Evento realizado durante três dias, na comunidade Santo Ezequiel Moreno, contou com participação de escolas, comunidades, cooperativas, universidades e instituições parceiras
O encerramento da VIII Feira de Ciências do Rio Acutipereira foi marcado pela premiação de projetos científicos desenvolvidos por estudantes e voltados à realidade, à sustentabilidade, à cultura e aos desafios enfrentados pelos povos ribeirinhos. O evento ocorreu durante três dias na comunidade Santo Ezequiel Moreno, localizada no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PEAEx) Acutipereira, na zona rural de Portel, no Marajó.
A programação foi marcada por muitos debates, reuniões, trocas de experiências e decisões coletivas. Tradicionalmente, o encerramento da Feira inclui a construção e aprovação da Carta da edição, a entrega de certificados aos participantes e o anúncio da comunidade que sediará a próxima edição.
Um dos destaques desta edição foi a participação expressiva de moradores de comunidades da região e também de outras localidades. De acordo com a organização, o público bateu recorde e a grande movimentação chegou a provocar congestionamento no tráfego de embarcações que se deslocavam até a comunidade Santo Ezequiel Moreno.
O PEAEX Acutipereira é formado por 23 comunidades, entre católicas e evangélicas, e está localizado nas proximidades do território quilombola de São Tomé de Tauçu. A EMEF Deus Está Comigo, localizada nesse território, conquistou o primeiro lugar da Feira.
Além dela, participaram outras escolas situadas dentro do PEAEX Acutipereira, entre elas a EMEF Santo Ezequiel Moreno, a EMEF Esterfânia Monteiro, do Rio Anapú, e a EMEF Drª Dalva Patriarca, do Rio Camarapí. Ao todo, nove escolas de dentro do PEAEX participaram da programação.
PROJETOS PREMIADOS
Os projetos apresentados tiveram como característica comum a busca por soluções sustentáveis, de baixo custo, relacionadas diretamente à realidade das comunidades e à valorização dos conhecimentos tradicionais.
O 1º lugar ficou com a EMEF Deus Está Comigo, com o projeto “Sementes crioulas, raízes culturais e expressões artísticas”.
O 2º lugar foi conquistado pela EMEF Santo Ezequiel Moreno, com o projeto “Casa Ribeirinha do Futuro”.
Na terceira colocação ficou a EMEF Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, com o projeto “Água barrenta: conhecer para cuidar”.
O 4º lugar foi da Cooperativa Mirim Santo Ezequiel Moreno, que apresentou o projeto “Saneamento sustentável: tecnologia social na várzea”.
Também participaram da Feira representantes de diversas cooperativas dos municípios de Portel, Bagre e Gurupá.
Projeto transforma dificuldade dos estudantes em inovação
Entre os trabalhos apresentados esteve o projeto “ÁGUAPE – Da invasão à inovação”, desenvolvido pela ERMEIF Irmã Estefânia Monteiro, localizada na Vila do Santo Amaro, no Rio Anapu.
A escola, considerada referência na região, enfrentou uma longa viagem para participar da Feira. A comunidade está localizada a cerca de dez horas de viagem da cidade de Portel. Mesmo diante da distância, professores, profissionais e estudantes seguiram até Santo Ezequiel Moreno para participar da VIII Feira de Ciências, que teve como tema “Um olhar sobre os povos das águas e das florestas”.
O projeto foi desenvolvido por uma equipe de professores e demais profissionais da escola e apresentado por nove alunos. A proposta nasceu a partir de uma realidade enfrentada pelos próprios estudantes: em determinados períodos, alguns deles acabam ficando sem aulas por não conseguirem atravessar os chamados “barrancos”, como são conhecidos na região determinados obstáculos naturais provocados pelas condições do terreno e dos rios.
A experiência transformou uma dificuldade cotidiana em oportunidade de pesquisa e inovação.
Durante a visita aos estandes, o prefeito de Portel, Paulo Ferreira, destacou a importância da Feira e afirmou ter ficado satisfeito em conhecer os projetos apresentados pelos estudantes.
“É uma satisfação poder visitar os estandes. Aqui, no espaço da escola Estefânia Monteiro do Anapu, tem novidade, inovação tecnológica, como a farofa de barranco. É deliciosa e também tem muita inovação aqui na Feira”, afirmou.
O prefeito também relacionou a produção científica apresentada pelos estudantes à necessidade de ampliar a autonomia tecnológica das comunidades.
“É muita inovação maravilhosa para conhecer. A comunidade Santo Ezequiel Moreno, no mês em que comemoramos a Independência do Brasil, mostra que a independência tem que ser a partir de todas essas tecnologias que a gente precisa para nossa comunidade. É isso que eu sempre defendo”, declarou.
Sementes crioulas valorizam memória e conhecimento quilombola
O primeiro lugar conquistado pela EMEF Deus Está Comigo teve como base um projeto sobre sementes crioulas e sua relação com a cultura e a história da comunidade quilombola.
O professor Joandro Nogueira, da escola, destacou que a premiação representa o resultado de um trabalho coletivo.
“Representa muito mais que um prêmio. Representa o reconhecimento de uma construção coletiva. Foi um trabalho feito a muitas mãos: professores, alunos e, principalmente, a nossa comunidade. É a prova de que a escola quilombola tem ciência, tem saber e tem muito a ensinar”, afirmou.
Segundo o professor, a ideia de pesquisar as sementes crioulas surgiu a partir da percepção de que variedades tradicionalmente cultivadas pelas famílias estavam sendo deixadas de lado.
“A gente percebeu que as sementes crioulas estavam ficando esquecidas, sendo substituídas por sementes compradas. E essas sementes que nossos avós guardam há gerações são a nossa verdadeira riqueza. São resistentes, adaptadas ao nosso território e carregam a nossa história. A ideia foi fazer os alunos olharem para a própria roça com olhar de pesquisador”, explicou.
EDUCAÇÃO E CIÊNCIA NO CAMPO
O secretário municipal de Educação de Portel, Elias Saraiva, destacou que a Feira reflete, segundo ele, o trabalho desenvolvido pela administração municipal tanto nas escolas da cidade quanto nas unidades localizadas no campo.
Para o secretário, a renovação tecnológica e a produção científica apresentada pelos estudantes demonstram a importância de levar a educação e a ciência para as comunidades mais distantes da sede municipal.
“A Feira de Ciências do Acutipereira reflete todo o empenho que o governo municipal vem fazendo em nível de educação, seja na cidade, seja no campo, com várias inovações tecnológicas”, afirmou.
Elias Saraiva também informou que trabalhos apresentados no Acutipereira deverão participar da Feira de Ciências realizada na cidade de Portel.
“É importante ressaltar que os trabalhos aqui apresentados irão participar da nossa Feira de Ciências lá na cidade. Temos trabalhos de extrema relevância já apresentados aqui e que já passaram na nossa Feira. É o governo municipal valorizando a ciência e investindo em educação”, declarou.
Comunidade agradece participação e parcerias
O diretor da comunidade Ezequiel Moreno, Teófilo Lacerda, agradeceu a participação das escolas, comunidades, instituições e parceiros que contribuíram para a realização da Feira.
“Queremos agradecer a participação de todos, principalmente das escolas que estão participando. O poder público municipal foi parceiro, assim como pessoas que vieram de Brasília, de Belém e do Marajó”, afirmou.
Ele também citou a participação de universidades, vereadores e instituições que contribuíram para a realização do evento.
Entre os parceiros mencionados estão o Sebrae, Sustenta Inova, Embrapa e UFRA, além da Prefeitura de Portel e das secretarias municipais envolvidas na organização.
Teófilo Lacerda também destacou a presença de escolas do Rio Anapu e do Rio Camarapí, que enfrentaram longas distâncias para participar da programação.
MP NAS ESCOLAS E PARTICIPAÇÃO UNIVERSITÁRIA
A programação contou ainda com ações do projeto MP nas Escolas, do Ministério Público do Estado do Pará, que realizou atividades relacionadas à prestação de contas, infraestrutura e direitos das comunidades da região.
A Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) participou oferecendo suporte pedagógico e logístico durante a programação.
Além das apresentações dos projetos científicos, a Feira promoveu debates sobre agroecologia, cooperativismo e troca de sementes tradicionais, fortalecendo a integração entre conhecimento acadêmico, saberes comunitários e práticas desenvolvidas pelos moradores das áreas rurais e ribeirinhas.
A programação também reuniu representantes de cooperativas de Portel, Bagre e Gurupá, ampliando o intercâmbio de experiências entre diferentes comunidades da região.

CIÊNCIA CONECTADA À REALIDADE AMAZÔNICA
A VIII Feira de Ciências do Rio Acutipereira encerrou sua programação reforçando a proposta de aproximar a ciência da realidade vivida pelos povos das águas e das florestas.
Projetos sobre sementes crioulas, habitação ribeirinha, qualidade da água e saneamento sustentável mostraram como problemas cotidianos podem ser transformados em objetos de pesquisa e inovação pelos próprios estudantes.
A realização do evento contou com apoio da Prefeitura de Portel, Secretaria Municipal de Educação de Portel, Secretaria Municipal de Esporte, Cultura, Lazer e Turismo, Embrapa, Sebrae e UFRA, além da participação das comunidades, escolas, cooperativas e demais parceiros.

Da Redação com informações do PEAEX/Fotos: Agência Imagem 2.0
