Com o Fundo Garantidor de Crédito pagando as aplicações do Banco Master, 1,6 milhão de investidores vão ter de decidir o que fazer com os R$ 41 bilhões que receberão de volta. O valor médio, de R$ 25 mil por investidor, ante o teto de R$ 250 mil garantidos pelo FGC, mostra que há muitas quantias pequenas de investidores sem muito conhecimento de mercado e que devem estar escaldados após a quebra do banco e o susto com a demora na devolução do dinheiro.
O mais provável é que o destino desses recursos seja aplicações conservadoras de renda fixa, diz João Arthur, CIO da Suno Wealth. “Temos de partir do pressuposto de que geralmente o dinheiro de CDBs, qualquer que seja o indexador, CDI, pré ou IPCA, era para ser aplicação conservadora ou no máximo moderada”, afirma. “Ele tinha esse carimbo, mas a aplicação se mostrou mais arriscada do que deveria, mesmo com algumas pessoas apontando esse risco há muito tempo”, acrescenta.
Impacto financeiro e psicológico
Para Arthur, por mais que pessoa vá receber o dinheiro de volta pelo FGC, o processo todo teve um impacto, financeiro e psicológico. Do decreto de liquidação do Master até o pagamento, o dinheiro ficou sem render por quase três meses, o que pode levar o ganho a ficar até abaixo do CDI.
Para ele, como o investidor se deparou com um risco que não esperava, quando o dinheiro voltar, irá para aplicações mais conservadoras.
Tesouro Selic
E aí a opção seria o Tesouro Selic, ou LFT, porque é a aplicação mais conservadora do Tesouro Direto, explica Arthur. Além disso, a taxa Selic está hoje em 15% e, mesmo com a expectativa de queda ao longo de 2026, seguirá atrativa. “O mercado, segundo o relatório Focus, projeta a Selic em 12,25% no fim do ano, e o mais otimista do mercado fala em 11%, mas na prática vamos ter uma Selic média muito alta”, explica o executivo, lembrando que o juro “sobe de elevador, mas desce de escada, devagar, 0,25 ponto, 0,50 ponto a cada reunião”. Por isso o Tesouro Selic deve continuar sendo uma boa opção para esse capital.
CDB de bancão
Outro destino podem ser os títulos bancários de primeira linha, o que deve ser até uma consequência dessa crise, acredita Arthur. Segundo ele, os investidores devem passar a priorizar títulos de bancos de primeira linha, de grandes bancos como Bradesco, Itaú Unibanco, BTG Pactual e Santander Brasil, que vão passar a ter suas LCAs e LCIs e seus CDBs mais demandados.
“Os investidores vão ter um retorno menor, é óbvio, mas porque o risco é menor, pois não se espera que essas instituições passem pela situação que o Master passou”, diz.
Fundos, com cautela
Outra aplicação, mas que demanda um pouco mais de cuidado na análise, são os fundos abertos de renda fixa. “Aí o investidor precisa ver a liquidez do fundo, se o resgate é em 5, 10 ou 30 dias, se isso é condizente com o perfil do investidor, e analisar também os ativos e passivos desse fundo”, afirma Arthur.
O ativo são as debentures que esses fundos compram, e o executivo observa que hoje esses papéis estão com um spread ou prêmio de crédito, que é quanto a empresa paga acima do juro dos títulos públicos, um pouco baixo. “Então é preciso analisar se está compensando a relação risco-retorno”, diz.
Perfil de investidor importa
O investidor precisa também verificar o perfil do passivo do fundo, ou seja, quem aplica nele. Se o fundo for muito concentrado no varejo e se ocorrer um estresse no mercado e o prêmio das debêntures subir, provocando prejuízos para as cotas, pode haver um movimento forte de resgates e o fundo teria de vender papéis em um momento ruim e com prejuízo para cobrir os saques, o que ampliaria as perdas.
“Então, dá para investir nesses fundos, desde que com muito critério, selecionando fundos que tenham um passivo bem pulverizado, bem estabilizado, e uma base de investidores de longo prazo”, afirma Arthur.
Rendimento magro nos isentos
Com relação aos papéis isentos, o executivo da Suno diz que a preocupação é que a maioria dos papeis está hoje com spreads muito apertados. Segundo ele, esses títulos chegaram a pagar 0,4 ponto percentual menos que os títulos públicos semelhantes e agora esse spread está zerado. “O prêmio melhorou um pouco, mas na minha visão ainda é preciso muito cuidado para ver se não se está correndo um risco muito alto sem ter um ganho bom em troca”, diz.
E há ainda o risco de liquidez, que é muito menor que a dos títulos públicos e que pode complicar a vida de quem precisar do dinheiro antes do vencimento. “Então precisa ver se você está sendo compensado por esses dois riscos”, diz.
Preguiça bem renumerada
Sobre a tentação de investir em bolsa depois da forte alta do ano passado, Arthur diz que o investidor precisa respeitar seu perfil de risco. Além disso, com o ganho atual da renda fixa, o investidor pode ter retornos altos sem precisar se arriscar na renda variável. “O Brasil é um país que remunera muito bem a preguiça, é só colocar o dinheiro no CDI e não fazer besteira que ele chega lá.”
Hora do freio de arrumação
Para Patrícia Palomo, planejadora financeira CFP pela Planejar, o pequeno investidor que tinha CDB do Master se vê diante de uma situação que mistura alívio e desconforto, pois mesmo o dinheiro retornando, a confiança fica abalada.
Segundo ela, com os recursos liberados, a decisão mais racional não é correr para substituir o investimento perdido por outro com rentabilidade semelhante, e sim usar esse momento para reorganizar a estratégia, entendendo para o que aquele dinheiro serve, qual o prazo real de uso e qual grau de risco é compatível com sua tranquilidade financeira.
“Em muitos casos, o primeiro movimento adequado é estacionar os recursos temporariamente em aplicações de altíssima liquidez e baixo risco, ganhando tempo para decidir com clareza, sem a pressão do ‘preciso reaplicar agora’”.
Espaço para diversificar
Considerando um valor médio de R$ 25 mil, o investidor tem um leque amplo dentro da renda fixa que não exige assumir riscos excessivos, afirma Patrícia. É possível utilizar títulos públicos atrelados à taxa básica de juros para liquidez e estabilidade, combinar parte do valor com títulos indexados à inflação para preservação do poder de compra ao longo do tempo, ou ainda recorrer a CDBs, LCIs ou LCAs de instituições mais sólidas, respeitando prazos e entendendo exatamente a remuneração líquida.
O valor também permite dividir o dinheiro em mais de um produto, o que reduz a dependência de um único emissor e transforma a renda fixa em um instrumento de proteção e organização patrimonial, e não apenas de rentabilidade.
Garantido, “pero no mucho”
Ao reaplicar esse valor, o principal cuidado, segundo ela, é não repetir o erro que normalmente antecede casos como o do Master, que é decidir com base apenas na taxa prometida. “É fundamental olhar quem é o emissor, qual é a solidez do balanço, como funciona a liquidez do produto e em que situação o dinheiro pode ser resgatado sem perdas relevantes”, diz.
Ela acrescenta que é essencial compreender que a existência do FGC não transforma qualquer investimento em seguro, porque o processo de ressarcimento envolve tempo, burocracia e estresse, fatores que raramente entram no cálculo inicial do investidor.
