O Ibovespa hoje derreteu 3,28%, aos 183.104,87 pontos, uma perda de amplos 6.202,15 pontos, a maior queda em um dia desde o chamado “Flávio Day”, em 5 de dezembro do ano passado, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro escolheu seu filho Flávio Bolsonaro para concorrer à Presidência da República, frustrando os agentes de mercado, que clamavam pela escolha do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Naquela sexta-feira de dezembro, a queda foi de 4,31% e hoje o IBOV até chegou a perder mais do que isso, mas depois se acomodou nessa ainda profunda lama.
Foi uma sessão que derreteu também toda e qualquer esperança de uma guerra rápida e que abrisse brecha para um acordo. Hoje, não há essa possibilidade. Com o Irã fechando o Estreito de Ormuz, a preocupação é com a interrupção do fornecimento de energia – petróleo e gás natural.
“Ainda é difícil dizer com precisão qual cenário deverá se concretizar, mas o temor por parte dos investidores é que esses conflitos impactem o preço do (petróleo) brent e, sendo assim, podendo impactar negativamente a economia de alguns países, como é o caso da China. Se isso ocorrer, poderíamos ver um impacto no preço de minério de ferro”, disse João Daronco, head de Análise da Suno Research.
Mas o presidente dos EUA, Donald Trump, tentando controlar a narrativa, procurou acalmar os mercados, sem sucesso: para ele, os preços do petróleo podem ter alta por um breve período, mas vão recuar. Como não dá para saber de fato, ficou o dito pelo não dito.
Aversão ao risco não só no Brasil
A onda de vendas nos mercados emergentes se aprofundou hoje. Não só no Brasil. O dólar acabou retomando seu caráter de segurança, que havia derretido com a política comercial errática do governo Trump. Hoje, o dólar comercial disparou 1,91%, a R$ 5,265, mas chegou a subir sufocantes 3%. Os DIs (juros futuros), aceleram mais uma vez por toda a curva.
Nova York também sofre com o cenário atual e, derretimento por derretimento, os principais índices fecharam se desmilinguindo. Os números parecem um quadro de Salvador Dalí: abstratos, surrealistas e derretidos. O VIX, índice de volatilidade nos EUA, chegou a subir mais de 30%. Na Europa, não foi diferente: gotas de sangue pingavam das telas dos computadores.
“Após inicialmente encarar a guerra no Oriente Médio com relativa tranquilidade (na véspera), a ansiedade do mercado aumentou consideravelmente, em meio a preocupações de que um governo e um exército iranianos decapitados e sem liderança executem uma resposta retaliatória prolongada, visando semear o caos em toda a região, atacando infraestruturas econômicas e energéticas cruciais nas próximas semanas”, disse Adam Crisafulli, da Vital Knowledge, em nota republicada pela CNBC. “Embora os militares dos EUA e de Israel tenham domínio completo na região, eles não conseguem interceptar todos os mísseis e drones disparados pelo Irã, especialmente porque os estoques de interceptores estão se esgotando rapidamente”.
Os contratos futuros de gás natural na Europa subiram 70% em dois dias. “Os preços da energia estão subindo ainda mais, pressionando os custos globais”, completou Crisafulli.
PIB BRASILEIRO
O desmoronamento geral foi tão amplo, que no Brasil não deu para se aprofundar com propriedade em um número bem menos surrealista e que saiu hoje: o PIB do 4T25 e de 2025.
A economia brasileira subiu 0,1% no 4T25 e avançou 2,3% em 2025, em linha com o esperado. Foi uma desaceleração do ritmo de expansão em relação aos 3,4% de 2024, mas não é exatamente um derretimento.
O aperto monetário, com uma Selic de 15% ao ano, além do endividamento, travaram o consumo das famílias e derrubaram a construção civil na reta final do ano.
Mesmo assim, o resultado coloca o Brasil em 11º lugar entre as maiores economias do ano, à frente da Espanha, México, Austrália e Coreia, mas atrás da Rússia, em guerra, e do Canadá, sufocado pela nova política comercial de Trump.
Analistas entendem que em 2026, com eleições e agora esta guerra, a economia deve desacelerar ainda mais. “Incerteza não falta neste ano e o cenário externo alimenta mais essa incerteza. Ninguém tem um ‘best guess’ do que vai acontecer nos próximos meses, e essa falta de previsibilidade reforça o cenário de cautela”, disse Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, que prevê um crescimento do PIB em 2026 de 1,9%.
O Ministério da Fazendo, não podia ser diferente, é mais otimista: prevê um crescimento idêntico ao de 2025, com 2,3%. Curiosamente, o ministério tem acertado mais suas previsões do que o mercado, sempre mais pessimista.
A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou que segue otimista com o Brasil: “mantendo a trajetória de expansão nos últimos anos, seguimos otimistas com o Brasil, que tem demonstrado capacidade de superar os desafios internos e externos para se manter no rumo do crescimento”.
CRIAÇÃO DE EMPREGOS E A SELIC
E teve mais boa notícia para o governo: criação formal de emprego superou projeção no início do ano, após quebra em dezembro, e janeiro ficou acima das expectativas.
Isso tudo com essa Selic elevadíssima. Aqui, os dois assuntos se conectam. O próprio Copom apontou na reunião de janeiro que a Selic poderia começar a cair na reunião de março. Todos respiraram aliviados. Daí, vieram as bombas, os drones e o fechamento do Estreito de Ormuz. Já se pensa em alta da inflação para todo lado.
Luiz Arthur Hotz Fioreze, diretor de portfólio da Oryx Capital, disse que para o Brasil a guerra no Oriente Médio se apresenta como um cenário duplamente desafiador. “A aversão ao risco global fortalece o dólar, o que encarece as importações e pressiona a inflação doméstica. A alta do petróleo internacional coloca pressão sobre os preços internos dos combustíveis, um tema sempre sensível para o IPCA”. Mesmo assim, boa parte dos analistas ainda acreditam que o BC vai manter a queda em março – não é um derretimento da Selic, não há espaço algum para isso, eles garantem.
VALE DERRETE
Com a Bolsa brasileira se desintegrando a olhos vistos, quase todos os ativos ficaram no vermelho. Poucos se salvaram, quase nenhum – só Raizen (RAIZ4), com mais 6,15%, e Braskem (BRKM5), com mais 3,24%.; Vivara (VIVA3) ficou no zero a zero.
A Vale (VALE3) ficou longe de se salvar: derreteu 4,17%, com minério de ferro já pesando o cenário bélico atual.
Os grandes bancos não chegaram nem perto de um respiro e perderam na casa dos 3%. Destaque para a maior queda de Bradesco (BBDC4), com menos 4,78%.
GPA (PCAR3) foi a maior queda do dia, com 17,78%, em um dia que quase 100% do varejo sofreu. Mas o grupo derreteu com a Fitch Ratings rebaixando o rating corporativo de “A”, com observação negativa, para “CCC”.
A gosma melequenta que restou do Ibovespa hoje pegou até mesmo a Petrobras (PETR4), que não aproveitou a alta forte, mais uma, dos futuros do petróleo, e perdeu 0,44%.
PRIO (PRIO3) igualmente desintegrou: menos 3,77%, mesmo com licença do Ibama pro seu campo de Wahoo sendo liberada.
Amanhã é dia de mais indicadores, como a inflação ao produtor no Brasil e dados de emprego nos EUA. Mas os olhos estarão voltados mesmo para o Oriente Médio, onde o bom senso e a paz já derreteram faz tempo.
Texto:Fernando Augusto Lopes/Infomoney/Arte: Freepik/Infomoney
