A divulgação do IPCA de dezembro, que registrou alta de 0,33%, trouxe uma confirmação importante para o mercado financeiro: a inflação oficial de 2025 encerrou o ano acumulada em 4,26%. O número ficou dentro da margem de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, contrariando as previsões pessimistas de muitos economistas no início do ano passado. Em janeiro de 2025, o Boletim Focus mostrava previsão de 4,99% para o IPCA no ano.
Diante de um cenário de preços mais comportados, a dúvida que paira sobre a carteira do investidor é: ainda vale a pena investir em títulos de renda fixa atrelados à inflação ou chegou o momento de apostar tudo nos prefixados?
O consenso entre especialistas ouvidos pelo InfoMoney é que, embora o cenário favoreça a tomada de risco em taxas prefixadas, abrir mão da proteção inflacionária pode ser um erro estratégico.
Janela de oportunidade dos prefixados
Com a expectativa de que a inflação permaneça comportada, a renda fixa prefixada pode ser ferramenta tática para os portfólios. A lógica é simples: travar uma taxa alta hoje, antes que o mercado ajuste os juros para baixo.
Para Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, o momento atual permite capturar um ganho real (acima da inflação) muito expressivo. “Se acreditamos que a inflação ficará em 4% e temos títulos prefixados pagando 13% ou 14%, você trava um ganho real alto sem depender da volatilidade diária do IPCA”, explica Patzlaff.
Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, concorda que existe uma oportunidade, especialmente para prazos mais curtos. “Para vencimentos de até dois anos, entendemos haver boas alternativas tanto no Tesouro Direto quanto em emissões bancárias e corporativas”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que à medida que as expectativas de inflação caem, as taxas nominais dos prefixados também tendem a se ajustar.
Tesouro IPCA+: O seguro da renda fixa
Apesar do apelo dos prefixados, os especialistas alertam que abandonar os títulos atrelados à inflação com base apenas no cenário atual é arriscado. “Pense no Tesouro IPCA+ como o seguro do seu carro, você não deixa de pagar o seguro só porque acredita que vai dirigir com cuidado”, compara Patzlaff. “Ele existe para proteger seu poder de compra, sempre pensando no médio ou longo prazo e, mesmo com a inflação controlada, os títulos IPCA+ estão pagando um juro real alto.”
Bruno Perri reforça essa visão, destacando que as taxas atuais de juro real ainda são historicamente elevadas, o que justifica manter — e até alongar — essas posições. “Entendemos que, nos patamares atuais de juros reais, não só é justificável como muitíssimo atrativo manter posições mais longas em indexados ao IPCA, sobretudo em vencimentos como 2029 e 2030 ou até um pouco além. Títulos nesses vencimentos possuem taxas reais superiores a 7,5%”, detalha o economista-chefe da Forum Investimentos.
Carregar ou Vender?
Outro ponto de atenção é a possibilidade de ganho de capital com a valorização dos títulos no mercado secundário por meio da marcação a mercado, caso os juros caiam mais rápido do que o esperado.
Patzlaff aponta que, com o provável início do ciclo de cortes da Selic, quem estiver posicionado pode ver seus títulos se valorizarem. “Existe uma oportunidade clara de ganho de capital no curto prazo. Se a inflação se confirmar controlada e a Selic cair mais rápido do que o esperado, os títulos prefixados vão valer muito mais”, diz.
No entanto, ele recomenda cautela: “o foco principal deve ser garantir a rentabilidade contratada”. Para o especialista, “o mais inteligente é comprar com a intenção de levar até o vencimento, mas monitorar o preço, e se houver uma valorização no mercado secundário, avaliar a venda antecipada.
Para Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, tentar escolher entre um ou outro baseando-se em previsões econômicas é uma armadilha. Ele lembra que, embora a inflação esteja em 4% hoje, o cenário pode mudar drasticamente em alguns anos. O especialista diz que querer adivinhar o futuro é um “erro clássico” e exemplifica: “se a inflação for para 15% nos próximos anos, seu prefixado vai te machucar. No entanto, seu título de inflação vai te entregar uma excelente rentabilidade.”
Costa recomenda que o investidor reconheça que não conhece o futuro e, a partir daí, diversifique seu portfólio, com uma alocação 50/50 entre os dois indexadores. “Você não precisa saber para onde vai a curva de juros, mas pode colocar metade dos recursos em renda fixa de longo prazo atrelada à inflação e a outra metade em prefixados”.
