Tradição iniciada em 1855 transformou um recurso improvisado para retirar a berlinda do atoleiro em um dos elementos mais emblemáticos da maior manifestação religiosa do Pará
Em meio à multidão que toma as ruas de Belém durante o Círio de Nazaré, a corda se destaca como um dos símbolos mais fortes da devoção à Virgem de Nazaré. Milhares de romeiros disputam um espaço ao longo dos cerca de 800 metros do objeto, enfrentando o calor, o cansaço e as dificuldades do percurso para acompanhar a berlinda que conduz a imagem da padroeira dos paraenses. Mas essa tradição, que hoje mobiliza uma multidão de devotos, teria surgido de uma situação inesperada, em 1855.
Naquele ano, durante a procissão, a berlinda que transportava a imagem de Nossa Senhora de Nazaré ficou atolada no caminho. Nem mesmo os cavalos conseguiam retirá-la do local. Diante do impasse, um comerciante teria improvisado uma corda para ajudar a puxar o veículo e permitir que o cortejo continuasse.
O que começou como uma solução prática acabou incorporado à história do Círio. Com o passar das décadas, a corda deixou de ser apenas um recurso para movimentar a berlinda e passou a representar o esforço coletivo, a perseverança e a ligação dos fiéis com Nossa Senhora de Nazaré.
Muito além de puxar a berlinda
Para quem participa do Círio, segurar a corda tem um significado que ultrapassa o esforço físico. Há romeiros que enfrentam longas distâncias para ocupar um lugar junto às amarras, enquanto outros fazem o percurso para agradecer por uma graça alcançada, pagar promessas ou renovar pedidos de proteção para a família.
A corda também se tornou uma imagem marcante da manifestação religiosa paraense. Ao longo do trajeto, milhares de mãos se unem em torno dela, formando uma corrente humana que acompanha a berlinda pelas ruas da capital.
A experiência, entretanto, exige cuidados. A concentração de pessoas, o calor, o desgaste físico e a movimentação intensa podem provocar situações de risco, principalmente nos trechos de maior aglomeração. Por isso, preservar a organização do cortejo e respeitar as orientações das equipes de segurança são medidas fundamentais para a proteção dos participantes.
Por que não se deve cortar a corda?
Uma prática que preocupa os organizadores é o corte de pedaços da corda durante a procissão. Alguns participantes retiram fragmentos para guardar como lembrança religiosa, enquanto outros podem fazê-lo com finalidade comercial.
A campanha “Não Corte a Corda” procura conscientizar os devotos sobre a importância de preservar o símbolo durante todo o percurso. A retirada de pedaços pode comprometer a continuidade do cordão e contribuir para situações de insegurança em meio à multidão.
O apelo é para que os romeiros compreendam que a corda pertence à experiência coletiva da procissão. Preservá-la significa respeitar a tradição e colaborar para que os demais participantes também possam viver aquele momento de fé.
Uma devoção que atravessa gerações
A história da corda está inserida em uma celebração religiosa que começou muito antes de sua incorporação ao cortejo. A tradição do Círio remonta ao século XVIII, quando, segundo a narrativa histórica e religiosa, o caboclo Plácido encontrou uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens de um igarapé, na área onde posteriormente foi erguida a Basílica Santuário.
A devoção popular cresceu e, em 1793, foi realizada a primeira procissão do Círio de Nazaré. Desde então, a manifestação passou por transformações, incorporou novas romarias e se consolidou como uma das maiores expressões públicas de fé do Brasil.
Atualmente, o Círio reúne elementos religiosos, culturais e sociais que fazem parte da identidade paraense. Além de mobilizar milhões de pessoas, a programação movimenta o comércio, a rede hoteleira, os restaurantes, o transporte e diversos setores da economia de Belém e da região metropolitana.
O reconhecimento internacional também integra essa trajetória: o Círio de Nazaré foi inscrito pela Unesco na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014.
Símbolo de fé e responsabilidade coletiva
A corda carrega uma história que mistura necessidade prática, tradição e devoção. O episódio de 1855 ajuda a explicar como um recurso improvisado se transformou em um dos símbolos mais reconhecidos do Círio.
A cada edição, o desafio permanece: garantir que a manifestação religiosa transcorra com segurança, preservando os elementos que atravessaram gerações. Para os devotos, estar junto à corda é participar de uma tradição que une histórias pessoais, promessas e agradecimentos em uma demonstração coletiva de fé.
Mais do que um objeto utilizado para conduzir a berlinda, ela representa a força de uma devoção que continua reunindo famílias, visitantes e romeiros nas ruas de Belém, renovando a cada ano a ligação do povo paraense com Nossa Senhora de Nazaré.
Do PASSAPORTE
