Estabelecimento discreto na Travessa da Tapada atrai visitantes de todo o mundo com seu frango grelhado, especialmente turistas vindos da China.
Em uma cidade de belas ruas, a Travessa da Tapada, em Lisboa, é fácil de passar despercebida. Ladeada por carros estacionados, é uma pequena extensão de edifícios de apartamentos ligando vias mais movimentadas, embalada pelo barulho do tráfego da rodovia ao lado.
No entanto, todos os dias, um desfile constante de turistas, muitos dos quais viajaram milhares de quilômetros da China, dirige-se a um endereço sem identificação: o número 5A.
Atrás de uma porta verde sem placa, António Silva, de 66 anos, trabalha sozinho em uma pequena churrasqueira portuguesa. É um lugar simples, sem firulas, conhecido por uma coisa: frango assado. Lá dentro, ele cuida de uma cama de brasas, virando frangos abertos sobre o calor enquanto o telefone toca para pedidos. A fumaça flutua em direção ao vidro e permanece lá, pairando na vitrine como uma memória.
Em um recente dia de inverno, visitantes faziam fila do lado de fora da fachada, vestidos com casacos acolchoados com capuzes peludos, os celulares prontos para capturar fotos e vídeos para as redes sociais. Eles estavam lá para filmar a cena através da janela embaçada — as mãos de Silva, a grelha, os frangos — e então provar o que sai em um saco de papel branco estampado com galos, ainda fumegando no frio.
O frango tem primeiro um sabor defumado — carvão na pele — depois salgado e levemente adocicado pelo tempero, com uma carne que permanece notavelmente suculenta sob a crocância. O tempero piri-piri proporciona um calor intenso e persistente, do tipo que se intensifica em vez de queimar.
A Travessa da Tapada nem sempre foi uma parada turística. Silva tem assado carne nesta loja de rua secundária há décadas, e até recentemente era um segredo conhecido principalmente pelos moradores do distrito de Alcântara. Não há placa na rua, apenas o número da porta, e o ritmo diário não mudou muito desde que ele começou.
Então, de alguma forma, o endereço encontrou seu caminho nas listas de “lugares que você precisa ir” em língua chinesa. Assim, a fila começou.
Boca a boca
Tudo começou, diz Silva, há cerca de dois anos. Ele não conseguia lembrar a data exata, apenas um “antes” e um “depois”. Primeiro veio um cliente chinês. No dia seguinte, mais um. Depois outro, e outro, até que ele percebeu que a clientela da loja havia mudado quase completamente.
“Só percebi assim”, diz. A fila cresceu lentamente e, em algum momento, deixou de ser uma fila e se tornou uma onda. “Às vezes tenho 40 chineses na porta. Eu vi 40, acredite se quiser.”
Um dia, ele conta, um homem chegou com uma câmera de vídeo e passou horas filmando a loja por dentro e por fora, de todos os ângulos possíveis. “Ele ficou lá por muito tempo”, diz Silva, olhando ao redor de sua loja enquanto recordava a visita. “Talvez um influenciador chinês. Não sei.” Não muito depois, esta pequena rua secundária se tornou um ponto em um mapa internacional.
“É um boca a boca para milhões e milhões de pessoas”, ele diz.
Atualmente, os visitantes frequentemente chegam com malas em mãos, direto do aeroporto. Outros vêm de seus hotéis, com concierges ao telefone para ajudá-los a encontrar o caminho. Uma vez dentro, muitos usam aplicativos de tradução para dizer a Silva algo que ele já sabe. “Você é muito famoso na China.”
Se está impressionado com a reputação, Silva não demonstra. Ele próprio não está nas redes sociais. “Nem Facebook, nem Instagram. Não tenho nada”, conta. Também não há pedidos por plataformas de delivery. Os pedidos chegam por telefone, frequentemente através do antigo aparelho preto de disco rotativo da loja.
Enquanto a fila pelo frango de Silva se estende pela rua, suas instalações são minúsculas — um corredor estreito revestido com azulejos bege e prateleiras com vinhos, garrafas de refrigerante, potes de picles e azeitonas e sacos de batatas. Todos os cantos estão empilhados com caixas. Na parede há um crucifixo, um calendário antigo, uma bandeira portuguesa e um relógio.
“Isto é uma luta”
O dia de Silva começa horas antes da maioria dos turistas aparecer. Depois das 9h, tendo caminhado de sua casa nas proximidades, ele atende à porta para fornecedores que entregam ingredientes. Então vem a parte que nunca aparece nas postagens das redes sociais: limpar a gordura do dia anterior.
“À noite não posso limpar, está muito quente”, ele explica. “As grelhas, o vidro, não posso limpar isso à noite. E à noite está escuro, não dá mais para ver. E estou cansado, muito cansado.”
Ele lava os filtros, troca-os e instala novos, como se mantivesse um motor em constante funcionamento. Entre uma tarefa e outra, corta frangos, tempera-os, limpa as mãos, atende ao telefone e se suja de gordura novamente. “Isso é uma luta”, afirma.
Pouco antes do meio-dia, a grelha desperta, e com ela o apetite da vizinhança. “Às 11h30 começo a grelhar o frango”, conta. “E às 11h30 eles já estão levando”. Então chegam os turistas chineses.
Atualmente, Silva está preparado. Ao lado do caixa, ele mantém uma folha de papel dobrada coberta de números e anotações fonéticas para ajudá-lo a contar em mandarim. “Yi, er, san, si, wu”, ele recita — um, dois, três, quatro, cinco. Há também algumas palavras úteis escritas foneticamente: “cao ji”, frango caipira; “xiexie”, obrigado; “là”, picante.
Sua linguística rudimentar mantém a fila andando e encanta as pessoas que viajaram meio mundo para vê-lo em ação. Quando Silva chama um número de pedido em mandarim, sorrisos se espalham do lado de fora. Por um momento, eles não são apenas turistas em um local famoso. São pessoas que se sentem reconhecidas.
Clientes regulares vêm primeiro
Para clientes portugueses, há uma concessão à tecnologia moderna: MB WAY, um aplicativo local de pagamento móvel. Para turistas, é apenas dinheiro em espécie, frequentemente entregue em notas de 200 euros trazidas diretamente do aeroporto. Quando Silva não consegue dar o troco, a fila geralmente resolve o problema.
Ele já considerou adicionar outros métodos de pagamento, mas diz que seu contador o aconselha contra isso. Seus clientes, ele insiste, não se incomodam.
“O segredo é realmente a forma como você trata as pessoas”, explica. Isso significa seguir uma ordem rigorosa: os clientes regulares vêm primeiro, e qualquer pessoa que fez pedido antecipado é atendida imediatamente, mesmo que a porta esteja lotada de turistas segurando telefones no alto.
“Se você fez o pedido, pode vir aqui e mesmo que esteja cheio de chineses, eu vou te atender na hora. Eles esperam.” E eles esperam mesmo. Há grupos animados, rostos colados ao vidro, rindo, filmando. “Ontem, havia cerca de 12 garotas”, diz Silva. “Eu mesmo as contei.”
Os ingredientes também são importantes. “Frangos frescos. Todo dia, frangos frescos. Nunca sobras”, explica.
Esse compromisso pode lhe custar caro. Silva recorda uma ocasião em que um cliente fez uma encomenda de frango para um horário específico, então ele cozinhou e separou, mas o cliente nunca voltou para buscar ou pagar. Silva absorveu o prejuízo, e no final do dia o frango não poderia ser aproveitado para o dia seguinte.
Mais tarde, depois que ele havia vendido todos os frangos do dia, outro cliente perguntou se ainda havia frango disponível. Silva entregou aquele frango não coletado e dispensou o pagamento.
É um pequeno detalhe em uma loja movimentada, e fácil de passar despercebido em um vídeo de telefone. Mas ajuda a explicar por que as pessoas continuam voltando — e por que a fila do lado de fora da porta verde está constantemente se renovando.
Depois tem o tempero, uma receita que ele aperfeiçoou há anos e não revela.
“Eu fiz esse tempero e pronto. Nunca mais mexi nele”, diz. “É o mesmo desde 1979, 1980.” O tempo também é um fator. Ele prepara os frangos com bastante antecedência, deixando os sabores penetrarem antes de irem para a grelha. “A vantagem é que eu tempero de um dia para o outro. Os do almoço sempre ficam mais tempo no tempero.”
Ele também usa piri-piri, um molho de pimenta português. Não é caseiro, mas ele conta com o mesmo fornecedor há 40 anos.
O “vovô” que grelha frango
Enquanto Silva trabalha, o carvão em brasa se acomoda na grelha com um chiado seco, e a fumaça se move brevemente como se a loja estivesse tomando um fôlego mais profundo. Os frangos repousam sobre o calor, suas peles crepitando.
A gordura pinga, alimentando a fumaça. Ele pousa a pinça e pega uma pequena panela de molho, pincelando as peles até ficarem brilhantes. Mais carvão é adicionado, ajustado no lugar, abanado para ganhar vida, a carne virada novamente.
Às 17h30, Silva olha para fora como se estivesse lendo a rua. “Por volta das seis, eles começam a chegar”, diz ele. Às 18h, a fila está pressionada contra a janela. A loja brilha por dentro, com a fumaça no vidro agindo como um filtro. Câmeras de celular filmam, capturando cenas já familiares de suas telas em casa.
A maioria dos visitantes chineses vem após ver publicações no Xiaohongshu, ou RedNote, uma plataforma chinesa de mídia social no estilo TikTok que muitos viajantes usam como guia.
Entre os mais recentes estão um casal que se apresenta como Tony e Elena. Eles sabem pouco sobre a churrasqueira de Silva além de sua localização e da necessidade de trazer dinheiro em espécie. Apesar de terem orçamento para refeições com estrelas Michelin, dizem preferir viagens centradas em comida local autêntica. “Não nos importamos se é chique ou se é simples. Se a comida é boa, está ótimo”, dizem.
Outro visitante, Wang, mora em Barcelona e está de férias em Lisboa com sua esposa e três filhas. É sua segunda visita à Travessa da Tapada, após uma recomendação inicial do RedNote. Ele gostou tanto que voltou.
“Nós já havíamos experimentado este frango antes… Foi muito bom”, afirmou. Não é apenas carne grelhada, acrescenta, mas “como é temperada e o sabor final que permanece”. Há também uma sensação de familiaridade. “Existem temperos que, para nós, parecem familiares.”
Vince e Alice, um casal chinês que vive nos Estados Unidos, também foram levados até aqui pelo RedNote. “Se você pesquisar, por exemplo, ‘frango grelhado’…”, diz Vince, apontando para o aplicativo em seu telefone. “Isso aparece no topo.”
As avaliações são uniformemente positivas e, como Alice observa, incluem um resumo gerado por IA descrevendo o caráter do estabelecimento e o “vovô” que assa frangos lá dentro.
Li Mei, de Xangai, está visitando em seu segundo dia em Lisboa. Ela disse que não veio por causa do RedNote, mas por recomendação de um colega. “Você vai, leva dinheiro em espécie, espera um pouco, come junto à porta”, seu colega de trabalho lhe disse. Ela ficou convencida.
Quando Li retornar a Xangai, ela passará o mesmo conselho adiante: “Há frango grelhado em um lugar pequeno em Lisboa, você precisa ir.”
A recomendação viaja de mão em mão, como a sacola branca carimbada com um galo — ainda quente, ainda fumegante.
No centro de tudo isso, Silva continua trabalhando. Às vezes ele fica sem frangos, apesar de seus melhores esforços para servir todos que fazem a jornada até sua porta. Aos domingos, ele pode esgotar cedo, especialmente se uma entrega não chegar, forçando-o a procurar em supermercados da vizinhança para manter frangos na grelha.
Mas as grelhas não vão queimar para sempre. Silva tem outros planos. “Em maio vou me aposentar”, ele afirma. Seus dois filhos não querem assumir a loja. Um vive no exterior e toca em uma orquestra. O outro administra seu próprio negócio em Portugal.
Quando Silva finalmente deixar as brasas se apagarem pela última vez, o aroma dos frangos assados que viajou meio mundo pode desaparecer com elas.
