Mais de 21 mil agentes percorrem os 144 municípios do Pará. A aposentadoria especial aprovada pelo Senado reconhece uma profissão que enfrentou epidemias caminhando.
O dia ainda nem clareou direito quando eles já estão na rua. Uma prancheta, um tablet, uma mochila nas costas e uma lista de nomes que quase nunca precisa ser consultada. Sabem onde mora a gestante, o hipertenso, a criança que faltou à vacina, o idoso que vive sozinho. Antes mesmo de o posto de saúde abrir as portas, os agentes comunitários de saúde já começaram a cuidar da vida dos outros.
Os agentes de combate às endemias fazem outro percurso. Entram em quintais, levantam tampas de caixas d’água, procuram o mosquito que ninguém vê, orientam moradores, enfrentam cães, chuva, calor e, não raro, portas fechadas. Trabalham para impedir que uma epidemia comece justamente onde quase ninguém olha.
No Pará, são 17.079 Agentes Comunitários de Saúde e 4.352 Agentes de Combate às Endemias, presentes nos 144 municípios. São mais de 21 mil profissionais que ligam o SUS às comunidades urbanas, rurais, indígenas e ribeirinhas, muitas vezes chegando de rabeta onde a ambulância ainda não consegue chegar.
A aprovação da PEC 14 no Senado, concedendo aposentadoria especial a essas categorias, é um momento histórico, como festejou o deputado federal Keniston Braga (MDB-PA), envolvido com essa luta desde os primeiros momentos. “Era chegada a hora de fazer justiça aos ACSs e ACEs. Essa função é, nada mais, nada menos, que a porta de entrada do SUS. É através deles que conseguimos reduzir o impacto dos gastos da saúde”, festejou Keniston. “Eles chegam primeiro. Há agentes que acommpanham o nascimento de crianças, viram essas crianças crescerem e se tornarem pais e avós”, lembrou.
Segundo Keniston, que participou de várias reuniões com a categoria e acompanhou os agentes nas reuniões no Congresso, as dimensões continentais do Pará, por exemplo, e as diferentes condições de trabalho enfrentadas pelos ACEs e ACSs sempre provocaram insegurança sobre o futuro desses profissionais. “Agora, a justiça está sendo feita e nós ainda vamos lutar para ampliar essas conquistas”, disse.
Os agentes enfrentam de tudo. Vieram as epidemias de dengue, zika e chikungunya. Depois, a covid-19. E enquanto boa parte da população se recolhia, eles continuavam batendo de porta em porta para orientar famílias, acompanhar pacientes e combater a desinformação.
Em relatos publicados por agentes nas redes sociais e em reportagens sobre a profissão, repetem-se histórias de quilômetros caminhados sob o sol amazônico, botas cobertas de lama e a alegria silenciosa de encontrar uma criança vacinada ou um paciente recuperado.
“O ACS é um elo muito importante entre as famílias e a Estratégia Saúde da Família. Porém, muitas vezes, não somos reconhecidos pelo nosso trabalho”, resumiu a agente comunitária Sônia Maria Santana dos Santos Lima, em depoimento no Ministério da Saúde. Uma frase dita no Piauí, mas que poderia ter sido escrita por qualquer agente paraense.
É um trabalho que quase nunca vira manchete quando tudo dá certo. Mas basta surgir uma nova ameaça sanitária para que esses profissionais estejam outra vez nas ruas.
Talvez por isso, a aprovação da PEC 14/2021 tenha sido recebida com tanta emoção. A proposta assegura aposentadoria especial após 25 anos de efetivo exercício e fortalece a proteção funcional dos agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, reconhecendo que décadas de exposição ao sol, às doenças e às longas caminhadas deixam marcas que nem sempre aparecem nas estatísticas.
No fim do expediente, eles fecham a prancheta, mas raramente deixam o trabalho para trás. Continuam sendo chamados pelo nome na rua, na feira ou na porta de casa. Porque quem dedica uma vida inteira a cuidar da saúde de uma comunidade acaba se tornando parte dela. E talvez seja essa a verdadeira conquista por trás da nova aposentadoria: lembrar ao Brasil que aqueles que passaram tantos anos batendo à nossa porta também mereciam, enfim, que uma porta se abrisse para eles.
Da Agência Pauta Parlamentar
