Estimativa baseada em dados de vendas e reciclagem indica nos primeiros dias de venda, foram gerados o equivalente a 11,7 toneladas de liner, material de difícil reaproveitamento.
E se eu te disser que preencher um álbum da Copa do Mundo pode gerar um lixo que vai durar mais de 100 anos na Terra? O fato é que o material onde a parte colante da figurinha vem protegida é o liner, um tipo de papel siliconado. Para que ele seja reciclado, é preciso um processo longo e caro, e há poucas iniciativas no país. Ou seja, ele acaba virando lixo.
Colecionar álbuns de figurinhas da Copa é uma tradição que existe há décadas. A cada Mundial, são bilhões de figurinhas vendidas pelo país.
♻️ A maioria das pessoas pode achar que, por ser papel, tudo é sustentável. Basta colocar no lixo reciclável e o material volta para o mercado, transformando-se em um novo papel.
O que acontece com esse papel explica, na prática, a diferença entre uma embalagem ser reciclável e ter reciclabilidade. E isso muda tudo no jogo do impacto ambiental.
- Um material reciclável é aquele que pode ser transformado em um novo produto por meio da reciclagem. Por exemplo, uma garrafa PET pode ser reciclada inúmeras vezes. Isso ajuda a diminuir a produção de plástico no mundo, usando o que já está disponível.
- Isso é diferente da reciclabilidade. Esse termo é usado para definir o potencial que os materiais têm de passar pelo processo de reciclagem. Alguns exigem processos caros, que acabam dificultando que o material seja reaproveitado e continue circulando.
🔴 ATENÇÃO: ainda que haja pouca reciclabilidade, é importante que o liner seja descartado no lixo reciclável. Na triagem, alguns centros podem conseguir encaminhá-lo para empresas que fazem esse tratamento.
E de quanto de poluição estamos falando?
A Panini não divulgou quantas figurinhas tem produzido por dia nem qual é a estimativa de impacto da produção.
➡️ Para entender a dimensão do problema, o g1 usou como base o número de pacotes de figurinhas vendidos nos primeiros dias de uma ação de uma plataforma de entrega com a editora do álbum e contextualizou esses dados com uma ação de coleta de liners realizada na última Copa do Mundo, em 2022.
- Segundo a plataforma, foram vendidos 6,7 milhões de pacotes. Eles vêm com sete figurinhas cada um. Ou seja, estamos falando de quase 47 milhões de adesivos.
- Em 2022, na Copa do Mundo do Catar, a Dow Brasil, que faz a parte siliconada usada pela Panini, recolheu o equivalente a 168 mil liners em uma iniciativa de reciclagem — o que representa apenas uma fração do que foi produzido. De acordo com a empresa, esse volume correspondeu a 42 quilos de papel liner encaminhados para reciclagem.
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Álbum da Copa do Mundo 2026 da Panini. — Foto: Reprodução/Panini
Com base nesses números, os quase 47 milhões de adesivos vendidos nos primeiros dias corresponderiam a aproximadamente 11,7 toneladas de papel liner. Até o fim da Copa do Mundo, esse número vai ser ainda maior.
Quando o liner vai para o aterro — que é o destino mais provável —, ele não desaparece antes de muitas outras Copas. O revestimento de silicone retarda a decomposição e, segundo especialistas, ele pode levar até 100 anos para se decompor. Nesse processo, misturado a outros resíduos, contribui para a emissão de gases de efeito estufa.
E quem é o responsável?
O especialista em ESG explica que a cultura do álbum existe há décadas, mas ela não foi acompanhada por uma nova cultura sobre o lixo gerado.
Apesar de o Brasil ter uma Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê que fabricantes sejam responsáveis pelo destino de suas embalagens, a legislação ainda deixa dúvidas sobre o que exatamente precisa ser recolhido.
Hoje, há algumas iniciativas, como a da Polpel, em Guarulhos. A empresa está com uma campanha para receber liners de consumidores. No entanto, para participar, é preciso enviar o material até a fábrica.
A Dow, que desenvolve a tecnologia em silicone, disse que tem ciência do problema sobre reciclabilidade e circularidade do material. Em nota, informou que tua em parceria com outros atores da cadeia para aumentar a reciclabilidade.
O g1 procurou a Panini, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
