Dados da Justiça Eleitoral mostram forte crescimento das autodeclarações entre 2024 e 2026 e reforçam o peso político das comunidades tradicionais no Estado
O Pará chega às eleições de 2026 com um número significativamente maior de eleitores que se autodeclaram indígenas ou quilombolas. Os dados da Justiça Eleitoral mostram que, em dois anos, o eleitorado quilombola no Estado passou de 12.649 para 23.422 pessoas, um crescimento de aproximadamente 85%.
Entre os eleitores indígenas, a evolução também foi expressiva. O número passou de 11.169, em 2024, para 17.069 em 2026, aumento de cerca de 52%.
Os números colocam as comunidades tradicionais em uma posição ainda mais relevante no cenário eleitoral paraense, principalmente em um Estado marcado pela presença de povos indígenas e comunidades quilombolas espalhados por diferentes regiões.
O crescimento, porém, precisa ser interpretado com cuidado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os dados de pertencimento indígena e quilombola são autodeclaratórios e passaram a integrar o cadastro eleitoral após a implantação desses campos de informação, em novembro de 2022. Com isso, a ampliação dos registros também está relacionada ao processo de qualificação do cadastro e ao maior número de eleitores que passaram a informar sua identidade.
Mais visibilidade no cadastro eleitoral
A mudança representa um avanço na capacidade da Justiça Eleitoral de identificar a diversidade do eleitorado brasileiro. No país inteiro, o número de eleitores indígenas saltou de 155.661 em 2024 para 287.157 em 2026, alta de 84%. Entre os quilombolas, o crescimento nacional foi ainda maior: de 95.409 para 188.371, praticamente o dobro.
No Pará, o crescimento indígena de quase seis mil eleitores entre os dois pleitos foi um dos maiores aumentos absolutos registrados entre os Estados brasileiros. O TSE destaca que o Norte concentra a maior parcela do eleitorado indígena do país em 2026, com aproximadamente 47% do total.
Entre os povos indígenas identificados no cadastro eleitoral, o Mundurukú aparece entre os grupos com maior número de eleitores na região Norte, com forte presença no Pará.
Um eleitorado que pode fazer diferença
Além da dimensão estatística, o crescimento desses registros amplia a visibilidade política de comunidades que historicamente enfrentam dificuldades de representação institucional.
Em uma eleição geral, milhares de votos distribuídos por diferentes municípios podem influenciar disputas para a Câmara dos Deputados, Assembleia Legislativa, Senado e Governo do Estado, especialmente em regiões onde a presença indígena e quilombola é mais concentrada.
A Justiça Eleitoral também ampliou as garantias de atendimento a esses grupos. Para as eleições deste ano, as normas asseguram às pessoas indígenas o respeito à organização social, aos costumes, às línguas, às crenças e às tradições. O atendimento pode ocorrer na língua materna, e não é exigida fluência em português para o alistamento eleitoral.
O crescimento do eleitorado autodeclarado indígena e quilombola, portanto, não representa apenas uma mudança nos números do cadastro. Ele também revela uma participação cada vez mais visível de comunidades tradicionais no processo eleitoral brasileiro.
No Pará, onde a presença desses povos é especialmente significativa, a mensagem das urnas em 2026 poderá mostrar até que ponto esse eleitorado será capaz de transformar sua crescente presença cadastral em força política e representação.
Do PASSAPORTE/Foto: Reprodução do G1/PA
