Cooperativa feminina do sistema penal transforma resíduos em moda sustentável e faz a reinsersão social e produtiva de mulheres privadas de liberdade
Transformar materiais descartados em novos produtos gera renda e abre perspectivas de vida a mulheres privadas de liberdade
A Coostafe, uma cooperativa de mulheres privadas de liberdade, transforma resíduos e materiais descartados em moda sustentável e oportunidades de reinserção social por meio do trabalho e da economia circular.
A reciclagem e o reaproveitamento de materiais desempenham um papel essencial na preservação do meio ambiente, ao reduzirem a geração de resíduos, diminuírem o descarte inadequado e incentivarem formas mais conscientes de produção e consumo. Além do impacto ambiental, essas práticas também fortalecem iniciativas que transformam materiais descartados em novos produtos, unindo sustentabilidade, geração de renda e inclusão social.
A moda a partir da reciclagem preserva o meio ambiente na medida em que reduz a geração de resíduos e a pressão ambientalFoto: Elielson Modesto / Seap
Nesse contexto, a Cooperativa Social de Trabalho Arte Feminina Empreendedora (Coostafe), coordenada pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), desenvolve um trabalho dentro do sistema prisional feminino voltado à moda sustentável, à capacitação profissional e à ressocialização de mulheres privadas de liberdade. A cooperativa reúne mulheres em atividades de produção artesanal, costura, pintura e criação de peças feitas a partir do reaproveitamento de materiais.
A Coostafe recebe doações de diversos tipos de materiais que se tornam matéria-prima para as produções. Entre eles estão tecidos novos e retalhos têxteis descartados por confecções, além de cortinas, tapetes e sobras de produção de empresas parceiras. Também são recebidos banners, lonas e estruturas utilizadas em eventos institucionais e corporativos, que seriam descartados após o uso.
Moda sustentável no sistema prisional trabalha a capacitação profissional e a ressocialização de mulheres privadas de liberdadeFoto: Elielson Modesto / Seap
Parcerias – Esses materiais chegam à cooperativa por meio de parcerias com instituições públicas e privadas, incluindo grandes parceiros da iniciativa privada, como planos de saúde da capital paraense, além de organizações e eventos realizados no estado. Todo o processo de recebimento e organização das doações é articulado pela Diretoria de Trabalho e Produção (DTP) da Seap, responsável pela interlocução entre os parceiros e as cooperadas.
As doações são entregues diretamente na unidade prisional, mediante contato prévio com a equipe responsável, garantindo que materiais que seriam descartados sejam reinseridos em um ciclo produtivo sustentável.
Doações de insumos provenientes de diversas instituições parceiras se transformam em peças cheias de estilo e amazonidadeFoto: Elielson Modesto / Seap
Segundo a coordenadora da Diretoria de Trabalho e Produção (DTP) da Seap, Raquel Lima, a base do trabalho desenvolvido é a economia circular, que transforma resíduos em novos produtos com valor social e econômico.
“Uma das coisas que a Coostafe prioriza é essa economia circular, transformar aquilo que era lixo, aquilo que seria descartado, em um produto novo, em algo que outra pessoa vai utilizar de forma produtiva e útil”, destacou.
Além dos materiais têxteis e estruturais, a cooperativa também incorpora elementos naturais da Amazônia às suas produções, como sementes, fibras vegetais, caroços de açaí e fibras como o tururi, extraído de palmeiras da região. Esses materiais são trabalhados manualmente e aplicados em peças de vestuário e acessórios, valorizando a identidade cultural amazônica.
Economia circular é o conceito que fundamenta a ação com mulheres cooperadas no âmbito do sistema penalFoto: Elielson Modesto / Seap
Outro destaque do processo produtivo é o reaproveitamento integral dos materiais. Pequenos retalhos são reutilizados na criação de novos itens e até as embalagens utilizadas na entrega dos produtos são confeccionadas pelas próprias cooperadas, em formato de ecobags feitas com materiais reciclados, reduzindo o uso de plástico e reforçando a sustentabilidade em todas as etapas.
Transformação – De acordo com Raquel Lima, essa lógica de produção também impacta diretamente no custo e no valor agregado das peças.
“A reciclagem para elas também significa redução de custo, maximização de lucros e traz algo muito importante: a ideia de que é possível transformar aquilo em algo novo”, afirmou.
As produções da Coostafe também carregam identidade, história e expressão cultural, resultado do trabalho coletivo das cooperadas, que participam de todas as etapas de criação e desenvolvimento das peças.
As criações serão apresentadas em dois desfiles nos próximos dias. No dia 17 de maio, a Coostafe realizará um desfile na própria sede da cooperativa, em parceria com instituições religiosas de Belém, apresentando peças desenvolvidas com foco na sustentabilidade e na economia circular. Já no dia 19 de maio, a cooperativa participará do 1º Encontro Regional de Educação em Prisões das regiões Norte e Centro-Oeste, promovido pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen).
O trabalho meticuloso para reelaborar o material descartado em peças que agregam à socioeconomia exige atenção e talentoFoto: Elielson Modesto / Seap
Durante o encontro, será apresentada a coleção “Ya temi xoa”, expressão indígena Yanomami que significa “eu ainda estou vivo”, simbolizando a reconstrução de trajetórias e novas possibilidades de vida para as mulheres privadas de liberdade.
Segundo a cooperada Cleodiane Moura de Santos, o trabalho desenvolvido na Coostafe tem impacto direto na forma como ela enxerga o próprio futuro dentro e fora do sistema prisional.
Percepção – “Hoje eu consigo me ver de uma forma diferente. A Coostafe me mostra que eu posso aprender, produzir e reconstruir minha vida com dignidade. Aqui eu entendi que ainda existe um futuro possível para mim”, afirmou.
Cleodiane destaca ainda que o processo de produção é coletivo e envolve diferentes mãos e habilidades. “É uma peça que possui um processo produtivo onde várias mãos e várias habilidades compõem o resultado final”, explicou.
Peças sobre a participação da seleção brasileira na Copa do Mundo são o tema da coleção em destaque para o momentoFoto: Elielson Modesto / Seap
Mais do que sustentabilidade ambiental, o trabalho da Coostafe tem impacto direto na ressocialização das mulheres participantes. A cooperativa atua como espaço de formação, autonomia e reconstrução de perspectivas de vida, contribuindo para o fortalecimento da autoestima e para a ampliação de oportunidades após o cumprimento de suas trajetórias no sistema prisional.
Nesse sentido, iniciativas como a Coostafe demonstram que o reaproveitamento de materiais vai além da preservação ambiental: ele se torna uma ferramenta concreta de transformação social, geração de renda e reinserção, abrindo caminhos reais para novas possibilidades de futuro dentro e fora do sistema prisional.
Interessados em realizar doações de materiais, estabelecer parcerias ou adquirir produtos podem entrar em contato com a cooperativa pelo e-mail [email protected]. As doações são recebidas diretamente na unidade prisional, mediante articulação prévia com a equipe responsável.

