Avalanche de lama na fronteira do Nepal com o Tibete deixa 95 mortos e centenas de desaparecidos

Inundação repentina atingiu região de fronteira e engoliu vilas inteiras. Autoridades já registram mais de 400 desaparecidos, a maioria turistas estrangeiros. Itamaraty ainda não disse se há brasileiros no local.

Uma avalanche repentina na fronteira entre o Nepal e o Tibete ocorrida nesta quarta-feira (26) deixou 95 mortos e centenas de desaparecidos.

Vídeos da região mostram cenas assustadoras: a onda de lama desce o vale arrastando pontes, cobrindo um prédio e engolindo vilas na área turística da região.

O Conselho de Turismo do Nepal informou que 384 viajantes que estão no país, sendo 341 estrangeiros, estão desaparecidos após a inundação. O Itamaraty ainda não havia informado, até a mais recente atualização desta reportagem, se havia brasileiros entre os desaparecidos.

Embora não seja muito populosa, a área atingida pela avalanche conecta diversas cidades e vilas e abriga usinas hidrelétricas, além de um posto fronteiriço entre o Nepal e a China — que controla o território do Tibete. O posto é uma das principais vias de portas de entrada e saída para quem viaja entre os dois países.

Terreno montanhoso, lagos glaciais e terremoto

A região tem um terreno acidentado e íngreme. As autoridades suspeitam que um terremoto de magnitude 4,4 aproximadamente sete minutos antes do horário indicado nas imagens possa ter provocado o deslizamento. Vale lembrar que, no ano passado, uma inundação semelhante no mesmo rio foi atribuída ao esvaziamento de um lago glacial.

Encaixado entre a Índia e a China, o Nepal, abriga oito dos 14 picos mais altos do mundo. A região faz parte dos Himalaias, que é uma das maiores cadeias de montanhas do mundo. Os Himalaias concentram a maioria dos picos mais altos da Terra, incluindo o Everest.

Especialistas especulam que a tragédia pode ter relação direta com uma inundação por rompimento de lago glacial (Glacial Lake Outburst Flood – GLOF). O Nepal está entre os países mais vulneráveis a esse tipo de desastre porque os Himalaias estão derretendo rápido, formando e expandindo lagos glaciares.

Muitos desses lagos ficam no Tibete e descarregam nos rios que descem para o Nepal. O próprio corredor do Rio Bhote Koshi já sofreu um GLOF confirmado em 2025. Por isso há a suspeita, ainda não confirmada, de que a mega avalanche possa ter sido alimentada pelo rompimento de lagos glaciares depois de um terremoto na área minutos antes do desastre.

DESTRUIÇÃO DE VILAS E ESTRUTURAS

O distrito montanhoso de Rasuwa, no Nepal, que tem uma população de cerca de 50 mil habitantes, foi um dos locais mais atingidos. Helicópteros de resgate não conseguiram pousar nas áreas afetadas.

“Há devastação por toda parte. Os assentamentos próximos ao rio foram completamente destruídos”, disse Tula Bahadur BK, uma profissional de saúde em Rasuwa, à Reuters.

A enxurrada atingiu Syabrubesi, ponto de partida da famosa trilha do Langtang, e outras áreas frequentadas por viajantes que fazem o passeio de peregrinação hindu ao Kailash Mansarovar.

Imagens registradas por moradores, turistas e por TVs locais registraram o momento em que a avalanche toma conta da área, engolindo vilas inteiras e até um posto de controle (veja abaixo).

Uma das imagens mostram dezenas de casas destruídas pelas águas da enchente, carros flutuando e uma ponte de metal sendo levada pela correnteza do Rio Trishuli.

No condado de Gyirong, no Tibete, um deslizamento atingiu uma passagem de terra entre os dois países. Há vários desaparecidos, entre eles oito sul-coreanos que trabalhavam em uma usina hidrelétrica.

Segundo a agência de notícias oficial chinesa Xinhua, a avalanche de lama ocorreu no lado nepalês e atingiu o porto local, interrompendo estradas, comunicações e fornecimento de energia na região de Shigatse.

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, afirmou que policiais e militares estão se unindo aos esforços de resgate. O Exército nepalês disse ter resgatado 88 pessoas.

Do G1/Foto: Dhara Pereira / Reuters