No Combu, tradição vira esporte e escola transforma cotidiano ribeirinho em competição

Corrida de canoa, subida em açaizeiro, pesca e arremesso de ouriço estão entre as atividades que movimentaram cerca de 140 estudantes na Ilha do Combu

Na Ilha do Combu, em Belém, o esporte ganhou uma identidade tipicamente amazônica. Em vez de limitar os estudantes às modalidades tradicionais praticadas em quadras e campos, a Escola Municipal de Educação do Campo (Emec) Milton Monte transformou práticas do cotidiano ribeirinho em atividades esportivas e educativas.

A iniciativa integrou a 12ª edição dos Jogos do Território e da Ancestralidade, realizada entre os dias 1º e 4 de setembro, reunindo aproximadamente 140 estudantes da região insular da capital paraense. A proposta colocou no centro da competição conhecimentos que fazem parte da vida das comunidades que vivem entre rios, ilhas e floresta.

Entre as atividades estiveram a corrida de canoa a remo, subida e descida de açaizeiro, pesca com caniço, natação no rio, debulhagem do açaí, confecção da peconha e arremesso de cacau e ouriço de castanha-do-pará.

Também houve a chamada corrida do boco, brincadeira associada à palha que se desprende do açaizeiro, além de provas esportivas convencionais, como futebol, queimada, cabo de guerra, salto em distância, corridas e jogos de mesa.

QUANDO O COTIDIANO VIRA APRENDIZADO

A grande diferença dos jogos está justamente na relação entre as provas e a realidade dos alunos. Habilidades que normalmente são aprendidas dentro das famílias e utilizadas no dia a dia das comunidades passaram a fazer parte do ambiente escolar.

A corrida de canoa, por exemplo, reproduz uma habilidade essencial para quem vive em uma região marcada pelos deslocamentos pelos rios. Já a subida do açaizeiro envolve equilíbrio, força, coordenação e domínio da tradicional peconha, utilizada pelos trabalhadores durante a coleta do fruto.

Para a escola, transformar essas práticas em atividades esportivas é também uma maneira de reconhecer que existe conhecimento produzido fora dos espaços formais de ensino.

O coordenador pedagógico da Milton Monte, Jenijunior Santos, destaca que a proposta está diretamente ligada ao território onde os estudantes vivem.

“Estamos em uma escola do campo, que está no contexto do território ribeirinho, onde as pessoas vivem e transformam suas vidas a partir da realidade da natureza onde estão.”

A proposta, segundo a escola, busca fortalecer a identidade dos estudantes e manter vivos conhecimentos transmitidos entre diferentes gerações.

ESPORTE, CULTURA E ANCESTRALIDADE

Mais do que definir vencedores, os jogos criam um espaço de convivência e valorização da cultura amazônica. As crianças participam das atividades, aprendem regras, desenvolvem espírito de equipe e, ao mesmo tempo, demonstram conhecimentos que fazem parte de suas próprias histórias familiares.

A estudante Kauane Maia, de 11 anos, do 5º ano, destacou justamente essa ligação entre o que aprende na escola e aquilo que vivencia fora dela. Segundo a aluna, os jogos ajudam a desenvolver habilidades que podem ser utilizadas para auxiliar a família no cotidiano.

A experiência também foi destacada por familiares e profissionais da escola, que enxergam na iniciativa uma forma de aproximar a educação da realidade dos alunos.

Para o pedagogo Cecílio Ferreira, colocar essas práticas dentro da programação escolar permite que as crianças apresentem, de maneira lúdica, conhecimentos que já fazem parte de suas vidas.

UMA ESCOLA QUE OLHA PARA O TERRITÓRIO

A experiência desenvolvida na Milton Monte mostra que a educação pode dialogar diretamente com o território e com os conhecimentos tradicionais das comunidades.

No Combu, remar, pescar, subir no açaizeiro e trabalhar com elementos encontrados na floresta deixam de ser apenas atividades da rotina e passam a ser também instrumentos de aprendizagem, integração e valorização cultural.

A programação também contou com apresentações de danças regionais e outras atividades recreativas, ampliando a proposta de integração entre esporte, cultura e educação.

A iniciativa reforça ainda o papel das escolas localizadas em territórios tradicionais na preservação de saberes que fazem parte da identidade amazônica. Ao transformar práticas ancestrais em atividades escolares, os Jogos do Território e da Ancestralidade ajudam as novas gerações a reconhecer que o rio, a floresta e os modos de vida de suas comunidades também são espaços de conhecimento.

No coração da Amazônia, a competição ganha, assim, um significado que vai além de medalhas e resultados: é também uma celebração da identidade ribeirinha e da memória cultural do território.

Da Redação do Jornal PASSAPORTE com informações do G1/PA/Foto: Paula Lourinho/ Agência Belém