Obra bilionária pretende ampliar a navegação de cargas no Rio Tocantins, mas comunidades tradicionais temem perda da pesca, impactos ambientais e novos conflitos territoriais
O futuro de um dos trechos mais emblemáticos do Rio Tocantins, no sudeste do Pará, entrou definitivamente no centro de uma disputa que envolve desenvolvimento econômico, navegação comercial, preservação ambiental e os direitos de comunidades tradicionais.
O alvo da controvérsia é o Pedral do Lourenção, conjunto de formações rochosas situado entre a Vila Santa Terezinha do Tauiry, em Itupiranga, e a região da ilha do Bogéa, em Nova Ipixuna. O local integra o projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins, empreendimento federal que pretende garantir melhores condições para a circulação de grandes embarcações de carga durante os períodos de menor nível do rio.
Para isso, está previsto o chamado derrocamento, operação de retirada de rochas do leito do rio. Segundo o projeto, serão removidos aproximadamente 1,28 milhão de metros cúbicos de material rochoso. A utilização de explosivos está prevista para a partir de 2027.
O empreendimento está estimado em quase R$ 1 bilhão e faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A Licença de Instalação foi emitida pelo Ibama em maio de 2025, mas o processo vem sendo questionado judicialmente pelo Ministério Público Federal.
Comunidades dizem que não está em jogo apenas uma obra
A reação mais forte vem das comunidades ribeirinhas que vivem na região. São cerca de 23 comunidades diretamente relacionadas ao território do Pedral, onde a pesca artesanal continua sendo uma das principais fontes de alimentação, renda e identidade cultural.
Para os moradores, retirar as pedras significa modificar um ambiente que sustenta espécies de peixes e organiza a própria dinâmica da vida no rio.
O temor também tem um componente histórico. Muitas famílias da região carregam a memória dos deslocamentos provocados pela construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, iniciada décadas atrás.
Agora, diante da possibilidade de transformação radical do leito do Tocantins, existe o receio de que uma nova intervenção provoque perdas econômicas, ambientais e culturais.
CIENTISTAS QUESTIONAM SEGURANÇA AMBIENTAL
Pesquisadores também levantaram dúvidas sobre os impactos da obra.
Entre os pontos de preocupação estão possíveis alterações na dinâmica hidráulica do rio, impactos sobre espécies de peixes que vivem associadas às formações rochosas, riscos para quelônios e botos e alterações nos ambientes utilizados para reprodução e alimentação da fauna.
Uma das críticas diz respeito à chamada cortina de bolhas, mecanismo previsto para reduzir os efeitos acústicos das explosões subaquáticas.
Pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi questionam se essa medida será suficiente para proteger espécies adaptadas às áreas de corredeiras e aos ambientes rochosos.
Outro ponto sensível é o destino do material retirado do rio. O DNIT afirma que as áreas de disposição foram definidas e georreferenciadas dentro do projeto e do processo de licenciamento. O órgão também informa que o empreendimento é baseado em estudos hidráulicos e hidrodinâmicos e que novas modelagens estão sendo realizadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH).
MPF JÁ QUESTIONOU LICENÇA DA OBRA
A preocupação não é recente.
Em 2025, o Ministério Público Federal pediu à Justiça Federal a suspensão da licença concedida pelo Ibama para o derrocamento. Entre os argumentos apresentados pelo órgão estão questionamentos sobre o licenciamento ambiental e a ausência de Consulta Prévia, Livre e Informada às comunidades tradicionais potencialmente afetadas.
Em inspeção judicial realizada posteriormente, o MPF informou ter identificado falhas nos estudos socioambientais e problemas relacionados à participação das populações locais no processo.
A questão ganhou ainda mais força porque o projeto não é visto isoladamente pelos críticos. A Hidrovia Araguaia-Tocantins tem cerca de 1.731 quilômetros, conectando áreas produtoras do Centro-Oeste e do Tocantins ao complexo portuário de Barcarena, no Pará.
Para o setor produtivo e o governo federal, a hidrovia representa uma alternativa estratégica para o transporte de commodities, especialmente durante os períodos de estiagem, quando a navegação fica limitada.
Ribeirinhos querem transformar o Pedral em patrimônio
Diante da possibilidade de intervenção, moradores, pesquisadores e entidades de defesa socioambiental passaram a buscar uma alternativa para proteger o território.
Em agosto, comunidades realizaram um ato simbólico de “tombamento popular” do Pedral do Lourenção. Dias depois, uma associação de moradores protocolou pedido formal junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que a área seja reconhecida como patrimônio cultural.
A iniciativa não se limita à preservação das pedras.
Os defensores do tombamento argumentam que o Pedral representa um território de importância ambiental, arqueológica, cultural e social, diretamente associado ao modo de vida das populações tradicionais.
O Iphan informou que o pedido está em fase de acolhimento e avaliação preliminar e que ainda não é possível antecipar qualquer decisão sobre eventual tombamento.
ARQUEOLOGIA TAMBÉM ENTROU NA DISCUSSÃO
Pesquisadores chamam atenção ainda para a existência de registros arqueológicos ao longo da calha do Tocantins.
Estudos realizados décadas atrás identificaram sítios arqueológicos na região, alguns posteriormente afetados pela formação do reservatório da Usina de Tucuruí.
Para os defensores da preservação, a possibilidade de novas intervenções em larga escala reforça a necessidade de identificar e proteger eventuais vestígios ainda existentes.
O debate, portanto, ultrapassa a simples retirada de pedras para abrir um canal de navegação.
O ARGUMENTO DO GOVERNO
O DNIT sustenta que o derrocamento foi planejado a partir de estudos técnicos e ambientais e que as intervenções foram dimensionadas considerando os períodos de cheia e estiagem do Tocantins.
Segundo o órgão, o objetivo é eliminar obstáculos físicos à navegação e garantir condições mais regulares de circulação de embarcações durante os períodos de águas baixas.
O DNIT também afirma que a obra será executada de forma subaquática e que não está prevista intervenção no local denominado Pedral do Lourenção, embora o trecho da hidrovia contemple áreas próximas e formações rochosas que precisam ser removidas.
A obra inclui ainda medidas específicas relacionadas à fauna. Um termo de execução descentralizada publicado pelo próprio DNIT em agosto de 2026 prevê ações para recuperação e preservação de populações de tartarugas da Amazônia e tracajás que poderão ser afetadas pelas obras de dragagem e derrocamento.
Uma decisão que ultrapassa os limites do rio
O caso do Pedral do Lourenção sintetiza um dos grandes dilemas da Amazônia contemporânea: como ampliar a infraestrutura necessária ao transporte e à economia sem comprometer territórios onde populações tradicionais desenvolveram, durante gerações, formas próprias de sobrevivência e relação com os rios.
Para o governo e o setor produtivo, a hidrovia pode representar redução de custos logísticos e maior capacidade de escoamento da produção.
Para os ribeirinhos, porém, a questão é outra: o que acontece com quem depende do rio quando o próprio rio é profundamente modificado?
É essa pergunta que deverá acompanhar o projeto nos próximos anos.
Enquanto o governo prepara as etapas de implantação, comunidades, pesquisadores e órgãos de defesa de direitos continuam tentando impedir que o avanço da hidrovia aconteça sem que sejam considerados todos os possíveis impactos sobre o meio ambiente, a pesca, a arqueologia e o modo de vida das populações do Tocantins.
O Pedral do Lourenção, antes conhecido principalmente pelos navegadores e moradores da região, tornou-se agora um dos principais símbolos da disputa entre infraestrutura e preservação na Amazônia.
Do Jornal PASSAPORTE com informações e foto do G1/PA
