O mistério dos cosmonautas soviéticos que teriam desaparecido no espaço

Teorias sugerem que a URSS enviou missões fracassadas ao espaço antes de Yuri Gagarin; teriam elas sido omitidas ou são apenas mitos da Guerra Fria?

Com a recente missão espacial Artemis II, da NASA, que levou os astronautas Reid WisemanVictor GloverChristina Koch e Jeremy Hansen em uma viagem tripulada ao redor da Lua, a exploração espacial voltou ao centro das atenções globais. O feito reacende o

interesse público

 pelas jornadas humanas além da Terra e convida a revisitar capítulos anteriores dessa história — alguns deles envoltos em controvérsia, como o persistente mito dos supostos cosmonautas desaparecidos da União Soviética.

O episódio remonta ao contexto da Guerra Fria, período em que Estados Unidos e União Soviética disputavam não apenas influência política e militar, mas também prestígio científico e tecnológico. Essa rivalidade se estendeu ao espaço, dando origem à chamada Corrida Espacial, que, entre 1955 e 1972, mobilizou recursos e esforços para demonstrar qual sistema — comunista ou democrático — seria capaz de alcançar feitos inéditos fora do planeta.

Durante os primeiros anos dessa disputa, os soviéticos conquistaram avanços significativos. Em 1957, colocaram o primeiro satélite artificial em órbita e, em 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a viajar ao espaço. Esses marcos colocaram a União Soviética em posição de destaque e geraram preocupação nos Estados Unidos, que temiam ficar para trás na competição.

                                                                                                                  Yuri Gagarin / Crédito: Getty Images

Por trás desses sucessos, no entanto, havia episódios trágicos e pouco divulgados. Em 1960, um foguete soviético explodiu na plataforma de lançamento, causando a morte de pelo menos 78 membros da equipe. No ano seguinte, pouco antes do voo de Gagarin, um cosmonauta morreu durante um treinamento após um incêndio em uma cápsula com alta concentração de oxigênio. Em 1967, outro acidente fatal ocorreu quando o paraquedas de uma cápsula não se abriu durante a reentrada. O próprio Gagarin morreria em 1968, em um acidente durante um voo de treinamento com um caça.

Essas ocorrências, ainda que documentadas, alimentaram especulações de que poderiam existir outros incidentes mantidos em segredo. Ao longo das décadas, surgiram teorias segundo as quais o programa espacial soviético teria registrado missões tripuladas anteriores ao voo de Gagarin, mas que teriam sido encobertas após falhas catastróficas.

Korabl-Sputnik 1

Uma das narrativas mais conhecidas envolve o escritor de ficção científica Robert Heinlein. Em 1960, durante uma visita à União Soviética, ele relatou ter ouvido de cadetes do Exército Vermelho que um lançamento tripulado recente havia ocorrido. A missão envolveria a cápsula Korabl-Sputnik 1, que teria sofrido uma falha em seu sistema de orientação, desviando-se da trajetória prevista e impedindo seu retorno à Terra. Oficialmente, as autoridades soviéticas classificaram o lançamento como um teste não tripulado, mas a versão alternativa sugere que poderia haver um cosmonauta a bordo.

Outros elementos reforçaram essas especulações. Os irmãos italianos Achille e Giovanni Judica-Cordiglia, radioamadores de Turim, afirmaram ter captado transmissões de rádio provenientes de missões soviéticas fracassadas. Segundo eles, os sinais indicariam situações de emergência envolvendo cosmonautas. Em novembro de 1960, teriam registrado uma mensagem em código Morse que interpretaram como um pedido de socorro vindo de uma nave que se afastava da Terra, sugerindo um erro que teria lançado a cápsula rumo ao espaço profundo.

                                                                             Achille e Giovanni Judica-Cordiglia / Crédito: Domínio Público

Os irmãos afirmaram ainda ter feito nove gravações desse tipo. Em uma delas, seria possível ouvir a voz de uma mulher em russo descrevendo a presença de chamas e questionando o controle da missão sobre a possibilidade de explosão da nave. Caso essas gravações fossem autênticas, indicariam não apenas a existência de missões não divulgadas, mas também a possibilidade de que a primeira mulher no espaço não tivesse sobrevivido.

Há ainda rumores mais amplos, segundo os quais cosmonautas soviéticos teriam sido enviados em missões extremas, incluindo tentativas de alcançar a Lua sem retorno previsto. Essas versões sugerem que voluntários teriam aceitado participar de lançamentos diretos rumo ao satélite natural, mesmo sem garantias de sobrevivência.

Teorias sem comprovação

Apesar da persistência dessas teorias, há argumentos consistentes que colocam em dúvida sua veracidade. As autoridades soviéticas sempre negaram a existência de tais missões, e análises técnicas indicam limitações nos equipamentos da época. A própria cápsula Korabl-Sputnik 1, por exemplo, não possuía escudo térmico para reentrada, o que sugere que não havia intenção de recuperar uma eventual tripulação. Da mesma forma, as sondas lunares soviéticas não tinham espaço para acomodar seres humanos.

As gravações atribuídas aos irmãos Judica-Cordiglia também são amplamente consideradas falsas. Avaliações posteriores apontam inconsistências técnicas e falta de comprovação independente. Além disso, documentos soviéticos desclassificados sobre o programa espacial não apresentam registros de cosmonautas desaparecidos em missões secretas, repercute o All That’s Interesting.

O próprio Yuri Gagarin, em sua biografia, abordou indiretamente essas especulações ao sugerir que muitos dos rumores poderiam ser explicados por acidentes em órbita baixa, sem relação com missões ocultas de maior escala. Essa interpretação reforça a ideia de que, embora o programa soviético tenha enfrentado falhas e tragédias, não há evidências concretas de lançamentos tripulados secretos anteriores ao seu voo histórico.

Diante desse conjunto de informações, a hipótese dos cosmonautas desaparecidos permanece no campo das teorias não comprovadas. A combinação de sigilo político, acidentes reais e o clima de desconfiança da Guerra Fria contribuiu para a construção de uma narrativa que persiste até hoje.

 

Fonte: AH Aventuras na História
Crédito: Getty Images