CarnaBelém: Layse e os Sinceros querem mexer com o coração do público

Nesse sábado (14), o CarnaBelém 2026 abre o carnaval oficial da capital paraense com diversas programações na cidade. O Circuito Ver-o-Rio Psica da Velha Chica começa às 15h e segue até a noite com várias atrações no Ver-o-Rio, entre elas a cantora Layse junto com a banda Os Sinceros. Eles prometem mexer com a nostalgia do público, integrando os clássicos do carnaval ao repertório autoral marcado pelo brega.

Em uma conversa com a equipe da Agência Belém, Layse contou um pouco da trajetória dela no cenário artístico, sobre a forte influência musical na família, com músicos autodidatas. Também falou dos desafios de ser mulher artista no meio musical regional e do que o público pode esperar para o show no CarnaBelém. Confira a seguir.

AB – Tens uma influência musical na sua família, né? Além dessa referência, que artistas e estilos musicais marcaram a tua história?

L – Tudo começou com meu avô, que é maestro trompetista, nas épocas de bandas de jazzy, que tinham antigamente, bandas que não eram plugadas, eram com metais e com uma base rítmica que lembra a fanfarra. Só que meu avô é muito do bolero. Uma das primeiras influências musicais da minha vida é esse apego pelo bolero, por essa marcação de seresta. O brega, o bolero, essa coisa mais latina, realmente é o que puxa o meu trabalho, o que leva o meu trabalho até hoje, as minhas músicas autorais, as melodias que eu faço quando eu componho, a harmonia, tudo isso vem muito intenso. O samba também, essa musicalidade mais antiga…

Eu não costumo me ligar muito nessas influências musicais mais modernas. As minhas referências musicais até hoje permeiam muito a música latina dos anos 60, 70, 80 e chegando mais pro brega dos anos 90 também, que é quando a minha família já estava aqui em Belém e sempre tinha algo que é a cara do Pará, quando o pessoal confraterniza no final de semana: faz o peixe assado, faz o churrasco, toma uma cerveja e escuta brega. Até hoje essas influências marcam muito a minha história.

AB – Quando decidiste seguir a carreira musical?

L – Eu estava morando em Curitiba nessa época, fazia faculdade de Física… Quando eu fui morar para lá, eu senti muita falta de estar envolta em nossa cultura. Foi uma coisa absurda, eu estava fora do meu lar mesmo. Fora do seio da família, mas também fora da minha natureza, do sol, do calor, da cor do rio. E tudo isso me levou a produzir lá uma festa para isso, chamada Fervo do Jambu. E nessa festa eu virei DJ, produtora até que um dia eu sentei numa bateria e desse dia eu percebi que eu tocava e cantava ao mesmo tempo e aí foi uma virada de chave. Comecei a tocar lá em Curitiba com uma banda que eu tinha chamado Farofa Tropical e desde esse momento nunca mais parei. E fui dividindo meu tempo entre trabalho, estudos e a música, até que a música tomou conta e eu percebi que eu poderia viver disso. Além de tudo, percebi que a música tem essa importância na minha vida, de me ver como mulher, como artista, ela faz com que eu me sinta bem no mundo.

E foi aí que percebi o poder que tem a representatividade de uma mulher estar tocando bateria e cantando. Isso não é importante só para mim, mas para muitas mulheres e até crianças, que podem ver isso e pensar numa perspectiva de vida diferente, sabe?

E o fato de ser compositora também leva uma mensagem para outras mulheres que não tiveram oportunidades, para que acreditem em si mesmas. Quando eu escrevo, eu escrevo para mim, mas como um conselho para outra amiga, sabe? A música tem um sentido muito curativo na minha vida, em vários sentidos. Acredito ser bom para mim, para as mulheres que estão próximas de mim e também para as outras. Isso é realmente uma missão de vida.

AB – Na tua visão, qual o maior desafio de ser uma artista mulher no meio musical regional?

L – É exatamente esse: ser uma mulher artista no meio da música regional. Porque a gente sabe que tem poucas mulheres ainda nesse cenário. As mulheres são direcionadas a serem cantoras, intérpretes, divas, saradas e com aquela imagem impecável. Dentro do mercado fonográfico a gente tem essa dificuldade ainda. Quando a gente vai produzir um trabalho, sempre é um homem que está direcionando. Quando a gente vai dar uma opinião, sempre tem um homem que está falando o que que é certo ou de que forma isso pode melhorar. E não que a gente veja esses homens como inimigos, não é isso. Como esse machismo é estrutural, é uma reação até imediata que todo homem tem de sempre estar corrigindo a gente por algum motivo, sabe? E daí a importância das mulheres, assim como eu, nessa luta. Acho que fácil nunca vai ser, porque é próprio do ser humano mesmo essa dificuldade, de ter autoconfiança para acreditar na sua própria capacidade, de fazer e acreditar no seu trabalho. Mas isso é muito mais importante para nós enquanto mulheres. Tem mulheres que só vão descobrir no final da vida que poderiam ter sido outra coisa, trilhado outro caminho e com sonhos que ficaram para trás. Eu fico muito triste de ver tantas mulheres talentosas que tiveram seus trabalhos engolidos por homens e é essa a importância de ser uma artista mulher nessa geração da música paraense.

4- E qual o maior privilégio?

(…) Ter um trabalho, ter uma função dentro da arte, dentro da sociedade, que alimenta as mulheres, principalmente as mulheres que são minoria, as marginalizadas, pretas, que não são cis, isso aí realmente é o maior privilégio de todos, poder dar voz a essa coragem que vem de mim, mas que é uma missão além de mim, é uma coisa que eu não vou poder parar.

Crédito: Divulgação

Para Layse, é necessário ter mais representatividade feminina no cenário musical local como um todo.

AB – Qual o repertório dos shows da Layse com Os Sinceros? O que o público pode esperar no CarnaBelém?

L – No nosso repertório tem muito brega. A gente trabalha muito com essa coisa latina do bolero, do brega, mas assim, para carnaval é outra coisa. Eu gosto do carnaval de rua de Belém. Fico lembrando das pessoas pulando e tem esse negócio da pipoca, do calor, da espuma… No carnaval a gente faz um repertório direcionado para o carnaval, só que sempre procurando um repertório que bata afetivamente nas pessoas, com músicas do axé que não são só para dançar, mas que fazem a gente rememorar os anos passados, os clássicos, as músicas que marcaram a trajetória de cada um. Além das músicas do carnaval paraense, que tem a [banda] Fruta Quente, tem essa coisa da quadrilha, que são músicas muito alegres, que tem muito a ver com a ver com a gente, com a nossa alegria, de estar pulando, de estar na pipoca, de estar feliz. Esse show ele é pensado para carnaval de rua mesmo. Tem uma parte que a gente coloca o nosso som autoral, que são as minhas músicas, porque é importante sempre colocar o nosso som autoral dentro disso, talvez até com uma releitura dessas nossas músicas autorais. Mas tem todo esse sentimento dentro do repertório do carnaval de rua. E também tem o brega, porque tudo é brega, tudo vira brega. [risos] E o brega é uma expressão importante, não pode faltar.

Então, convido todo mundo a participar do CarnaBelém, conferir a força da nossa musicalidade aqui do Pará. Que a gente possa se curtir nesse Carnaval. Eu prometo fazer a minha parte. Podem ter certeza que esse show vai ser cheio de alegria, com um repertório que vai circular não só pelo carnaval do Brasil, mas pelo carnaval do Pará, relembrando afetivamente essas músicas. Que a gente possa sair desse carnaval com a boca doendo de tanto sorrir. Eu gosto muito disso, de mexer afetivamente com as pessoas dentro da música. E dentro do nosso repertório é isso que a gente vai fazer.

Da Agência Belém