O governo federal corre contra o tempo para destravar a concessão da Hidrovia do Paraguai, considerada estratégica para o escoamento de minérios e grãos no Centro-Oeste e na fronteira com países vizinhos. Na fase final das negociações diplomáticas, Brasília trabalha para enviar ainda neste ano ao Congresso Nacional um projeto de lei que ratifique o acordo internacional envolvendo Brasil, Paraguai e Bolívia.
A iniciativa prevê a concessão de um trecho de cerca de 600 quilômetros entre Corumbá (MS) e a Foz do Rio Apa, em Porto Murtinho (MS), com investimentos estimados na casa de dezenas de milhões de reais e expectativa de ampliar significativamente a capacidade logística da região.
O projeto, no entanto, depende de um alinhamento delicado entre os três países, já que a hidrovia atravessa territórios nacionais distintos e exige regras comuns de navegação, fiscalização e regulação. Além do aval dos governos, o acordo precisará ser aprovado pelos Parlamentos dos três países, o que adiciona uma camada política ao cronograma.
ENTRAVES E NEGOCIAÇÃO INTERNACIONAL
O principal desafio está justamente na definição de quem será responsável pela regulação e fiscalização do corredor hidroviário. O modelo em discussão prevê uma gestão compartilhada, com padronização de serviços como balizamento, sinalização náutica, monitoramento hidrológico e controle ambiental.
Apesar dos entraves, o governo brasileiro avalia que há convergência de interesses entre os países envolvidos, o que tem permitido avanços nas tratativas. Uma proposta recente apresentada pelo Paraguai ainda está sendo analisada por Brasília, que deve responder com uma contraproposta nas próximas semanas.
IMPACTO ECONÔMICO E LOGÍSTICO
A concessão da hidrovia é vista como peça-chave para desafogar corredores logísticos tradicionais, como o Porto de Santos, e ampliar a competitividade do transporte hidroviário no Brasil — ainda pouco explorado frente ao potencial do país.
Nos últimos anos, o volume de cargas transportadas no chamado “Tramo Sul” da hidrovia quadruplicou, alcançando cerca de 9,4 milhões de toneladas em 2025, com predominância do minério de ferro, responsável por mais de 80% da movimentação. A projeção do setor é que esse volume possa ultrapassar 30 milhões de toneladas anuais com melhorias na infraestrutura e na navegabilidade.
INTERESSE DO SETOR PRIVADO
A expectativa em torno do projeto é alta entre investidores e operadores logísticos. A concessão deve garantir maior previsibilidade e segurança para o transporte fluvial, permitindo operação durante todo o ano — algo que hoje ainda enfrenta limitações por falta de dragagem e infraestrutura adequada em alguns trechos.
Mesmo assim, o calendário eleitoral e a complexidade das negociações internacionais devem empurrar o lançamento do edital para 2027, segundo avaliação de especialistas e integrantes do próprio governo.
Marco para o setor hidroviário
Se avançar, a concessão da Hidrovia do Paraguai será a primeira do tipo no Brasil voltada à prestação de serviços de infraestrutura hidroviária. O modelo não prevê a privatização do rio, mas sim a cobrança pelos serviços prestados às embarcações de carga.
A iniciativa é vista como um teste para futuras concessões no setor, que ainda representa uma pequena fatia da matriz de transporte brasileira, apesar do vasto potencial hidrográfico do país.
Com a reta final das negociações em andamento, o governo aposta em um acordo político e técnico que permita tirar o projeto do papel e consolidar um novo eixo logístico na América do Sul.
Da Agência Ronabar/Foto: Agência Infra
