O que é mais imprevisível: uma guerra, a cabeça de Donald Trump, o tempo em São Paulo ou uma disputa por pênaltis? Nada disso, é o Ibovespa. Quando menos se espera, lá está o bonito do índice tomando uma direção pouco esperada. A de hoje foi a alta que levou o IBOV a fechar com mais 0,28%, aos 189.307,02 pontos, um ganho de 520,04 pontos, após iniciar a sessão com uma queda ampla e tudo apontar para a quarta baixa seguida.
O real, esse sim, manteve o comportamento esperado e perdeu terreno frente ao dólar. O câmbio avançou 0,62%, a R$ 5,166%, em dia que chegou a subir mais de 1,2%, seguindo o mesmo movimento do DXY, índice que compara o dólar com as principais moedas do mundo.
Os DIs (juros futuros) também tiveram o comportamento esperado e fecharam com altas por toda a curva.
GUERRA NO IRÃ
Mas por que “esperado”? Porque sábado, ainda em meio a negociações diplomáticas, o presidente dos EUA, Donald Trump, resolveu atacar o Irã e deflagrar mais uma guerra. No primeiro ataque, já matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, abrindo espaço para mais imprevisibilidade na sucessão ou, ao menos, no que vai acontecer após a sucessão.
O que acontece, então, desde sábado, é o mercado tentando entender e avaliar os riscos e as variáveis do novo conflito, porque se tem uma coisa que o mercado mais odeia, depois de perder dinheiro, é trabalhar com o imprevisível, com as incertezas, e as duas coisas estão interligadas. O ideal, porém, é que o investidor mantenha o sangue frio e não se deixe levar pelas fortes flutuações do mercado, evitando tomar decisões precipitadas, alertam analistas.
PETRÓLEO EM ALTA
Os acontecimentos se sucederam rapidamente e até com certa previsibilidade. O preços do petróleo dispararam mais de 6%, como era de se imaginar. O Irã passou a atuar fortemente sobre o Estreito de Ormuz e a questão é quanto temp Analistas já projetam o barril de petróleo em US$ 120. Hoje, ainda fechou abaixo de US$ 78.
Se tudo depende da duração da guerra, Trump tratou de dizer que será uma ação prolongada e que a “grande onda” ainda está por vir. Ele previu que o conflito pode durar de quarto a cinco semanas.
Enquanto isso, o mundo assiste a tudo e só assiste. A OTAN não vai entrar no conflito, mas elogiou a ação dos EUA e de Israel. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, disse estar monitorando o que chamou de situação global atípica. A China, por sua vez, manifestou apoio ao Irã.
WALL STREET E EUROPA
A consequências são mais amplas e não se limitam ao mercado de energia. Por exemplo, em três dias, mais de 7 mil voos foram cancelados, no maior caos aéreo desde a pandemia. As ações do setor foram ao chão.
As Bolsas na Europa caíram, como era de se esperar. Wall Street, assim como o Ibovespa, começou com forte baixa, mas se recuperou no decorrer da sessão e fechou de forma mista e com amplitude curta. O ouro fechou em alta, por conta do bom e velho seguro.
Embora Ross Mayfield, da Baird, acredite que muita coisa ainda pode mudar com o conflito, ele entendeu que o mercado se recuperou das perdas anteriores porque “não houve escalada a partir daqui”. “Se o Irã fosse optar pela via nuclear, fechando o Estreito ou realmente tentando danificar a infraestrutura energética, já teríamos uma noção melhor de que esse seria o caminho escolhido”, disse à CNBC o estrategista de investimentos, mesmo sabendo que nada é certo ainda.
o isso tudo vai durar. O sócio da Leggio Consultoria, Marcus D’Elia, disse que tudo vai depender do período em que o Estreito de Ormuz vai permanecer fechado. Se o acesso ficar bloqueado por mais de 40 dias, há risco de faltar petróleo no mundo. Os contratos de gás natural igualmente subiram.
A incerteza se faz presente: mais tarde, o comandante da Guarda Revolucionária do Irã disse que o Estreito de Ormuz está mesmo fechado e que o Irã incendiará qualquer navio que tentar passar, conforme informou a mídia iraniana.
INFLAÇÃO
Há muita preocupação com a inflação, já que os preços de energia são importantes na conta. A imprevisibilidade sobe neste quesito, no qual nem sempre um mais um dá dois. Para a XP, o ataque dos EUA contra o Irã abriu “uma caixa de pandora”, criando um sistema caótico onde o impacto futuro dependerá da duração e da abrangência do conflito – e isso tudo ainda é uma incógnita.
A XP projetou que, para cada aumento de US$ 10 no preço do barril de petróleo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode sofrer um acréscimo de aproximadamente 40 pontos-base em 2026.
PETROBRAS DISPARA
A Petrobras (PETR4) se beneficiou dos aumentos do petróleo e viu suas ações dispararam 4,58%. A empresa monitora os preços internacionais antes de cogitar uma alta doméstica. A petroleira também já vende fertilizantes a diversos estados para mitigar os riscos com a guerra.
As petro juniores também se deram bem, no meio disso tudo: PRIO (PRIO3) disparou amplos 5,12%, Petrorecôncavo (RECV3) subiu 3,33% e Brava (BRAV3) avançou 2,84%.
A Vale (VALE3), por outro lado, caiu 0,35%, mesmo com alta do minério de ferro na China causada pela guerra.
Os bancos começaram a sessão com fortes quedas de mais de 2%, mas foram arrefecendo, até Bradesco (BBDC4) terminar com alta de 0,38% e Banco do Brasil (BBAS3) fechar estável, enquanto Itaú Unibanco (ITUB4) ficou com menos 1,81%.
Braskem (BRKM5) desabou 3,55% com investidores digerindo o relatório operacional da petroquímica publicado na sexta-feira (27) e considerado fraco.
B3 SOBE FORTE
O grande destaque do dia foi B3 (B3SA3), que subiu amplos 3,30%, com XP entendendo que a rotação global continua e elevando projeção do Ibovespa para 196 mil pontos.
Além disso, a B3 teve as projeções elevadas pelo Itaú BBA, que reiterou compra e subiu o preço-alvo para R$ 22: “a volta expressiva do capital estrangeiro, combinada com maior participação de investidores locais e um ambiente macro mais favorável, alterou de forma estrutural a narrativa da companhia”.
A guerra acabou nublando todo o resto. Mas essa será uma semana de indicadores importantes. Amanhã, o Brasil conhece o PIB do 4T25, além do Caged de janeiro. E de nova rodada de balanços do 4T25.
Só que os olhos estarão voltados para Washington e para o Oriente Médio, com os investidores tentando buscar sinais para diminuir as incertezas.
Uma coisa é certa: vai ser uma longa semana.
Do Infomoney/Arte: Freepik/Infomoney
