Direção nacional oficializa apoio ao candidato do PL, enquanto dez estados reagem e defendem a reeleição do petista; divisão expõe disputa de poder dentro do partido
O MDB entrou de vez na disputa presidencial do segundo turno, mas está longe de falar a mesma língua em todo o país. Nesta terça-feira (13), a maioria dos diretórios estaduais oficializou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), enquanto uma ala organizada da legenda anunciou que permanecerá com Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No Pará, o partido está do lado do presidente, seguindo a orientação de Helder Barbalho.
O placar político é claro: 17 dos 27 diretórios estaduais apoiam Flávio Bolsonaro, enquanto dez declararam apoio à reeleição de Lula. O resultado representa uma vitória da ala que defendia a aproximação com o bolsonarismo, mas também escancara a resistência de lideranças emedebistas que mantêm alianças com o atual governo federal.
O movimento foi noticiado pelo UOL e pela Exame, que destacaram a articulação do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e de outras lideranças para viabilizar o apoio majoritário ao candidato do PL.
Na prática, a direção nacional tomou partido, mas não conseguiu unificar a legenda. O MDB chega ao segundo turno com duas estratégias presidenciais convivendo sob o mesmo nome e disputando espaço político.
Flávio conquista a maioria, mas não leva o MDB inteiro
A formalização do apoio a Flávio Bolsonaro representa uma mudança importante em relação ao primeiro turno. Em julho, o MDB havia decidido pela neutralidade nacional, deixando os diretórios estaduais livres para escolher suas alianças.
A solução permitiu que grupos com interesses diferentes continuassem atuando dentro da mesma legenda. Depois do resultado das urnas, porém, a pressão por um posicionamento nacional aumentou, e a ala favorável ao candidato do PL ganhou força.
A articulação liderada por Ricardo Nunes contou com o apoio de dirigentes que defendem uma agenda voltada à responsabilidade fiscal, ao agronegócio, à segurança pública e ao fortalecimento dos municípios. O presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, apresentou esses temas como pontos de convergência com Flávio.
O movimento também acompanha a ampliação da rede de apoios ao candidato do PL no campo político de centro e centro-direita. Para essa ala do MDB, a aproximação representa uma oportunidade de fortalecer sua influência na disputa nacional.
Mas existe um detalhe importante: a decisão majoritária não equivale a uma adesão unânime. Dez diretórios estaduais se movimentaram para deixar isso explícito.
REAÇÃO DO GRUPO LULISTA
No mesmo dia em que o apoio a Flávio foi oficializado, os diretórios do MDB favoráveis a Lula divulgaram uma carta defendendo a continuidade do governo petista.
Assinaram o documento as direções estaduais do Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Paraíba e Rondônia.
A manifestação destaca programas sociais, investimentos em infraestrutura, geração de emprego e renda e redução das desigualdades. O grupo também defende a manutenção de iniciativas federais nas áreas de saúde, educação, habitação e assistência social.
Além de declarar apoio político, os diretórios convocaram prefeitos, parlamentares e lideranças a participar da campanha de Lula, com mobilização pública e atuação nas redes sociais.
A resposta foi uma demonstração de que a corrente favorável ao presidente pretende continuar disputando espaço dentro do MDB, apesar de ter ficado em minoria na decisão nacional.
O confronto, portanto, não é apenas entre duas candidaturas. Também envolve a disputa pela direção política de uma legenda que reúne interesses regionais e grupos com diferentes relações com o governo federal.
Helder Barbalho escolhe Lula e contraria a maioria nacional
No Pará, o MDB não acompanhou a orientação predominante na direção nacional. O diretório estadual aderiu ao grupo que apoia Lula, em sintonia com Helder Barbalho, principal liderança emedebista paraense e senador eleito em 2026.
A posição não chega como surpresa. Helder mantém uma relação política próxima com o presidente e integra um campo de alianças que se consolidou durante os últimos anos. Para o grupo paraense, a continuidade dessa aproximação tem importância política e institucional.
O contraste, contudo, é evidente: enquanto a maioria nacional do MDB se posiciona a favor de Flávio Bolsonaro, a direção paraense defende a permanência de Lula no Palácio do Planalto.
A decisão também mostra que a força da direção nacional não elimina a autonomia dos grupos estaduais. A convenção de julho abriu espaço para escolhas regionais, e a manifestação conjunta dos dez diretórios reforçou esse entendimento.
É importante não confundir, porém, o posicionamento oficial com uma unanimidade entre os eleitores e filiados. O apoio do MDB paraense a Lula não significa que todos os integrantes da legenda no estado estejam obrigatoriamente alinhados ao presidente.
O MDB entre dois campos políticos
A divisão não surgiu do nada. O partido reúne dirigentes que mantêm relações com diferentes campos ideológicos e que frequentemente priorizam alianças estaduais em vez de uma identidade presidencial única.
No Norte e no Nordeste, parte importante da legenda preserva vínculos com Lula e com políticas defendidas pelo governo petista. Em outras regiões, dirigentes apostam na candidatura de Flávio Bolsonaro e na aproximação com forças políticas de centro-direita.
Essa composição heterogênea permite ao MDB manter presença em diferentes disputas, mas cobra um preço quando a eleição nacional se torna polarizada. O partido pode ter uma posição majoritária, porém enfrenta dificuldades para transformar essa decisão em uma orientação efetivamente comum.
A divisão também coloca um desafio para as lideranças locais: como conciliar a estratégia nacional com as alianças construídas nos estados? No Pará, Helder Barbalho optou por manter o vínculo com Lula, ainda que a decisão o coloque no lado minoritário da legenda em escala nacional.
QUEM GANHA COM O RACHA?
Flávio Bolsonaro ganha o apoio formal da maioria dos diretórios do MDB e amplia sua articulação com lideranças políticas que não estavam oficialmente comprometidas com sua campanha no primeiro turno.
Lula, por sua vez, preserva o respaldo de dez diretórios, entre eles os de estados do Norte e Nordeste onde lideranças emedebistas mantêm relações próximas com o governo. No Pará, o apoio de Helder reforça a presença do presidente no campo político liderado pelo MDB estadual.
A divisão, no entanto, deixa uma questão em aberto: até que ponto o apoio das direções partidárias será convertido em mobilização efetiva de prefeitos, parlamentares, militantes e eleitores?
A resposta dependerá da capacidade de cada grupo de transformar a declaração política em presença nos palanques, participação em atos e engajamento eleitoral. A posição oficial de uma legenda é relevante, mas não garante, por si só, a transferência automática de votos.
No fim das contas, o MDB escolheu Flávio Bolsonaro como candidato apoiado pela maioria de seus diretórios, mas não conseguiu fechar questão. No Pará, Helder Barbalho mantém o partido ao lado de Lula. O racha está instalado, e o segundo turno será também um teste da capacidade das lideranças emedebistas de sustentar suas escolhas sem perder o controle das próprias bases.
Do PASSAPORTE/Foto: Reprodução
