Passageiros que precisaram viajar na manhã deste domingo (25) pela rota Marabá–Belém, um dos trechos rodoviários mais longos e cansativos do Pará, viveram um verdadeiro calvário sob responsabilidade da empresa Comércio e Transportes Boa Esperança Ltda. Ao longo de uma viagem de aproximadamente 510 quilômetros, usuários relataram troca de três ônibus, atrasos excessivos, falta total de conforto, ausência de itens básicos e descaso absoluto com idosos e pessoas com deficiência.
O ônibus que deveria sair da Estação Rodoviária de Marabá às 9h40 só deixou a garagem da empresa por volta das 11h30, após sucessivas trocas de veículos por falta de condições mínimas de uso. Apesar de pintados e aparentemente novos por fora, os ônibus apresentavam uma realidade completamente diferente no interior.

Entre as denúncias estão ar-condicionado inoperante, poltronas quebradas e imundas, banheiros com defeito, ausência de som ambiente, internet inexistente, carregadores de celular quebrados e até a falta de água gelada — item básico em uma viagem longa, sob calor intenso. Segundo passageiros, a água disponível era quente, obrigando uma usuária a comprar água para outra passageira idosa. O wifi também não funciona nunca, é inoperante.

Relatos apontam ainda que cerca de 90% dos passageiros tinham mais de 70 anos, incluindo cadeirantes, pessoas de muletas e idosos com mobilidade reduzida, submetidos a um cenário de total precariedade. “Pessoas idosas passando por tudo isso”, relata um dos passageiros, que também registrou imagens do interior dos ônibus como forma de documentação.

Além do desconforto, há preocupação com a segurança. Passageiros mencionam riscos de assaltos ao longo da rota, agravados pela sensação de abandono e pela inexistência de fiscalização efetiva. A passagem, que custa cerca de R$ 230, foi considerada incompatível com o serviço oferecido, descrito como indigno e desrespeitoso.

Outro ponto levantado é a dificuldade de registrar reclamações formais. Usuários afirmam que não conseguem identificar claramente o nome da empresa em plataformas como o Reclame Aqui, o que dificulta ainda mais a busca por providências.
A situação expõe, mais uma vez, a fragilidade da fiscalização por parte das agências reguladoras. Passageiros denunciam que ANTT e ARTRAN, além da ARCON, estariam fazendo “vista grossa” para as condições dos veículos da Boa Esperança, permitindo que ônibus circulem sem atender aos requisitos mínimos de segurança, conforto e acessibilidade.

O caso não é isolado e reforça uma realidade recorrente no transporte rodoviário intermunicipal e interestadual no Pará: empresas operam sem fiscalização rigorosa, enquanto usuários — especialmente os mais vulneráveis — pagam a conta.
A reportagem procurou a Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos do Estado do Pará (ARCON) e a empresa Comércio e Transportes Boa Esperança Ltda para comentar as denúncias e esclarecer quais providências serão adotadas. Até o fechamento desta matéria, nenhum dos dois havia respondido.
Do Jornal PASSAPORTE
