Projeto sobre sementes crioulas uniu estudantes, professores e moradores na valorização da biodiversidade, da cultura e dos conhecimentos tradicionais do território quilombola
A ciência produzida a partir dos saberes tradicionais das comunidades quilombolas e ribeirinhas ganhou destaque durante a VIII Feira de Ciências do Rio Acutipereira 2026, realizada durante três dias na comunidade Santo Ezequiel Moreno, localizada no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PEAEx) Acutipereira, na zona rural de Portel, no Marajó.
Entre os projetos apresentados, um chamou a atenção pela forma como transformou um conhecimento transmitido entre gerações em objeto de pesquisa científica: o trabalho desenvolvido pela Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Deus Está Comigo, localizada na comunidade quilombola de São Tomé de Tauçu.
O projeto sobre sementes crioulas conquistou o 1º lugar da Feira e envolveu professores, estudantes e moradores da comunidade em uma pesquisa voltada à preservação da biodiversidade, da agricultura tradicional e da memória quilombola.
Para o professor Joandro de Lima Nogueira, o reconhecimento representa muito mais do que uma premiação.
“Representa muito mais que um prêmio. Representa o reconhecimento de uma construção coletiva. Foi um trabalho feito a muitas mãos — professores, alunos e, principalmente, a nossa comunidade. É a prova de que a escola quilombola tem ciência, tem saber e tem muito a ensinar.”
SEMENTES QUE CARREGAM HISTÓRIA
A ideia do projeto surgiu a partir de uma preocupação observada pelos professores e estudantes: o risco de desaparecimento das sementes crioulas, tradicionalmente guardadas pelas famílias e utilizadas nas plantações, diante da substituição gradual por sementes adquiridas comercialmente.
Segundo Joandro, as sementes preservadas pelos moradores representam uma riqueza que vai muito além da produção agrícola.
São sementes adaptadas ao território, resistentes às condições locais e que carregam consigo parte da história das famílias e das comunidades.
A partir dessa percepção, os estudantes foram estimulados a deixar de olhar para a roça apenas como espaço de produção e passaram a enxergá-la também como um campo de pesquisa.
A proposta fez com que os alunos investigassem as sementes utilizadas tradicionalmente na comunidade, buscando compreender sua origem, características, formas de conservação e importância para a alimentação e para a preservação da biodiversidade.
CONHECIMENTO SAIU DA SALA DE AULA
Um dos pontos centrais do projeto foi a participação dos moradores, especialmente daqueles reconhecidos como guardiões das sementes.
Os estudantes visitaram casas e roças, ouviram relatos, observaram práticas tradicionais e registraram informações que permanecem vivas na memória das famílias.
Entre os conhecimentos compartilhados estão técnicas para escolher as melhores espigas, formas de armazenar as sementes e o período considerado adequado para o plantio.
Para o professor Joandro, essa participação mostrou que o processo de aprendizagem não precisa ficar restrito aos limites físicos da escola.
“A sala de aula foi para dentro da comunidade”, resume o educador.
O trabalho também aproximou diferentes gerações, colocando crianças e jovens em contato direto com pessoas que preservam conhecimentos transmitidos por pais, avós e outros antepassados.
ESTUDANTES ASSUMEM PAPEL DE PESQUISADORES
Os alunos tiveram papel central em todas as etapas da pesquisa. Eles ouviram os moradores, registraram informações, fotografaram e catalogaram as sementes encontradas durante o trabalho de campo.
Mais do que participar de uma atividade escolar, passaram a compreender que também podem ser responsáveis pela continuidade dos conhecimentos existentes no território.
Para Joandro, esse é um dos resultados mais importantes do projeto.
Os estudantes passaram a se reconhecer não apenas como alunos, mas como futuros guardiões das sementes crioulas dentro do território quilombola.
“Eles entenderam que não são só alunos, eles agora assumem a missão de serem os futuros guardiões das sementes crioulas dentro do nosso território quilombola. É a continuidade da nossa resistência”, destacou o professor.
SEGUNDA PARTICIPAÇÃO NA FEIRA
A conquista do primeiro lugar tem um significado ainda maior porque esta foi a segunda vez que a Escola Deus Está Comigo participou da Feira de Ciências do Rio Acutipereira.
O evento vem se consolidando como um espaço de encontro entre diferentes comunidades da região, permitindo que experiências, pesquisas e conhecimentos tradicionais sejam compartilhados.
Na avaliação do professor Joandro, a Feira tem um papel importante justamente por reconhecer que a produção de conhecimento também acontece a partir da vivência das populações tradicionais.
“A Feira de Ciências do Rio Acutipereira é essencial. É um espaço de troca entre as comunidades ribeirinhas e quilombolas. Ali a gente mostra que existe uma ciência que nasce da vivência, da tradição, do rio e da floresta. É um espaço onde o conhecimento da nossa gente é valorizado e respeitado como ciência”, afirmou.
UM BANCO DE SEMENTES PARA O FUTURO
O projeto não termina com a premiação. Entre os principais resultados está a proposta de criação de um banco de sementes crioulas na própria escola, garantindo que parte desse patrimônio seja preservada e permaneça acessível às futuras gerações.
A iniciativa também busca fortalecer entre os estudantes o orgulho de sua identidade quilombola e a compreensão de que preservar uma semente significa proteger diferentes dimensões da vida comunitária.
“Fica a semente plantada, literalmente. Fica a criação do nosso banco de sementes crioulas na escola, fica o orgulho das nossas crianças de serem quilombolas e fica a certeza de que, ao guardar uma semente, a gente está guardando a nossa biodiversidade, a nossa alimentação e o nosso futuro sustentável”, afirmou Joandro.
EQUIPE RESPONSÁVEL PELO PROJETO
A pesquisa vencedora contou com a participação dos professores Márcio dos Santos Aquino, Samia Kamyla Freitas Silva, Jefeson da Silva Mascarenhas, Ruth Primavera dos Santos, Joandro de Lima Nogueira, Eliton Moraes Palheta e Eudinei Lacerda Monteiro.
Também participaram diretamente do trabalho os estudantes Adailson Andrade da Silva, Erisberto Martins Pinto, Marliane Andrade Albuquerque, Maria Andrade dos Santos, Raiane do Nascimento Andrade, Talita Queiros de Andrade, Taylon da Cruz Dias e Nayara Nascimento Andrade.
A vitória da EMEF Deus Está Comigo na VIII Feira de Ciências do Rio Acutipereira evidencia uma experiência em que escola e comunidade caminharam juntas. O projeto transformou sementes preservadas pelas famílias em objeto de investigação científica e, ao mesmo tempo, reforçou a importância da cultura, da identidade quilombola e da conservação da biodiversidade no Marajó.
Do PEAEX, texto e foto
