Incêndio em área desintrudida da Terra Indígena Apyterewa preocupa aldeia Parakanã no sul do Pará

Um incêndio que se prolonga há cerca de uma semana na Terra Indígena (TI) Apyterewa, em São Félix do Xingu, no sul do Pará, mantém brigadistas e lideranças indígenas em alerta. As chamas atingem uma extensa área que anteriormente era utilizada ilegalmente para criação de gado e que passou recentemente por uma operação de desintrusão para retirada de ocupantes não indígenas.

Até a atualização mais recente, divulgada nesta quarta-feira (26), o fogo ainda não havia alcançado a mata fechada. O principal temor é que a combinação entre estiagem, vegetação seca e ventos fortes altere a direção das chamas e provoque o avanço do incêndio para áreas de floresta mais preservada.

A preocupação também envolve a proximidade de uma aldeia do povo Parakanã. Uma eventual mudança na direção do fogo poderia aumentar o risco para a comunidade e provocar maior concentração de fumaça na região.

ÁREA PASSOU POR DESINTRUSÃO

O local atingido pelas chamas vinha sendo acompanhado após a retirada de invasores, entre eles grileiros e criadores de gado que ocupavam ilegalmente o território indígena.

A Apyterewa é território tradicional do povo Parakanã e está entre as terras indígenas historicamente pressionadas por desmatamento, ocupações irregulares e exploração ilegal. A desintrusão realizada pelo governo federal teve como objetivo retirar ocupantes não indígenas e reforçar a proteção territorial e a segurança das comunidades indígenas.

O incêndio ocorre justamente em uma área que havia sido transformada em pastagem durante o período de ocupação ilegal. A permanência do fogo amplia a preocupação ambiental, principalmente diante da possibilidade de as chamas deixarem as áreas já degradadas e avançarem para a floresta.

377 focos de calor em menos de três meses

Dados do Instituto Socioambiental (ISA), baseados em monitoramento por satélite realizado entre 31 de maio e 23 de agosto de 2026, dimensionam a pressão das queimadas sobre a Apyterewa.

No período, foram identificados 377 focos de calor dentro da Terra Indígena. O cenário se agravou de forma significativa em agosto: 340 focos, ou 90,2% do total, foram registrados somente neste mês.

O levantamento aponta ainda que parte dos focos apresentou elevada intensidade de energia radiativa, indicando queimadas com maior quantidade de biomassa sendo consumida. A situação é agravada pelo período de estiagem, que deixa a vegetação mais suscetível à propagação das chamas.

Corpo de Bombeiros ainda não havia sido acionado

Em atualização publicada na ontem (25), o Corpo de Bombeiros Militar do Pará informou que não havia sido acionado para atender à ocorrência na Apyterewa. A reportagem também buscou informações junto à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Enquanto o fogo permanece concentrado principalmente em áreas de pastagem e vegetação degradada, a mudança das condições climáticas é o principal fator de preocupação para quem acompanha a ocorrência.

A situação coloca novamente a Terra Indígena Apyterewa no centro do debate sobre a proteção dos territórios indígenas no Pará. Além dos impactos ambientais, o avanço das queimadas em áreas anteriormente ocupadas ilegalmente representa uma ameaça potencial à floresta e às comunidades que vivem no território.

O cenário desta quarta-feira (26) é de atenção: o fogo ainda não havia atingido a mata fechada, mas a proximidade da aldeia Parakanã e as condições de seca e vento mantêm o risco de avanço das chamas.

Da Redação do Jornal PASSAPORTE/Foto: Reprodução G1