Tradição e fartura: pesca coletiva do mapará movimenta comunidade ribeirinha na região do Marajó

Na comunidade Santo Ezequiel Moreno, no rio Acutipereira, a atividade mobiliza dezenas de famílias e mantém viva uma prática tradicional de cooperação entre pescadores da Ilha do Marajó.

A comunidade Santo Ezequiel Moreno, localizada às margens do rio Acutipereira, no município de Portel, na Ilha do Marajó, mantém viva uma das tradições mais representativas da cultura ribeirinha paraense: a pesca coletiva do mapará. Muito além da captura do pescado, a atividade reúne conhecimentos transmitidos entre gerações, fortalece os laços comunitários e representa uma importante fonte de alimento e renda para dezenas de famílias.

A abertura da pesca, após o período de defeso, transforma o momento em uma grande celebração comunitária. A expectativa das lideranças locais é de que a mobilização deste ano registre participação expressiva e uma pescaria farta, reforçando a importância econômica, social e cultural da atividade para os moradores da região.

CONHECIMENTO TRADICIONAL

A captura do mapará segue técnicas artesanais que exigem experiência, atenção aos sinais da natureza e trabalho coordenado entre os pescadores. Uma das figuras fundamentais é o taleiro, pescador experiente que utiliza uma vara de bambu em contato com o fundo do rio para identificar, por meio das vibrações, a presença e as características dos cardumes.

Depois de localizado o peixe, começa o chamado borqueio. Os motores das embarcações são desligados para reduzir o ruído, enquanto os pescadores remam silenciosamente e lançam as redes em formato circular, cercando o cardume.

A operação também pode exigir a participação de nadadores e mergulhadores da própria comunidade. Eles descem a profundidades que podem chegar a dez metros para ajustar as redes e retirar galhos, troncos e folhagens que possam dificultar a captura.

Quando o cerco se fecha, milhares de peixes podem surgir na superfície, em uma cena que reúne esforço físico, habilidade e cooperação. O pescado é recolhido em paneiros e basquetas, seguindo a organização tradicional da comunidade.

Na Santo Ezequiel Moreno, uma única pescaria coletiva de abertura pode alcançar mais de 1.500 quilos de mapará, segundo as informações da comunidade. A produção contribui para o abastecimento das famílias e pode gerar renda com a comercialização do excedente.

RENDA, SOLIDARIEDADE E IDENTIDADE RIBEIRINHA

Para a liderança comunitária Teófilo Lacerda Gomes, a pesca do mapará representa muito mais do que uma atividade comercial. É uma tradição que sustenta famílias, preserva conhecimentos ancestrais e demonstra a capacidade de organização dos moradores.

Segundo ele, a expectativa é de que o evento registre mais uma participação expressiva e uma captura abundante. Teófilo também destacou o apoio da Prefeitura de Portel, das secretarias municipais e de órgãos estaduais envolvidos nas ações relacionadas à comunidade e à realização da atividade.

A partilha do pescado é outro elemento importante dessa tradição. O trabalho conjunto e a distribuição dos resultados reforçam a solidariedade entre os moradores, que encontram na pesca uma forma de garantir alimento e fortalecer os vínculos comunitários.

PRESERVAÇÃO PARA GARANTIR O FUTURO

A continuidade da pesca depende do respeito ao ciclo reprodutivo do mapará e às regras ambientais. O período de defeso é fundamental para proteger a reprodução da espécie e contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros.

Por isso, a abertura da atividade também simboliza a importância de conciliar a subsistência das comunidades ribeirinhas com a conservação dos recursos naturais. O cumprimento das normas de pesca e a preservação dos ambientes aquáticos são essenciais para que as próximas gerações continuem encontrando no rio uma fonte de alimento e sustento.

Na comunidade Santo Ezequiel Moreno, a tradição do mapará mostra como cultura, economia e meio ambiente estão ligados à vida de quem mora às margens dos rios amazônicos. A cada temporada, o trabalho coletivo reafirma a identidade ribeirinha e a importância do conhecimento tradicional para a continuidade dessa prática no município de Portel.

Com informações e fotos da CSEM