O movimento feminino na música instrumental tem uma longa história na capital paraense, Belém
Evento destacou a trajetória da iniciativa musical e o histórico da formação gratuita e da preservação do gênero na Região Norte
O Projeto Choro do Pará realizou, na última quarta-feira, 1º, no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém, um concerto comemorativo em celebração aos seus 20 anos de criação. O evento reuniu cerca de cem instrumentistas de diferentes gerações, origens institucionais e naipes para executar clássicos nacionais, regionais e autorais. A programação marca a história do projeto de formação musical gratuita, criado pelo então Presidente do Instituto de Artes do Pará, Jaime Bibas, e desenvolvido até hoje pela Fundação Cultural do Pará.

Paulinho Moura, coordenador do projeto, destacou a diversidade dos componentes da orquestra atual. “É uma emoção colocar cerca de cem pessoas no palco tocando choro, gente de todas as idades, músicos populares, das escolas técnicas de música, dos cursos de música das universidades, músicos de casernas, amadores. Vinte anos de um projeto que está tocando choro no Norte, numa escola que é totalmente gratuita, para mim é um grande feito”, afirmou o coordenador.

O início das atividades pedagógicas foi relembrado pelo músico e professor da Escola de Música da Universidade Federal do Pará, Marcos Puff. “O primeiro professor de solo do projeto, que foi concebido pelo Bibas e o Paulo Moura, foi o professor Yuri Guedelha, logo depois fui eu. Estar nesses grupos desde o início, como agora a Orquestra Choro do Pará que faz 20 anos, para mim é uma emoção muito grande, e ao olhar para trás, dá para ver que tudo valeu a pena”, relatou.
A preservação da memória pautou o depoimento do músico Luiz Pardal, um dos fundadores da Casa do Gilson. “A gente viu a necessidade de continuar esse trabalho com os jovens, para o choro não morrer. Então, através do Bibas, começou esse trabalho. Eu me sinto honrado, feliz, porque também estou nessa história do choro há muitos e muitos anos”, afirmou.

O repertório também contou com homenagens, como a participação de Nelson Bitencourt, que executou a composição “Mela o Beiço”, de autoria de seu pai, o já falecido Elzaman Bitencourt, que era músico e Desembargador do TJPA. “Estou muito feliz de ter sido convidado para participar, representar o meu pai, que não está aqui presencialmente, mas a gente está com certeza junto com ele”, disse Bitencourt.
A flexibilidade entre os gêneros erudito e popular foram explicadas pela pianista e diretora adjunta do Instituto de Ciências da Arte da UFPA, Adriana Azulay. “A canção que eu vou executar, o Paulinho me enviou e já propôs um solo no início. Apesar que não ter uma linha melódica com cifra, a gente cria em cima, uma interação muito própria da música popular. Diferente da música erudita, que a gente tem que obedecer a tudo que está ali no script, na música popular a gente tem essa liberdade para interagir”, detalhou a pianista.
Foto: Matheus Maciel/FCPA flautista Cris Lisboa destacou a convivência entre os integrantes nos bastidores do concerto. “É até difícil definir um sentimento, mas acho que felicidade, emoção, união. Aqui a gente não vem só tocar, a gente se organiza para trazer lanche, ajudar o outro, encontrar os amigos”, detalhou. A musicista reforçou que o suporte da FCP na organização dos espaços é indispensável para viabilizar os ensaios semanais.
O futuro do choro encontra renovação nos violões de Pietro Coelho, 15 anos, e Samuel Wendell, 13 anos, alunos do Polo de Música Cristo Redentor, organização não governamental que faz parte do Projeto Música e Cidadania, iniciativa da Fundação Carlos Gomes. Os jovens conheceram o choro por meio do professor Misael Carvalho, que lhes apresentou o gênero. “Fico muito feliz de tocar com esses mestres aqui, essas pessoas maravilhosas, ainda mais tocar choro, que é uma linguagem tão linda”, declarou Coelho. A vivência no palco traduz o espírito coletivo do projeto, como concluiu Wendell: “É uma situação muito boa estar tocando, dividindo o palco, ouvindo outras pessoas e melhorando no próprio instrumento”.
Foto: Matheus Maciel/FCPVinte anos de acordes e encontros mostram que o Projeto Choro do Pará vai além da música, funcionando como uma política pública viva que aproxima mestres e iniciantes. Ao abrir suas salas e garantir a gratuidade das oficinas, a FCP preserva a essência do choro e abre caminhos para que novos talentos continuem escrevendo a história desse gênero em solo paraense.

