Creches municipais proporcionam bem-estar, segurança e aprendizagem

O momento em que os filhos saem do contexto familiar e domiciliar para a fase escolar pode trazer incertezas ou até mesmo culpa para pais e responsáveis. Mas uma boa escola, com profissionais comprometidos e experientes, dá a segurança que as famílias buscam, ao saberem que suas crianças estão sendo bem cuidadas.

Essa é a realidade da Escola Municipal Wilson Bahia de Souza, localizada no Curió-Utinga, creche que atende crianças de 6 meses a 3 anos, em turmas de Berçário e Maternal. Através do “Projeto de Acolhida Escola e Família: acolhendo, educando e crescendo juntos”, a unidade busca possibilitar um ambiente acolhedor que favoreça a interação, a construção de vínculos afetivos e de segurança entre as crianças, famílias e a escola no processo de inserção delas no ambiente educacional.

De acordo com a diretora da escola, Maria Paula da Silva, o acolhimento começa desde a primeira reunião com os pais, quando a equipe explica o processo de integração da criança no espaço escolar. No início do ano letivo, elas não ficam durante todo o horário, mas apenas um período, e sempre com a presença de um familiar.

“Muitas mães às vezes perguntam se vão poder ficar e acompanhar seu filho, e eu sempre digo para os pais: ‘você vai ser convidado a ficar, esse é um espaço que é para o seu filho, mas é para você também, até porque para que você tenha segurança de onde está deixando o seu bebê, é bom que conheça o trabalho, o que está sendo feito, as professoras, veja como elas organizam o cotidiano’. Então, desde os primeiros dias a família é convidada a estar no espaço, não só nos corredores, mas também dentro das salas, acompanhando o cotidiano e toda a organização das professoras”, afirma a diretora.

Respeito e foco no bem-estar das crianças

Na Educação Infantil, a entrada das crianças no novo ambiente escolar precisa acontecer de forma gradual. A Secretaria Municipal de Educação de Belém (Semec) orienta as escolas nesse sentido. Na Escola Wilson Bahia, nessa fase inicial de acolhida, as turmas foram divididas em grupos menores, que iam em dias alternados para que as professoras pudessem conhecer melhor e acompanhar mais atentamente cada criança.

Ledyanne Mafra é professora do Berçário II na escola. Ela explica que a prioridade é sempre o bem-estar das crianças, são elas que determinam o momento de ficar mais tempo na escola e de ficar sem a presença dos pais.

“Nesse primeiro momento, a gente trabalha com a parceria da família. É um momento mais delicado, da separação da criança do seio familiar e vindo para um espaço educacional. O que a gente sempre preza é o afeto, é acolher, é dar atenção para aquela criança de forma individualizada, para que não haja sofrimento na separação da família para um ambiente totalmente desconhecido para ela. Nenhuma criança é igual, cada uma tem um tempo, um processo diferente, então a gente respeita a criança”, afirma a professora.

As gêmeas Maitê e Isabela Freire, de 7 meses, são as mascotes da Wilson Bahia. Como os pais trabalham, precisaram recorrer à creche para que as bebês continuassem sendo bem cuidadas, ainda que longe deles. A mãe, Ana Carla Freire, conta que já conhecia o trabalho da Wilson Bahia e que não hesitou em matricular as filhas na escola. Ela também diz que encorajou outras mães que no início estavam inseguras de deixarem seus filhos lá.

“A escola é uma referência da Educação Infantil, principalmente para as crianças bem pequenas, e eu tenho muita confiança no trabalho. Tenho acompanhado esse processo de acolhida, com as minhas bebês, visto o compromisso, a responsabilidade, o respeito que os profissionais têm com as crianças”, afirma a mãe, que é gestora em outra escola do município e em breve deve voltar ao trabalho.

Maitê e Isabela ainda estão ficando apenas em um turno na escola, e Ana Carla e o marido permanecem lá com as filhas, mas agora já do lado de fora da sala. “As professoras já têm assumido. Foi um processo, nos primeiros momentos os pais ficavam. Eu participava da roda de conversa, do canto que é feito, toda a rotina, e agora a gente já sai. Estou vendo que é um trabalho minucioso, muito respeitoso, porque tem a questão de banho, de cuidados, não é só o educar, principalmente com os bebês”, comenta a mãe.

A diretora da escola explica que nessa fase de desenvolvimento, as crianças precisam de um ambiente organizado e acolhedor para que se sintam seguras para explorar e brincar, e que as professoras trabalham para que cada experiência seja planejada para o desenvolvimento cognitivo das crianças. Mas além disso, há todo um cuidado com aspectos como a limpeza do espaço, a higiene e a rotina alimentar.

“Nessa faixa etária é muito importante pensar as experiências e organizar o tempo e o espaço para que elas possam estabelecer relações de qualidade. E daí a importância desse espaço estar organizado, limpo, preparado para recebê-las, de pensar os objetos que ali estão”, afirma Maria Paula.

Acolhimento faz a diferença no processo de adaptação

Na Educação Infantil, mais do que em outras etapas de ensino, propiciar um ambiente acolhedor é um processo que exige bastante sensibilidade, tranquilidade, afetividade e partilha entre criança, família e educadores.

De acordo com o psicólogo Emanuel Campos, do Núcleo de Convivência, Diversidade e Equidade Social (Nucde) da Semec, nesse processo de mudança de um ambiente familiar para um novo ambiente coletivo, que é a escola, o trauma é inevitável. Mas isso não significa que seja algo ruim, pois todos nós, desde criança, passamos por traumas, e os seus impactos vão depender da frequência, da intensidade e da exposição no contexto.

“Todo trauma é um processo adaptativo, um processo natural de perdas, de mudanças. A criança, quando vai para a escola, ela tem um momento de desapego, uma cisão, uma separação. Por isso é importante esse profissional da educação compreender que a criança também terá esse tempo de adaptação. Porque, imagina só, ela sai desse contexto individual da família e vai para um contexto coletivo totalmente diferente”, afirma Emanuel, que é Especialista em Educação e em Gente e Gestão.

Por esse motivo, ele explica que, além da escola realizar o acolhimento e oferecer uma segurança emocional, é importante que os educadores compreendam que a criança não tem recurso para expressar sentimentos e emoções como o adulto, e que eles saibam compreender os sinais, os comportamentos, as formas de expressão próprias dessa fase de desenvolvimento da criança para ajudá-la nesse processo de adaptação.

“Quando a gente fala da Educação Infantil, de acolhimento dentro do espaço escolar, precisamos trabalhar com a educação das sensibilidades, um letramento da comunidade escolar sobre o desenvolvimento infantil. A infância é essa fase de muita dependência, de maturação e desenvolvimento. É necessário um olhar especializado para entendermos como a emoção se manifesta nessa fase”, explica o psicólogo.

A professora Ledyanne, da Wilson Bahia, demonstra que já entendeu esse processo. “É de suma importância que a criança se sinta acolhida conosco. Não é só deixar a criança. A gente sempre preza o bem-estar. A criança ficando conosco, a gente sempre expõe vivências para ela, para que ela explore as situações de aprendizagem, para que ela se sinta inserida no espaço, sem a necessidade de ter alguém da família. É um processo lento, em alguns casos, mas também é um processo bem eficaz”, afirma.

E os resultados dos esforços e da persistência da equipe escolar vão aparecendo no decorrer do tempo. “Quando a gente pega um bebê de seis ou sete meses, e depois vê aquela criança crescer, ouve a primeira palavra dela, presencia os primeiros passos, proporciona uma vivência de aprendizagem e testemunha aquela criança interagindo com a nossa proposta… É muito marcante acompanhar o crescimento dessas crianças!”, destaca a professora.

Fonte: Agência Belém Foto: Paula Lourinho