Infraero emprega parentes de deputados do Republicanos, partido ligado à Universal

Deputados federais utilizaram sua influência política para emplacar filhos e um ex-genro em cargos comissionados na Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária, a Infraero, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Uma lista de 13 nomeações obtida com exclusividade pelo Intercept Brasil revela que as indicações para a estatal beneficiaram diretamente familiares de quatro políticos do Republicanos: os filhos de Gilberto Abramo, de Minas Gerais, de Wilson Santiago, da Paraíba, e de Augusto Coutinho, de Pernambuco; e o ex-genro de Silas Câmara, do Amazonas.

A relação completa de apadrinhados inclui indicações de deputados federais, ex-deputados federais e um ex-ministro. Deste grupo, oito são do Republicanos, três do União Brasil que integravam o Republicanos à época das nomeações, e dois do PT. O Republicanos é ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo, e é o partido do governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas.

Em resposta a um pedido de Lei de Acesso à Informação, a Infraero confirmou as contratações e informou que os citados ocupam cargos comissionados de livre provimento. Embora a estatal afirme que as admissões ocorreram por deliberação da diretoria executiva e que não há registro formal do agente político responsável, integrantes do governo confirmaram reservadamente ao Intercept a autoria das indicações.

O deputado Gilberto Abramo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, indicou sua filha, a biomédica Danielly Hirata Abramo, para o cargo de assessora especial na Superintendência de Gestão de Pessoas da Infraero, no Distrito Federal.

Nomeada em fevereiro de 2024, Danielly tem um salário bruto de R$ 25,5 mil por mês. Em seu perfil no LinkedIn, ela informa a admissão na estatal, mas, contraditoriamente, afirma ter trabalhado em tempo integral na Câmara Municipal de Guarulhos, na Grande São Paulo, entre agosto de 2022 e agosto de 2025. Ela também alega que trabalha como terceirizada na Infraero, diferentemente do que é informado pelo site de transparência da empresa. O Portal de Transparência da Câmara Municipal de Guarulhos mostra que Danielly trabalhou no local de agosto de 2022 até fevereiro de 2024, quando foi para a Infraero.

Procurados por e-mail e telefone, o deputado Abramo e sua filha Danielly não responderam aos questionamentos do Intercept.

As indicações de parentes repetem-se com outros parlamentares do Republicanos. O ex-deputado federal Wilson Santiago garantiu a admissão de seu filho, William Ramon Alves de Oliveira Santiago, em dezembro de 2023, no cargo de assessor I da Infraero, com remuneração de R$ 21,4 mil.

O deputado e seu filho não responderam às perguntas enviadas pelo Intercept.

No mês anterior, em novembro de 2023, o deputado Augusto Coutinho conseguiu a entrada de seu filho, o advogado Augusto Rodrigues Coutinho de Melo Filho, para a função de assessor especial da empresa, com salário de R$ 25,5 mil.

Pai e filho foram procurados pelo Intercept, mas não responderam até a publicação desta reportagem.

O quarto caso envolve o deputado federal Silas Câmara, licenciado desde o último 13 de abril. Pastor da Igreja Assembleia de Deus e ex-presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Câmara indicou seu ex-genro, Eduardo José de Godoy Ferreira, para o cargo de assessor I na Diretoria Comercial da Infraero, com salário de R$ 21,4 mil. Admitido em janeiro de 2024, Ferreira foi casado com Milena Câmara Godoy, filha do parlamentar e candidata a deputada distrital pelo PP em 2022, com quem tem um filho.

Ao Intercept, o pastor negou ter sido responsável pela indicação de Ferreira, a quem não considera parente, mas “ex-esposo de uma filha minha, portanto, sem nenhum vínculo comigo”. Já Ferreira não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.

Contratados com  altas remunerações, os apadrinhados gozam de flexibilidade na rotina de trabalho. Em resposta enviada pela Lei de Acesso à Informação,  a Infraero afirmou que, por exercerem “função de confiança de natureza especial”, as normas da companhia dispensam os comissionados do registro de ponto eletrônico ou manual, além de isentá-los do controle de acesso físico nas portarias.

Cargos garantidos, votos contrários

Apesar de garantirem cargos comissionados para familiares, os deputados Gilberto Abramo, Wilson Santiago, Augusto Coutinho e Silas Câmara frequentemente impõem derrotas ao governo no Congresso Nacional.

O caso mais emblemático ocorreu no final de abril, quando o governo Lula sofreu um duro revés na Câmara dos Deputados com a derrubada do veto presidencial ao Projeto de Lei da dosimetria – proposta que favorece os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O placar na Câmara dos Deputados marcou 318 votos contra o Planalto e apenas 144 a favor. Naquela sessão, os supostos aliados Abramo e Santiago votaram com a oposição, enquanto Coutinho se ausentou. Licenciado, Silas Câmara não participou da votação.

O histórico de oposição ao governo repete-se em projetos da área econômica. Em junho de 2025, na derrota que barrou o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF, todos os deputados do Republicanos votaram contra o governo Lula – com exceção do presidente da Câmara, Hugo Motta, que não registrou voto, e do presidente do Republicanos, Marcos Pereira, que estava ausente.

Já em outubro do ano passado, na análise da medida provisória alternativa ao IOF, o governo foi novamente derrotado por 251 a 193 votos. Na ocasião, Abramo votou contra a gestão petista, enquanto Câmara, Coutinho e Santiago entregaram votos favoráveis ao governo.

Ao assumir a presidência da Frente Parlamentar Evangélica, cargo que ocupou pela quarta vez até fevereiro de 2025, o pastor Silas Câmara afirmou que a bancada não teria alinhamento automático com o atual governo.

O parlamentar acumula desgastes recentes na esfera pública e privada. No Supremo Tribunal Federal, o STF, respondeu a processo por peculato sob a acusação de desviar recursos destinados ao pagamento de assessores no início dos anos 2000, prática conhecida como rachadinha. O caso foi encerrado em 2022 após o deputado firmar acordo de não persecução penal e pagar multa de R$ 242 mil.

Câmara também foi alvo da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social, a CPMI do INSS, que apontou o suposto repasse de R$ 1,8 milhão a empresas de seus familiares por meio de uma confederação suspeita de fraudar aposentadorias.

A cúpula do partido e os ‘sem-parentes’

O loteamento da estatal, no entanto, não se restringe a familiares e abriga indicados apadrinhados por importantes caciques do Republicanos. A legenda comandou o Ministério dos Portos e Aeroportos com o deputado federal Silvio Costa Filho, do Republicanos de Pernambuco, até março e manteve a influência sobre a pasta ao emplacar o sucessor, o então secretário-executivo Tomé Franca.

O presidente nacional do partido e bispo da Igreja Universal, Marcos Pereira, de São Paulo, foi, segundo funcionários da própria Infraero, o responsável por indicar Guilherme Augusto Sanches Ribeiro, que tomou posse em janeiro de 2024 e atualmente exerce o cargo de diretor de Finanças da empresa, com salário de R$ 45,3 mil. Um integrante do Republicanos, reservadamente, também confirmou ao Intercept que a indicação é de Pereira.

Em nota, Ribeiro afirmou que foi eleito para a função de diretor pelo Conselho de Administração da empresa. “Diferente do que sugerem as ilações sobre indicações discricionárias, a ocupação de cargos na Diretoria Executiva de uma Empresa Pública Federal segue ritos rigorosos. O preenchimento dessas vagas é estritamente balizado pela Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016) e pelo Estatuto Social da Infraero”.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, indicou a nomeação da assessora especial Renata Braga Ramalho dos Anjos, admitida em maio de 2024. Ela recebe R$ 24 mil por mês.

Anjos afirmou, em nota, que sua nomeação ocorreu em estrita observância aos procedimentos legais e administrativos aplicáveis, após a análise dos requisitos exigidos para o exercício da função, sem qualquer exceção ou flexibilização dos critérios estabelecidos pela administração pública. “Cumpre destacar que a indicação para o cargo não se confunde com os critérios técnicos exigidos para o seu exercício. A nomeação somente foi efetivada após a verificação da compatibilidade entre minha formação, experiência profissional e as atribuições inerentes à função, nos termos das exigências estabelecidas pelos órgãos competentes”.

Em nota, a assessoria de imprensa de Motta afirmou que “a participação partidária em espaços de decisão no Executivo faz parte da aliança entre o governo e os partidos no sistema político brasileiro caracterizado pelo presidencialismo de coalizão. Dessa forma, e sem discorrer a casos específicos, é intrínseco ao modelo que partidos integrantes da base de apoio colaborem na composição dos quadros da administração pública nos diversos níveis do governo”.

Já o ex-ministro Silvio Costa Filho também emplacou um aliado na Infraero: Bruno Fernandes da Rocha Borba, que assumiu a função de assessor especial em julho de 2024. A remuneração dele é de R$ 25,5 mil mensais.

Em nota, o ex-ministro disse que a nomeação de Borba atende à legislação vigente, incluindo os requisitos de qualificação técnica e experiência profissional previstos na Lei das Estatais. “Vale destacar que a indicação também segue os critérios objetivos e os procedimentos legais aplicáveis às empresas públicas. Já a indicação do ministro Tomé Franca foi uma decisão do presidente Lula, a quem cabe a escolha dos ministros de Estado”.

O ministro Tomé Franca não respondeu às perguntas enviadas pelo Intercept.

Já Borba afirmou, em nota, que não possui qualquer vínculo de parentesco com o deputado federal e ex-ministro Silvio Costa Filho. “Informo, ainda, que minha indicação para o cargo decorreu de critérios estritamente técnicos, tendo sido observados e cumpridos todos os procedimentos, requisitos e formalidades previstos no âmbito da Infraero”.

O poder de influência na estatal sobrevive até mesmo à perda de mandato ou à troca de alianças partidárias. O ex-deputado Gilvan Maximo, do Republicanos do Distrito Federal, perdeu a cadeira na Câmara em julho de 2025 após o STF modificar as regras de distribuição de vagas em eleições proporcionais. A Câmara confirmou a decisão do STF e afastou sete parlamentares, incluindo Maximo.

Mesmo assim, a indicada de Maximo na Infraero, Ivana Araújo Carvalho Lima, mantém-se no cargo de assessora I. Nomeada em novembro de 2024, ela recebe um salário de R$ 21,4 mil. Maximo ganhou notoriedade ao ser flagrado pelo Intercept ao lado de Marcos Pereira consumindo um bife folheado a ouro de R$ 9 mil em Nova York, em maio de 2025.

Procurados, Maximo e Lima não responderam à reportagem.

Do Intercept