A temporada de resultados do quarto trimestre de 2025 (4T25) começará no início de fevereiro e a expectativa é de que os números do setor varejista sejam marcados por desempenhos mistos entre os segmentos.
Na visão do Santander, com as expectativas de deterioração macroeconômica pressionando as tendências de consumo, os números de vendas dos varejistas de alimentos continuarão apresentando fraqueza, enquanto os varejistas de vestuário podem sofrer com a demanda mais fraca.
Por outro lado, os analistas do banco projetam que os varejistas de medicamentos (como RD Saúde RADL3 e Pague Menos PGMN3) continuem apresentando um sólido desempenho de vendas nas mesmas lojas (SSS). Além disso, Mercado Livre (BDR: MELI34) deve seguir com crescimento resiliente.
“No geral, acreditamos que esta temporada de resultados deve ser analisada com cautela, pois os números fracos esperados para o 4º trimestre de 2025 podem representar um alerta precoce para o desempenho das empresas em 2026”, apontam os analistas do Santander.
O UBS BB define 2025 como um ano de duas metades no setor de varejo. Um sólido primeiro semestre de 2025 viu o consumo discricionário surpreender positivamente, seguido por uma desaceleração no segundo semestre de 2025, provavelmente refletindo os efeitos defasados das taxas de juros a 15% ao ano por um período prolongado.
“Esperamos tendências mais desafiadoras no curto prazo, já que o endividamento das famílias ainda está elevado, os empréstimos inadimplentes (NPLs) dos consumidores estão aumentando em todo o sistema e os benefícios sociais estão diminuindo”, avaliam os analistas do banco.
Enquanto isso, a perspectiva de cortes nas taxas de juros no próximo ano pode sustentar o consumo até 2026. O banco continua a ver RD Saúde, Alpargatas (ALPA4), Smart Fit (SMFT3) e Vivara (VIVA3) relativamente melhor posicionadas para o quarto trimestre, com o ímpeto se mantendo. Em relação aos potenciais pontos de inflexão, os analistas veem a Natura (NATU3) apresentando tendências modestamente melhores, embora a execução consistente continue sendo fundamental para reconstruir a confiança do mercado.
A prévia para o 4º trimestre de 2025 confirma que a desaceleração observada no 3º trimestre de 2025 persistiu até o final do ano, destaca o BTG Pactual.
“As altas taxas de juros continuam a corroer a renda disponível, enquanto o endividamento ainda elevado das famílias restringe o poder de compra. Esse cenário é agravado pela inflação acumulada nos últimos anos, que elevou estruturalmente os níveis de preços e reduziu a acessibilidade real”, apontam os analistas.
A partir do terceiro trimestre, essas pressões foram mais intensas nas categorias discricionárias com maior exposição ao crédito e aos consumidores de renda média e baixa — um padrão que permanece intacto no quarto trimestre, ressalta o BTG. Assim, o resultado é um ambiente de consumo caracterizado por gastos seletivos, volumes mais fracos e alavancagem operacional limitada. A expectativa é de que a receita do setor (receita líquida) cresça 7% anualmente, com o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) aumentando 8%.
Confira os destaques positivos e negativos projetados pelo mercado:
Destaques positivos
Varejo Farmacêutico: o Santander espera que as empresas mantenham um forte crescimento da receita, impulsionado pela resiliência do setor e pelas vendas de GLP-1.
Para o Varejo Farmacêutico, estima um crescimento de vendas nas mesmas lojas (SSS) de 8,1%, o que deve contribuir para ganhos de alavancagem operacional, resultando em uma margem Ebitda de 7,1%.
Mercado Livre (BDR: MELI34): o banco espera que o Mercado Livre continue apresentando um forte volume bruto de mercadorias (GMV) sequencialmente forte, apesar das preocupações com a concorrência mais acirrada. A estimativa é de um crescimento do GMV (Volume Bruto de Mercadoria) no Brasil de 34% em relação ao ano anterior, com base em comparações sólidas (+32% no 4T24), combinado com a continuidade do bom desempenho no México, com um aumento de 33% em relação ao ano anterior. Em termos de rentabilidade, espera uma pressão de aproximadamente 2,7 pontos percentuais na margem EBIT em relação ao ano anterior, à medida que o Mercado Livre continua reinvestindo para manter sua liderança de mercado.
Destaques negativos
C&A (CEAB3): o Santander acredita que um ambiente competitivo mais acirrado, combinado com uma execução falha, pode acabar interrompendo o forte ímpeto operacional da empresa, levando a um crescimento de vendas nas mesmas lojas (SSS) de vestuário de 0,5% (contra +8,1% no 3T25). Apesar das expectativas de expansão da margem bruta (+87 pontos-base, ou 0,87 ponto percentual, em relação ao ano anterior), a queda na receita consolidada pode reduzir a alavancagem operacional e pressionar a margem Ebitda para 17,1% (-1,26 ponto percentual em relação ao ano anterior).
Vivara: embora espere que a receita bruta mantenha o ritmo e acelere o crescimento trimestral para cerca de 17% em relação ao ano anterior, o Santander acredita que isso pode ter sido sustentado por uma maior atividade promocional durante o trimestre, levando a alguma pressão sobre a margem bruta em relação ao ano anterior. Isso pode decepcionar o mercado, na visão do banco, já que Wall Street espera atualmente uma expansão da margem bruta de 0,5 a 1 ponto percentual (p.p.) em relação ao ano anterior. No nível do Ebitda, espera que essa pressão seja mais do que compensada por uma maior eficiência nas despesas gerais e administrativas (SG&A), resultando em um aumento da margem Ebitda de 0,37 ponto percentual em relação ao ano anterior.
Empresas para ficar de olho:
Smart Fit (SMFT3): o Santander considera o forte ritmo de expansão no 4º trimestre (+217 academias), concentrado principalmente em dezembro, esperando que as novas inaugurações pressionem a rentabilidade no trimestre, com uma margem bruta de 49,3% (-0,79 ponto percentual em relação ao ano anterior). “Reiteramos que essa ‘piora’ deve ser temporária, pois as novas unidades devem aumentar rapidamente sua capacidade produtiva e atingir a maturidade, restaurando a rentabilidade do negócio aos níveis históricos”, avalia.
Varejo de Alimentos: o Santander acredita que as vendas no varejo de alimentos sofreram pressão no 4º trimestre de 2025, o que os leva a esperar que os números de vendas da Assaí (ASAI3) e do Grupo Mateus (GMAT3) permaneçam sob pressão, com SSS em 0,5% e -1,8%, respectivamente. “Sugerimos acompanhar de perto o comportamento das vendas e as iniciativas individuais para reverter essa tendência nos próximos trimestres”, avalia.
Lojas Renner (LREN3): dadas as muitas preocupações com o desempenho de vendas dos varejistas de moda no 4º trimestre de 2025, o banco acredita que os resultados da Renner são muito aguardados pelo mercado. Além disso, avalia que o 4º trimestre de 2025 poderá ajudar os mercados a avaliar a execução da empresa nos próximos trimestres. “Prevemos um crescimento de aproximadamente 2% nas vendas em mesmas lojas (SSS) em relação ao ano anterior, com uma expansão de cerca de 100 pontos-base na margem EBITDA consolidada”, aponta.
Visão do UBS BB
Após um forte primeiro semestre de 2025, os varejistas de vestuário desaceleraram no segundo semestre de 2025, destaca o UBS BB. A projeção é de um crescimento total de vendas nas mesmas lojas (SSS) de +2,8% para a Lojas Renner (LREN3), SSS estável para o segmento de vestuário da C&A e 5,3% para a Guararapes, superando o setor.
A Vivara continua se destacando, com receita bruta em alta de 16% em relação ao ano anterior, impulsionada pelo e-commerce, enquanto as margens bruta e Ebitda expandem 1 ponto percentual e 1,20 ponto percentual em relação ao ano anterior.
Já a Alpargatas (ALPA4), na visão do UBS BB, deve continuar apresentando melhora sequencial na margem bruta no Brasil e menores perdas internacionais em relação ao ano anterior, compensando um aumento nas despesas gerais e administrativas (SG&A). A Azzas (AZZA3) permanece sob pressão, com receita líquida caindo 2,4% em relação ao ano anterior em meio a tendências mais lentas no segmento de moda feminina.
Para varejo de alimentos, persiste a fragilidade generalizada. “Esperamos que as vendas nas mesmas lojas (SSS) do Assaí aumentem 1,2%, o que se traduz em crescimento de vendas totais de 3,2% em relação ao ano anterior, juntamente com expansão da margem Ebitda de 0,1 ponto percentual em relação ao ano anterior, para 6,5%, à medida que a maturação das conversões de lojas Extra compensa a alavancagem operacional limitada”, aponta.
No Grupo Mateus (GMAT3), a projeção é de uma desaceleração no crescimento da receita para 7,4% em relação ao ano anterior, excluindo a Novo, refletindo um desempenho mais fraco do atacarejo (-2,8% nas SSS).
Do Infomoney/Ilustração: Freepik
