de fundo. Ela conduz a narrativa.
E a aparelhagem deixa de ser apenas trilha sonora de uma festa para assumir protagonismo dentro de uma experiência cinematográfica que mistura música, performance, moda, dança e cultura popular.
A IDEIA NASCEU NO MEIO DA FESTA
A própria Gaby Amarantos conta que uma das principais faíscas para o projeto surgiu durante uma noite na Florentina, no Jurunas, bairro onde cresceu.
Ao observar pessoas de diferentes lugares se entregando à experiência da aparelhagem, a cantora percebeu que aquela manifestação cultural, muitas vezes tratada de maneira periférica pelo mercado nacional, tinha força para dialogar com públicos muito além do Pará.
“Eu percebi ali que tinha um potencial muito grande em fazer algo global”, relatou Gaby ao relembrar aquele momento.
A partir daí, o desafio passou a ser transformar aquela energia em uma experiência visual.
E foi justamente nesse ponto que entrou o Altar Sonoro, coletivo formado por Guilherme Takshy e Naré.
O desafio: colocar o caos organizado da aparelhagem dentro da câmera
Como transformar em cinema uma festa que acontece simultaneamente em vários lugares?
Essa foi uma das grandes questões enfrentadas pela equipe.
O “Rock Doido” não foi pensado como um videoclipe convencional. A proposta era criar uma experiência contínua, capaz de transportar o espectador para dentro daquele universo.
A solução foi radical: um plano-sequência, sem cortes, gravado com um celular.
A gravação principal ocorreu em 13 de agosto de 2025, no bairro da Condor, em Belém, e reuniu aproximadamente 250 pessoas. A escolha do equipamento também carregava um significado simbólico: demonstrar que uma grande experiência audiovisual poderia nascer da periferia amazônica sem depender de uma estrutura milionária.
Durante cerca de 22 minutos, a câmera se movimenta continuamente por um universo em que música, personagens, dança, figurinos, luzes e aparelhagem se cruzam.
Era preciso fazer tudo funcionar praticamente ao mesmo tempo.
Como explicou Naré, a equipe tinha apenas uma oportunidade para que toda aquela engrenagem desse certo: várias cenas aconteciam simultaneamente e qualquer erro poderia comprometer toda a sequência.
Guilherme Takshy e a construção de um universo sem limites
Para Guilherme Takshy, um dos responsáveis pela direção e pela direção de fotografia, o desafio não era simplesmente registrar uma festa paraense.
Era criar uma linguagem visual capaz de traduzir a sensação provocada por ela.
Por isso, o filme não se limita às referências tradicionais da cultura amazônica. O universo visual de “Rock Doido” incorpora elementos de diferentes imaginários, incluindo referências árabes, Bollywood, moda, cultura pop e uma série de situações deliberadamente inesperadas.
Em entrevista sobre a produção, Takshy revelou que a equipe chegou a inserir elementos como um motoqueiro com cabeça de cavalo e piscinas no meio da cena — tudo integrado ao universo das aparelhagens.
É justamente essa mistura aparentemente improvável que dá personalidade ao filme.
O “Rock Doido” não tenta organizar a cultura paraense para torná-la mais palatável ao público de fora.
Faz o contrário.
Assume o excesso.
Assume a cor.
Assume a velocidade.
Assume a extravagância.
Assume a periferia.
E transforma tudo isso em linguagem pop.
A APARELHAGEM COMO PROTAGONISTA
Historicamente associadas às festas populares do Pará, as aparelhagens representam muito mais do que grandes estruturas de som.
Elas são espaços de sociabilidade, pertencimento, dança, memória e afirmação cultural.
Em “Rock Doido”, essa dimensão ganha tratamento cinematográfico.
A obra incorpora o som, as luzes, a movimentação do público e a estética das festas para construir uma narrativa em que o espectador é colocado dentro da experiência.
O resultado é uma espécie de tradução visual do chamado “rock doido”, momento de máxima intensidade das festas de aparelhagem, quando a música, a iluminação, os efeitos especiais e a reação do público atingem o auge.
Mais de 250 pessoas em uma produção genuinamente paraense
Outro aspecto que transforma o projeto em um registro importante para o audiovisual amazônico é a dimensão coletiva da produção.
O filme reuniu artistas, dançarinos, músicos, moradores, profissionais de produção e diferentes representantes da cena cultural paraense.
Entre os nomes que participam da obra estão Viviane Batidão, Lauana Prado, Gang do Eletro, MC Dourado, Leona Vingativa, Félix Robatto, Keila Gentil e outros artistas ligados à cultura musical e popular do Pará.
A própria ficha técnica mostra a dimensão da empreitada, com profissionais responsáveis por direção, fotografia, arte, produção, coreografia, styling, iluminação, beleza, comunicação e montagem.
O lendário Rubi, uma das referências das aparelhagens paraenses, também aparece integrado ao projeto, reforçando a conexão direta entre o filme e a cultura das festas de som do Estado.
Cinema, música, moda e identidade amazônica
“Rock Doido” também ultrapassa a fronteira entre música e cinema.
A moda ocupa papel importante na construção da narrativa visual. Figurinos, maquiagem, iluminação, coreografia e cenografia foram pensados para criar uma experiência que não fosse apenas musical.
A intenção era fazer com que cada elemento da tela carregasse uma parte da identidade paraense.
O resultado é uma obra em que o tecnobrega encontra o pop, o carimbó dialoga com a música eletrônica, a periferia encontra a cultura global e a tradição conversa com referências contemporâneas.
Musicalmente, o projeto também amplia esse diálogo. O álbum “Rock Doido” reúne participações de nomes como Viviane Batidão, Lauana Prado, MC Dourado e Gang do Eletro, além de revisitar elementos da música paraense e incorporar referências da música pop.
Uma estética que nasceu antes de virar tendência
Um dos aspectos mais interessantes do projeto está justamente na inversão de perspectiva proposta por Gaby Amarantos.
Recursos que atualmente aparecem com frequência em grandes produções musicais — músicas curtas, cortes acelerados, pirotecnia, excesso visual e interação permanente com o público — fazem parte da cultura das aparelhagens paraenses há décadas.
A artista já chamou atenção para esse aspecto ao lembrar que o Pará utiliza há muitos anos elementos que passaram a ser valorizados mais recentemente pelo mercado pop.
“Rock Doido”, portanto, não apresenta a cultura amazônica como novidade exótica.
Apresenta-a como vanguarda.
DA PERIFERIA DE BELÉM PARA O BRASIL
O grande mérito do filme talvez esteja justamente em não tentar esconder sua origem.
A produção foi realizada em Belém, com artistas e profissionais locais e tendo como matéria-prima uma cultura que nasceu e se desenvolveu nas periferias.
O bairro da Condor, as ruas, as festas e a estética popular deixam de ser elementos secundários para assumir o centro da narrativa.
Essa escolha dialoga diretamente com uma trajetória que Gaby Amarantos construiu ao longo de mais de duas décadas: levar a música paraense e amazônica para outros públicos sem abrir mão das raízes.
Em 2024, a obra da cantora já havia recebido reconhecimento como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Pará. Em 2023, Gaby tornou-se a primeira paraense vencedora do Grammy Latino, com “TecnoShow”.
“Rock Doido” surge, portanto, como mais um capítulo dessa trajetória.
UM ANO DEPOIS, A PERGUNTA PERMANECE
O que torna “Rock Doido” especial não é apenas a inovação técnica de ter sido gravado em plano-sequência com um celular.
É a decisão de transformar uma manifestação cultural local em linguagem universal sem retirar dela aquilo que a torna única.
O filme não tenta explicar o Pará.
Ele convida o público a sentir o Pará.
A câmera entra na festa, atravessa a rua, encontra a dança, a moda, a aparelhagem, a religiosidade, o humor, o exagero e a energia coletiva.
E talvez seja justamente por isso que, um ano depois, “Rock Doido” continue funcionando como uma espécie de manifesto audiovisual:
a Amazônia não precisa ser descoberta pelo Brasil. Ela já produz cultura capaz de falar com o mundo.
E, no caso de Gaby Amarantos e do Altar Sonoro, essa mensagem chegou em forma de música, cinema, aparelhagem e uma Belém que, finalmente, aparece na tela não como coadjuvante, mas como protagonista.
Da Redação do Jornal PASSAPORTE com informações e foto do G1/PA
