Senador e ex-craque de futebol, terá todos os pagamentos da CazéTV penhorados para quitar débito originário de antigo bar carioca
A Copa do Mundo de 2026 trouxe consigo um vexame além da Seleção Brasileira. A 4ª Vara Cível da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, determinou a penhora de todos os valores que o senador Romário (PL-RJ) receberá da CazéTV pela cobertura do torneio nos Estados Unidos. A decisão visa garantir o pagamento de uma dívida de R$ 32,4 milhões que o ex-jogador e tetracampeão brasileiro contraiu junto à empresa Koncretize Projetos e Obras Ltda., em processo originário de 2001 que permanece em fase de cumprimento de sentença sob sigilo judicial.
A medida representa um desdobramento inusitado dos bastidores comerciais da Copa de 2026, afetando diretamente os ganhos do senador licenciado. Romário se afastou do cargo após repercussão negativa pela divulgação de que votava por celular diretamente dos Estados Unidos enquanto recebia normalmente o salário de parlamentar, acumulado com os ganhos da cobertura do torneio.
Conforme a decisão, a Justiça determinou que a CazéTV apresente a íntegra dos contratos firmados com Romário, além de propostas, notas fiscais, recibos, comprovantes de pagamento e demais documentos relacionados à contratação do ex-atleta. A decisão também exigiu que o canal esclareça se algum contrato envolvendo Romário foi firmado por empresas parceiras na cobertura da Copa de 2026 e informe qual seria a responsável pelos pagamentos.
A determinação judicial é clara quanto ao escopo da investigação. Conforme citado na decisão da 4ª Vara Cível da Barra da Tijuca, “caso o contrato para participação do executado Romário tenha sido firmado com outra empresa do grupo empresarial do qual faz parte a CazéTV, coligada, parceira comercial, produtora, agência, plataforma, patrocinador ou qualquer outra pessoa jurídica integrante da cadeia econômica da referida cobertura da Copa 2026, que esta informe com qual empresa, com a completa qualificação da contratante ou pagadora”. A medida busca rastrear todos os fluxos financeiros relacionados ao trabalho de Romário no torneio.
A origem da dívida
“O baixinho está liso e endividado”, disse um senador que pediu reserva de seu nome. A dívida milionária tem origem em um litígio que começou há mais de duas décadas, quando Romário era sócio do Café Onze Bar, um estabelecimento localizado no Rio de Janeiro.
Segundo documentos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ex-jogador contratou a Koncretize Projetos e Obras Ltda. para administrar o estacionamento do bar, utilizando elevadores de veículos para otimizar o espaço. Quando o estabelecimento fechou, em 2011, houve a rescisão do contrato e, a partir disso, começou uma disputa sobre a retirada desses elevadores.
Com o crescimento da multa ao longo dos anos, Romário assinou um termo de confissão de dívida para encerrar a discussão, em valor próximo de R$ 1,5 milhão. Contudo, segundo a empresa Koncretize, esse compromisso não foi cumprido. Devido a encargos, juros, correção monetária e demais verbas, o valor cresceu exponencialmente até chegar aos R$ 32,4 milhões cobrados atualmente no processo originário de 2001.
Bens já penhorados
A dívida já resultou em penhoras anteriores de bens do senador. Um imóvel, uma lancha e um Porsche foram bloqueados pela Justiça. Além disso, houve restrições via Renajud (sistema de registro de restrições de bens) sobre um Audi e um Peugeot ligados ao ex-atleta. A nova medida, que atinge os ganhos com a CazéTV, representa uma escalada nas ações judiciais para cobrar a dívida.
Recursos
A equipe jurídica de Romário informou que apresentará um recurso à Justiça do Rio de Janeiro contra a decisão que determinou a penhora dos valores da CazéTV. O senador licenciado argumentou que abriu mão do salário como parlamentar no período em que esteve nos Estados Unidos participando da cobertura da Copa de 2026, buscando demonstrar sua boa-fé na questão. Mas, isso ocorreu somente depois da repercussão negativa nas redes sociais em razão da conduto do senador ao acumular os dois ganhos: o de senador e o de comentarista esportivo.
A assessoria do senador foi procurada para comentar a decisão, mas não houve manifestação. O caso permanece em segredo de Justiça, limitando o acesso a informações adicionais sobre os detalhes do processo de cumprimento de sentença.
O caso ilustra a complexidade das relações comerciais de Romário ao longo de sua carreira, tanto no futebol quanto na política. A dívida de mais de duas décadas, originária de um empreendimento que fechou há 15 anos, continua gerando consequências financeiras e legais para o ex-atleta, agora senador da República. O espaço está aberto para a manifestação do senador.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.
