Não bastou passar de 167 mil: o Ibovespa desembestou a subir e ultrapassou barreiras inéditas dos 168 mil, 169 mil, 170 mil e 171 mil! Tudo isso hoje. Tudo isso em uma sessão. Tudo isso por um discurso – o de Donald Trump, presidente dos EUA, em Davos, na Suíça. O Ibovespa terminou com alta de 3,33%, aos 171.816,67 pontos, um ganho arrebatador de 5.339,77 pontos. Inacreditável!
Eis os recordes de hoje: maior patamar de fechamento da história, a primeira vez acima de 171 mil; o maior nível já alcançado pelo índice em todos os tempos, com 171.969,01 pontos na máxima do dia; maior alta em uma única sessão desde os 4,29% de 11 de abril de 2023.
O real também aproveitou o momento e fez o dólar comercial cair 1,13%, a R$ 5,320. Os DIs (juros futuros) desceram por toda a curva – e desceram com amplitude.
Trump fala em Davos
O foco todo estava no discurso de Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Pela reação do mercado, parece que o presidente dos EUA foi um doce e agradou a todos. Não, pelo contrário. É que o mercado é pragmático e, de todos os impropérios mal-educados que o líder norte-americano falou sobre a Europa, seus aliados, imigrantes, energia limpa, de todos os dados distorcidos e não verdadeiros, o que se pinçou foi uma frase que acalmou a todos: o uso militar sobre a Groenlândia não está sobre a mesa; Trump nem pensa nisso – pelo menos é o que ele externou, pelo menos por enquanto.
Um pouco mais adiante, depois de encerrado o discurso, ele disse ter um “desenho” de acordo sobre a Groenlândia com a Otan e acabou recuando nas tarifas que havia anunciado para ameaçar os parceiros europeus por causa da ilha dinamarquesa e que iriam entrar em vigor já em 1º de fevereiro.
Trump venceu novamente. Conseguiu forçar um acordo sobre algo que não era uma questão para ninguém, mas que seu governo tomou como prioridade. A Europa caiu de joelhos. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, afirmou que é “positivo” que Trump tenha declarado que deseja evitar o uso da força militar na Groenlândia, mas que isso não resolve a crise.
O mandatário norte-americano zombou de todos: falou mal da Suíça, disse que os países ali em Davos, que estavam na plateia, não existiriam se não fossem os EUA, fez troça de Emmanuel Macron, presidente da França, afirmou que os EUA ganharam sozinhos a Segunda Guerra ou “todos ali estariam falando alemão ou talvez japonês” – sendo que uma parte da Suíça de fato fala alemão –, chamou a Suíça, anfitriã do Fórum, de “pequeno país”, entre outras coisas de fazer corar até o menos diplomático dos diplomatas presentes. Ele não liga – e deu certo.
Europa tenta responder e NY sobe
Ou mais ou menos. Enquanto falava, o Parlamento Europeu suspendeu o acordo com os EUA feito há pouco menos de dez meses, por ocasião das primeiras tarifas anunciadas. Os líderes europeus prometem peitar à altura, pelo menos comercialmente, a lábia desenfreada – e pouco educada – de Trump.
O mercado financeiro gostou do recuo na ação militar e nas tarifas de Trump em relação à Europa, e as ações em Nova York, que vinham com altas tímidas, dispararam. Os investidores não querem palavras educadas, querem só previsibilidade e nenhum ruído – algo que Trump não tem entregado exatamente. Já as bolsas europeias, que fecharam antes do recuo das tarifas ser anunciado, encerraram o dia mistas e sem força. O ouro, mais uma vez, fechou em alta.
Ucrânia e China
Trump fez tudo isso em poucas horas e ainda teve mais assunto em sua metralhadora verbal giratória. Disse que o acordo para o fim da guerra na Ucrânia “está próximo” – mas ele já falou isso outras tantas vezes. Falou sobre a economia de seu país, sobre o ex-presidente Joe Biden, seu assunto preferido, sobre Rússia, Gaza, Canadá, China e por aí vai.
A China mantém a liturgia diplomática, pelo menos para a plateia geral, e rejeitou a especulação de que competiria por influência no Ocidente, justamente no momento em que a tentativa dos EUA de assumir o controle da Groenlândia ameaça remodelar a dinâmica de poder de uma aliança de segurança transatlântica de décadas. Os chineses optaram pela distância.
Cenário doméstico
Ainda sobrou espaço para o noticiário doméstico, por incrível que pareça. Em nova rodada da pesquisa AtlasIntel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu novamente liderando todos os cenários, mas com uma vantagem menor sobre Flávio Bolsonaro, que volta a mostrar competitividade após sondagem da Quaest mostrar retrato similar. Essa diminuição da vantagem de Lula animou os mercados.
Com isso, e mais o movimento de rotação estrangeira para mercados como o Brasil, o Ibovespa agradeceu e entregou fortes ganhos.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, disse que “a alta reflete a continuidade do forte fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira, em meio a uma rotação global para mercados emergentes, favorecida pelo alívio geopolítico após declarações mais moderadas de Donald Trump em Davos. No plano doméstico, pesquisas eleitorais indicando avanço nas pesquisas do candidato da oposição também ajudaram a melhorar a percepção de risco local, consolidando um pregão de bolsa em patamar recorde, dólar em menor nível no ano e forte movimento de queda dos juros futuros”.
Vale, Petrobras e bancos disparam
O especialista resumiu muito bem o que se passou em São Paulo hoje, mas os números são mais contundentes.
A Vale (VALE3) subiu incríveis 3,02%, em dia de forte capitalização. Segundo o analista Einar Rivero, citando levantamento da Elos Ayta, “o desempenho das ações da Vale chama atenção não apenas pela liderança isolada (no volume de negociação), mas também pelo caráter histórico. O volume médio diário parcial de janeiro de 2026 representa o maior nível de negociação do papel desde dezembro de 2022, quando a ação movimentou R$ 2,56 bilhões por dia. O dado reforça a relevância da mineradora como principal vetor de liquidez individual”.
O levantamento, com base no volume financeiro médio diário mensal até o dia 20 de janeiro, mostra que a Vale lidera com ampla vantagem, ao movimentar R$ 2,32 bilhões por dia.
Mas, como apenas a TIM (TIMS3) recuou nesta sessão, com 1,11%, por rebaixamento da ação por parte de analistas, vale destacar as altas que mais impressionaram: Petrobras (PETR4) ganhou 3,53%, assim como os bancos avançaram todos acima de 2%, com Itaú Unibanco (ITUB4) registrando valorização de 4,38%.
Os varejistas não ficaram atrás: C&A (CEAB3) disparou amplos 7,93%, com Lojas Renner (LREN3) ganhando 6,39%.
O JPMorgan avalia que o Brasil está bem posicionado para se beneficiar do movimento global de alocação em mercados emergentes, em um cenário de retomada de fluxos para a classe de ativos no início de 2026, e listou cinco razões pelas quais enxerga espaço para estar ainda mais otimista com a Bolsa nacional. O fiscal ainda é um problema, segundo a XP, e a questão precisa ser abordada.
A quinta-feira terá um retorno de foco aos indicadores econômicos, já que os EUA divulgam o PIB do 3T25 e a inflação PCE, de consumo pessoal e referente a novembro, o índice preferido do Federal Reserve para fins de política monetária. Se Donald Trump não tomar o protagonismo novamente, as atenções cairão nesses números. Mas, sabe-se, com Trump tudo pode acontecer. (Fernando Augusto Lopes)
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