Como os mercados no Brasil e no mundo serão afetados pelo ataque dos EUA ao Irã?

ANALISTAS PROJETAM UMA ABERTURA DE AVERSÃO AO RISCO NA SEGUNDA-FEIRA, ALÉM DE ALTA DO PETRÓLEO, MAS COM CONSEQUÊNCIAS DIVERSAS NO MÉDIO PRAZO

O tão alardeado ataque dos EUA ao Irã ocorreu neste sábado (28), visando a liderança iraniana e mergulhando o Oriente Médio em um novo conflito que, segundo o presidente Donald Trump, acabaria com uma ameaça à segurança dos EUA e daria aos iranianos a chance de derrubar seus governantes.

Analistas de mercado já se preparam para turbulências após os EUA confirmarem o lançamento de “grandes operações de combate”, podendo levar a consequências muito maiores para o mercado do que a recente onda de tensões geopolíticas.

“Isso definitivamente tem ramificações maiores do que a Venezuela”, disse Florian Weidinger, co-diretor de investimentos da Santa Lucia Asset Management, para a CNBC. “A Venezuela era… realmente relevante apenas para quem se importa com aquele petróleo bruto pesado específico”, complementou. Assim, espera que o preço do petróleo suba um pouco mais bruscamente na próxima semana como resultado do ataque dos EUA ao Irã.

O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris de petróleo por dia, apesar das sanções internacionais em vigor. O país tornou-se mais hábil em contornar essas restrições, enviando cerca de 90% de suas exportações para a China.

As maiores reservas de petróleo estão localizadas em Ahvaz, Marun e no complexo de Karun Ocidental, todos na província de Khuzistão.

A localização do Irã é um pontos de grande atenção, uma vez que a preocupação global é por conta da manutenção da rota marítima pelo Estreito de Ormuz. O estreito fica localizado entre o Irã e o Omã e tem de 55 a 95 km de largura, sendo por ele que se passa cerca de 20% do consumo global diário de petróleo e do fornecimento mundial de gás natural liquefeito.

Cerca de 13 milhões de barris de petróleo bruto por dia transitaram pelo Estreito em 2025, representando aproximadamente 31% do fluxo global de petróleo bruto transportado por via marítima, segundo dados da empresa de inteligência de mercado Kpler.

“O risco é que caso haja uma escalada da guerra, por estar na frente, o Irã comece a bombardear navios, tanques de petróleo, não deixando o petróleo ou o gás passar. Só que isso também não é uma coisa fácil, porque o porta-aviões americano está lá na frente do Estreito de Ormuz, por isso que toda vez que tem qualquer tipo de tensão entre o Irã e os Estados Unidos, esse risco está sempre na mesa”, afirma Pedro Rodrigues, diretor do CBIE.

Conforme destaca Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, em eventos passados, a restrição ao estreito de Ormuz influenciou o aumento da inflação na Europa, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, impactando a perspectiva de cortes nas taxas de juros.

Cabe destacar que, em junho de 2025, quando Israel atacou instalações nucleares iranianas, o mercado teve um movimento de aversão a risco na abertura, recuperando-se em seguida, após a confirmação de que o estreito não havia sido bloqueado.

“Esse é o padrão que os mercados irão observar na segunda-feira”, disse Kenneth Goh, diretor de gestão de patrimônio privado da UOB Kay Hian em Singapura. Ele projeta que que pode haver uma busca por segurança com o fortalecimento do dólar americano, do iene japonês e uma corrida ao ouro.

Na mesma linha, Cruz avalia que as bolsas de valores tendem a apresentar reações negativas, as curvas de juros sobem e observa-se um movimento de busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar, o iene e o franco suíço.

Cenários para o petróleo e ações do setor

Alicia García-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis, projeta uma abertura “turbulenta e com aversão ao risco” para os mercados globais na segunda-feira, com as ações globais potencialmente caindo de 1% a 2% ou mais, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA caindo e o petróleo subindo de 5% a 10%. Contudo, alerta ser preciso aguardar as consequências das respostas do Irã.

Assim, olhando para o Brasil, o mercado se atentará mais uma vez ao impacto direto principalmente para as petroleiras, com destaque para Petrobras (PETR3;PETR4), PRIO (PRIO3), PetroRecôncavo (RECV3), que viram suas ações subirem entre 7% e 12% em fevereiro guiadas por uma alta do petróleo em meio às tensões geopolíticas entre EUA-Irã. O petróleo brent, referência global, fechou o mês a US$ 72 o barril, nas máximas em seis meses.

Em relatório às vésperas do conflito, o JPMorgan ressaltou que o Brasil aparece na análise como relativamente protegido de um choque energético internacional. Segundo dados publicados pelo banco, o país se posiciona como exportador líquido de energia, com exportações equivalentes a 2,6% do PIB e importações de 1,6%.

Apesar disso, o relatório alerta que grande parte dos mercados emergentes não está preparada para um choque severo nos preços de energia, considerado um “risco de cauda”. Nesse contexto, o Brasil tende a ter impacto mais moderado, mas ainda pode sentir efeitos secundários, como aumento na volatilidade financeira global.

No médio prazo, a perspectiva para o petróleo pode ser diferente, avalia Cruz, da RB Investimentos.

Em 2017, quando as sanções econômicas contra o Irã foram implementadas, o país produzia 4,1 milhões de barris de petróleo por dia. Atualmente, a produção é de 3,2 milhões de barris diários, uma redução significativa.

“Diferentemente da Venezuela, onde a infraestrutura da PDVSA enfrentou desafios, o Irã possui uma infraestrutura petrolífera em condições satisfatórias”, aponta.

Assim, caso haja uma mudança política e o país se alinhe aos Estados Unidos, é plausível que a produção iraniana aumente, possivelmente atingindo mais de 4 milhões de barris por dia até o segundo semestre.

Desta forma, embora o preço do petróleo possa subir no curto prazo, a médio prazo, com o aumento da oferta, o preço de equilíbrio tenderia a diminuir. Portanto, a perspectiva para o segundo semestre de 2026 seria de preços mais baixos para o petróleo, com um possível efeito desinflacionário, dado o impacto indireto do petróleo sobre diversos setores, avalia Cruz.

“No âmbito do mercado financeiro, essa análise é crucial. Adicionalmente, vale notar que o ex-presidente Trump, em momentos de pressão interna, como no caso Epstein e na queda de popularidade, pode adotar estratégias que visem desviar o foco, realinhando seus apoiadores e direcionando a atenção para questões externas, como a relação com o Irã. Esse tipo de ação pode ser interpretado como uma tentativa de fortalecer sua posição política”, conclui o estrategista.

Do Infomoney/Arte: Freepik/Infomoney