Caminhoneiros ameaçam nova greve nacional por MP do frete

Categoria dos caminhoneiros pressiona Senado para votação da MP do Piso do Frete até 16 de julho, com risco de greve nacional.

O presidente da Abrava, Wallace Landim, o Chorão, avisou na sexta-feira (10) que caminhoneiros de todo o país podem parar se a MP do Piso do Frete não for votada pelo Senado até 16 de julho. A categoria estima até 60% de adesão a uma nova greve nacional.

A ameaça chega a oito dias do prazo final para a Medida Provisória nº 1.343/2026, que endurece o cumprimento do piso mínimo do frete rodoviário. Se o texto não for aprovado até 16 de julho, a MP perde validade às vésperas do recesso do Congresso, que começa em 18 de julho, e volta a valer a regra anterior, considerada insustentável por boa parte dos motoristas.

Para o caminhoneiro autônomo, o impacto é direto no bolso. Sem a proteção de um valor mínimo obrigatório, o frete vira disputa de preço baixo entre quem aceita carregar pela menor oferta. Chorão afirma que, nessa disputa, muitos não conseguem sequer cobrir diesel, pedágio, manutenção e financiamento do caminhão.

O que está em jogo com o piso do frete

A MP do Piso do Frete, assinada em 19 de março de 2026, reforça as tabelas definidas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Na prática, proíbe embarcadores e transportadoras de contratar viagens abaixo dos valores mínimos calculados pela agência, que considera distância, tipo de carga, eixo, custo do combustível e pedágios.

Hoje, caminhões de cinco e sete eixos, usados por grande parte dos profissionais, operam no limite da viabilidade. Sem o endurecimento das regras, Chorão afirma que apenas veículos de nove eixos conseguem se manter economicamente, concentrando o mercado nas mãos de grandes frotistas.

“Os caminhões de cinco ou sete eixos não conseguem trabalhar. A chance de equalizarmos a vida do caminhoneiro é agora. E vem o Alcolumbre e segura o projeto por questão de ego político? Não vamos aceitar, jamais!”, diz o presidente da Abrava.

Para ele, a MP não é uma pauta corporativa, mas uma tentativa de organizar um setor que responde pela maior parte do transporte de cargas no país. “Estamos mais organizados do que em 2018. Essa pauta precisa passar. É um projeto de país, e não de governo”, afirma.

Disputa política trava votação

A proposta já passou pela Câmara dos Deputados, mas está parada na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Até agora, ele não pautou a votação, apesar do prazo apertado. Nos bastidores, o impasse é atribuído à disputa política entre Alcolumbre e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois de um confronto em torno da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, aliados relatam que Alcolumbre promete dificultar a tramitação de projetos de interesse direto do governo. A MP do Piso do Frete entra nesse pacote, apesar do impacto sobre um grupo que o Planalto tenta manter próximo desde a crise de 2018.

O governo evita escalar o conflito em público, mas nas conversas com lideranças da estrada reforça que defende a aprovação do texto. Para Lula, a aprovação da MP ajuda a conter uma nova crise de abastecimento e a preservar a imagem de um governo sensível à situação dos caminhoneiros. Para o Senado, ceder à pressão pode significar recuar no braço de ferro com o Planalto em plena disputa pela agenda legislativa.

Greve de 60% pode travar mercadorias

Chorão não anuncia data nem formato de eventual paralisação, mas fala em apoio de cerca de 60% da categoria, caso a MP caduque. O número é suficiente para provocar lentidão em rodovias estratégicas e atingir rapidamente o fluxo de mercadorias.

O Brasil depende do caminhão para escoar grãos, abastecer supermercados, levar insumos para indústrias e distribuir combustíveis. Uma paralisação prolongada gera atrasos em cadeias inteiras, encarece produtos e mexe com o custo de vida. Em 2018, a greve nacional expôs essa vulnerabilidade, com prateleiras vazias, postos sem combustível e produção parada em fábricas e no agronegócio.

A nova ameaça vem com uma diferença central em relação a oito anos atrás: a organização. Chorão diz coordenar um grupo mais estruturado, com canais de comunicação mais diretos com lideranças regionais. O movimento tenta evitar bloqueios desordenados e focar em pontos estratégicos de rodovias e centros de distribuição, para aumentar a pressão sem perder apoio popular.

Se os motoristas cumprirem a promessa, setores como agronegócio, comércio e indústria sentem o efeito em poucos dias. O impacto se espalha do frete de longa distância ao transporte de última milha, que leva mercadorias até o varejo nas cidades.

Risco econômico e desgaste político

A disputa em torno da Medida Provisória nº 1.343/2026 extrapola o interesse direto dos caminhoneiros. Para empresas que dependem de carga rodoviária, a incerteza sobre o piso do frete dificulta contratos, planejamento de safra, estoques e negociações de preço com fornecedores.

Se a greve se confirmar, a economia sente primeiro nos custos logísticos e na inflação de alimentos e bens de consumo. O governo pode ver parte de sua agenda econômica travada em meio a estradas com filas de caminhões e pressão de consumidores e empresários.

O Senado, por sua vez, fica no centro do desgaste. Se não pautar a MP até 16 de julho, assume o risco de ser responsabilizado por um colapso temporário no transporte. Se votar e rejeitar o texto, reforça o conflito com o Planalto. Se aprovar, pode ser acusado por adversários de ter cedido à chantagem das ruas.

Com o recesso marcado para 18 de julho, a janela política encolhe. Até lá, o Planalto tenta recompor pontes com Alcolumbre, os senadores medem o custo de cada gesto e os caminhoneiros ameaçam transformar o asfalto em palco de pressão. A estrada decide, nos próximos dias, se o país terá apenas uma queda de braço institucional ou uma nova crise de abastecimento.

Por que os caminhoneiros estão ameaçando greve por causa da MP do frete?

Porque a Medida Provisória nº 1.343/2026 endurece o cumprimento do piso mínimo do frete. Se ela caducar em 16 de julho, muitos caminhoneiros voltam a operar abaixo do custo, o que a categoria considera inviável.

O que está previsto na MP do frete que afeta os caminhoneiros?

A MP obriga embarcadores e transportadoras a respeitar os valores mínimos de frete definidos pela ANTT, calculados com base em custo de diesel, pedágio, distância e tipo de caminhão. Isso impede contratos com preços muito abaixo do necessário para cobrir as despesas da viagem.

Como a greve dos caminhoneiros pode impactar o transporte no Brasil?

Uma paralisação com adesão estimada em 60% pode travar rodovias estratégicas, atrasar entrega de alimentos, combustíveis e insumos industriais, gerar desabastecimento localizado e elevar custos logísticos em poucos dias.

Quais são as principais reivindicações dos caminhoneiros na atual paralisação?

A principal demanda é a votação e aprovação da MP do Piso do Frete no Senado até 16 de julho, para garantir um piso obrigatório de frete e tornar economicamente viável o trabalho de caminhões de cinco e sete eixos, hoje considerados em situação crítica pela categoria.

Do NC News, texto e foto