O que parecia uma provocação diplomática de Donald Trump se transformou em uma variável real para o mercado financeiro: a ofensiva dos Estados Unidos para controlar a Groenlândia — território autônomo da Dinamarca — é tratada por agentes do mercado financeiro como uma ameaça concreta, capaz de alterar fluxos de investimento e reprecificar ativos globais.
O consenso entre os especialistas entrevistados pelo InfoMoney é de que o presidente americano não está blefando. “A prisão de Maduro em uma operação relâmpago prova que o mercado deve tratar as investidas sobre a Groenlândia como um movimento possível. A estratégia não é apenas diplomática, mas baseada em ocupação e controle direto de recursos”, alerta Ramiro Gomes Ferreira, sócio e cofundador Clube do Valor.
Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, diz que “não se trata só de retórica, porque Trump fala sobre isso há bastante tempo e está levando essa história adiante, gerando consequências”.
Para Leonardo Netto, private banker da Guardian Capital, a ameaça de imposição de tarifas contra países europeus como forma de pressão já fez o mercado reagir. “A administração tem associado explicitamente o interesse na Groenlândia à segurança nacional diante do avanço de Rússia e China. Não se trata de mera retórica.”
Quem ganha?
Se o objetivo dos EUA é quebrar o monopólio chinês sobre as terras raras – que têm metais essenciais para chips, IA e baterias – e militarizar o Ártico, três setores se destacam imediatamente. As mineradoras americanas e canadenses são as escolhas mais óbvias para quem acredita que a ofensiva norte-americana será bem-sucedida.
Netto cita ativos como MP Materials (M2PM34), Rare Earth, The Metals Company e o ETF REMX, focado em mineração de terras raras. “O avanço enfraquece a tese de hegemonia chinesa no refino. Há uma reprecificação de mineradoras expostas a esses materiais diante da expectativa de investimentos estatais”, explica o especialista.
Com a tensão na Groenlândia, o Ártico já virou palco militar: Dinamarca, Reino Unido, França, Alemanha e outros países anunciaram o reforço da segurança na região. Com isto, a tese de defesa e logística ganha força. Enrico Cozzolino, CEO da CZZ Capital, aponta para a demanda por radares, sensores e satélites, o que pode beneficiar empresas como Northrop Grumman (NOCG34) e Lockheed Martin (LMTB34), além do ETF ITA, focado no setor de defesa.
No Brasil, as ações podem ser beneficiadas indiretamente, na visão de Cozzolino. Ele avalia que o embate geopolítico tende a valorizar o dólar e beneficiar exportadoras brasileiras de minério e petróleo. “O Brasil aparece como uma alternativa menos polêmica para o mundo na oferta de terras raras”.
Risco Europa e China
Já as empresas europeias podem estar do lado de quem perde, segundo os especialistas. As dinamarquesas Maersk e Novo Nordisk (N1VO34) devem ser afetadas pela tensão na região. “A ameaça de retaliação em tarifas cria alta volatilidade. O mercado tende a punir ativos de países envolvidos em batalhas comerciais”, diz Ramiro.
Netto pondera que a farmacêutica Novo Nordisk representa uma tese defensiva por ter controle da precificação de seus produtos, mas isto a protege de tarifas setoriais, enquanto o risco de oscilações por conta do risco-país e eventuais medidas americanas direcionadas a medicamentos europeus ainda existe , mas pode sofrer volatilidade de curto prazo nos múltiplos, mas seus fundamentos estruturais dificilmente serão destruídos.
Além de europeias, investimentos baseados na tese de que a China continuará sendo a única fornecedora viável de minerais críticos perdem força. “Empresas que não diversificarem seus fornecedores podem enfrentar sanções ou bloqueios no novo eixo liderado pelos EUA”, avisa Ramiro.
Do Infomoney/Ilustração: Freepik/Infomoney
