Ataques, provocações e ausência de propostas entre Flávio Bolsonaro e Lula no debate na Band

Lula e Flávio se enfrentam pela primeira vez e oferecem pouco ao eleitorado. Presidente quase todo o tempo defendeu seu legado, enquanto senador tentou vender-se como novidade e foi desafiado a abrir os sigilos

No primeiro confronto direto nesta eleição, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro protagonizaram, no debate de ontem, na Band, uma disputa agressiva, marcada por trocas de acusações, ironias, pobreza de propostas e promessas que parecem pouco factíveis. Naquilo que interessa ao eleitor, o presidente durante a maior parte do tempo defendeu seus governos e não apresentou planos para um eventual quarto mandato. O senador, por sua vez, sempre enfatizando que representa a novidade, prometeu mudanças e medidas ousadas — mas sem dar uma única indicação de como fará para implementá-las.

Do saldo final de um confronto agressivo e tenso, o que ficou foi o desafio feito por Lula a Flávio, próximo do fim do debate: cobrou que abrissem os sigilos e os expusessem ao eleitorado. O senador desconversou.

Mas, no começo, a impressão era de que Flávio estava mais bem preparado do que Lula. Apresentou-se dando boa a noite a todos — inclusive ao adversário ali presente — e fez uma explanação contida e bem medida. No momento de Lula, entrou direto no assunto sem sequer se dirigir ao oponente e aos moderadores, os jornalistas Adriana Araújo e Eduardo Oinegue, o que transpareceu nervosismo e ansiedade.

Segurança pública foi o primeiro tema. Flávio prometeu endurecer o combate ao crime organizado e acusou o atual governo de “passar a mão na cabeça” de criminosos. “Vou declarar guerra ao narcoterrorismo”, afirmou. Voltou a dizer que vai classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias como organizações narcoterroristas, e falou em abrir mais 500 mil vagas no sistema penitenciário. Lula, por sua vez, defendeu a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança como forma de ampliar a cooperação com estados e municípios, e disse que criará o Ministério da Segurança Pública se a medida for aprovada no Congresso. Argumentou, ainda, que fez mais pela segurança do que gestões anteriores.

Mas, no confronto direto, em que cada um teve 15 minutos para perguntar e comentar o que o outro retrucava, é que o clima esquentou. Apesar de ter sido escorregadio e evitado responder diretamente às perguntas, Flávio conseguiu colocar Lula na defensiva quando perguntou das relações entre a lobista Roberta Luchsinger com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha (na noite de sábado, a CNN apresentou uma entrevista com ela, em que fez graves acusações ao presidente e disse até mesmo que pensava em fazer uma delação premiada). Lula não conteve a irritação, mas disse que tratava-se de “um caso da Polícia Federal”. O senador insistiu no tema e disse que o filho do presidente estava foragido no exterior. Como resposta, Lula disse que a PF deveria investigar quem quer que fosse, inclusive Lulinha.

O presidente cobrou Flávio sobre seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade para servidores, quando era deputado estadual no Rio. O senador se esquivou e insistiu que Lula respondesse sobre a lobista — que martelou tratar-se de uma questão da PF.

Na sequência, Lula cobrou explicações de Flávio sobre os R$ 134 milhões pedidos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio, novamente sem responder, acusou o presidente de ter discutido, em uma reunião reservada com integrantes do governo, formas de ajudar o dono do Banco Master. De forma irônica afirmou, ainda, que o longa-metragem contava uma bela história e que convidaria o presidente assim que entrasse no circuito comercial de exibição.

Lula também questionou Flávio sobre a intenção de adotar o modelo econômico do presidente argentino Javier Milei — e o senador, novamente, saiu pela tangente. O candidato do PL reagiu enumerando as relações de Lula com ditadores latino-americanos, como Daniel Ortega, da Nicarágua, e Nicolás Maduro, da Venezuela, hoje preso nos Estados Unidos. O senador ainda insistiu em um áudio, que foi publicado pela revista Veja e sobre o qual pesam suspeitas de que seja forjado, de que Vorcaro teria repassado R$ 30 milhões “por fora” ao Instituto Lula. O presidente não caiu na provocação e rebateu cobrando transparência sobre as contas relacionadas ao Dark Horse.

PROSPERIDADE

Ao apresentar suas propostas, Flávio disse que, se eleito, vai criar o Ministério da Prosperidade — mas não explicou o que a pasta adminsitrará. Garantiu que comprará as dívidas dos brasileiros e congelará os pagamentos por seis meses, para pessoas físicas, e um ano, para empresas, em contraponto ao Desenrola, do atual governo. Não disse, porém, como isso pode ser feito, uma vez que tal abono significa abrir mão de arrecadação. Afirmou, também, contar com uma queda rápida da taxa de juro se chegar ao Palácio do Planalto.

O senador também anunciou o ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein Cláudio Lottenberg seu o escolhido para o Ministério da Saúde, se eleito. Flávio prometeu levar ao Sistema Único de Saúde (SUS) o padrão de atendimento da rede privada. “Quero colocar o padrão Einstein no SUS”, afirmou. Lula aproveitou a deixa ao questionar o adversário se pretendia privatizar o SUS. O presidente também contestou a experiência de Flávio na área, dizendo acreditar que o adversário nunca foi a uma Unidade de Pronto Atendimento.

No fim do debate, Lula questionou se Flávio pretende entregar as terras raras e os minerais críticos brasileiros aos Estados Unidos, considerando a proximidade que o senador tem com o governo Trump. Sem responder, o senador citou o tarifaço e acusou o presidente de não defender as empresas brasileiras. O petista, por sua vez, acusou a família Bolsonaro de se subordinar aos interesses norte-americanos — e lembrou que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro vem trabalhando, nos EUA, contra o Brasil.

O debate chegou ao fim com a tensão no auge. Quando Lula se preparava para arrematar sua participação nas considerações finais, uma gritaria explodiu na audiência. Os moderadores tiveram imensa dificuldade em acalmar a situação. A jornalista Adriana Araújo solicitou, várias vezes, que Flávio se mantivesse no púlpito a ele destinado. Eduardo Oinegue, num tom de voz mais alto do que o habitual, exigia que a plateia se calasse. De pouco adiantou.

O encerramento, inclusive, ocorreu sob gritos e jingles eleitorais dos dois candidatos. Marcando a tensão, a Polícia Militar de São Paulo foi acionada após o debate para investigar uma suspeita de bomba próxima ao local — mas, até o fechamento desta edição, não havia confirmação sobre a existência do artefato.

Do Correio Braziliense