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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Rede Globo cede às pressões e abafa divulgação sobre escândalo religioso no Pará



 


 Dom Alberto Taveira com o papa Francisco: afinal, qual a acusação contra o arcebispo de Belém? A população quer saber. Foto arquivo Arquidiocese

Um batalhão de cabeças coroadas do meio eclesiástico nacional, com a ajuda até de figurões do sistema judicial e de alguns políticos, entrou em ação desde o final da semana que passou, até poucas horas antes de o programa Fantástico, da Rede Globo, ir ao ar no último domingo, 6, conseguindo impedir a divulgação de matéria sobre denúncia de assédio sexual envolvendo o arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa, feita por padres e ex-seminaristas, expulsos do Instituto Pio X.



Milhões de paraenses que aguardavam, de olho na TV, o que seria divulgado – até mesmo diante da antecipação feita pelo próprio Dom Alberto sobre a matéria, inclusive tachando as acusações contra ele de calúnias e se dizendo acusado de “imoralidade” – ficaram frustrados e privados de saber o que de fato está ocorrendo nesse caso, quem são os acusadores do arcebispo e quais os fatos “graves” contidos no inquérito policial em tramitação sob sigilo.

Único até agora a publicar uma pequena parte sobre o que consta do inquérito policial, o Ver-o-Fato soube por fonte acreditada no meio católico nacional que o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta foi o grande arquiteto da “operação abafa” na Rede Globo. Também colaboraram os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo, segundo a fonte religiosa. Figura muito ligada ao Pará e a quem Dom Alberto Taveira sucedeu em 2014 no comando da Arquidiocese de Belém, Dom Orani conseguiu, ao menos por enquanto, acalmar os ânimos em polvorosa na cúpula eclesiástica paraense e nacional.

O argumento principal utilizado para colocar as denúncias em “banho maria” é de que o caso está em processo sigiloso de investigação e qualquer divulgação prematura, sem a questão ainda ter ido parar nas mãos do Ministério Público, provocaria danos irreparáveis à imagem da Igreja Católica. Os danos, na verdade, diante desse silêncio ensurdecedor endossado pela poderosa Rede Globo, já são irreversíveis.

Há, porém, um outro lado que foi desprezado nessa justificativa: as manobras para evitar a divulgação do caso foi uma estratégia desesperada que se consolida como verdadeiro tiro no pé por privar o público de ter informações precisas sobre os fatos. Ou seja, em vez de fazer o público abandonar o terreno da boataria e da especulação que inundou as redes sociais sobre a inocência ou culpa do arcebispo no episódio, o silêncio alimenta a percepção de que, se estão escondendo, é porque a coisa seria bem pior do que sustenta a vã filosofia dos fofoqueiros de plantão. Mas afinal, de que o arcebispo é acusado e quem o acusa?

Acusações e ameaças

Contudo, pelo que já se sabe por meio de fontes idôneas, o caso seria mais amplo, envolvendo orgiais sexuais entre outros religiosos, quatro deles expulsos do seminário Pio X por ordem do arcebispo, ele próprio também acusado de assédio de um adolescente que à época seria menor de 16 anos. Na alta cúpula da Igreja, por sua vez, comenta-se que tudo isso estaria ocorrendo porque dentro da instituição existiria um certo “lobby gay” descontente com medidas tomadas pelo arcebispo.

Do mesmo modo, fala-se de imensas pressões e ameaças sobre os ex-seminaristas que denunciaram o caso. Isso, de princípio, teria feito com que o inquérito policial fosse lacrado como sigiloso para preservar as vítimas. O Ver-o-Fato soube que algumas estão apavoradas e temem atentados contra suas vidas. Advogados ligados aos direitos humanos já entraram no circuito para buscar das autoridades judiciárias as garantias para que nada aconteça contra os denunciantes.

Nas redes sociais, correntes exaltadas de defensores e atacadores de Dom Alberto Taveira já estão formadas e o açodamento dos espíritos tende a aumentar na medida em que, se ninguém da própria Igreja se apresenta para jogar luz aos fatos, anulando a escuridão, maior será a pressão para que tudo seja esclarecido, enquanto a Polícia Civil conclui seu trabalho e encaminha as peças do inquérito ao fiscal da lei para que ele diga se levará o caso adiante ou decidirá pelo arquivamento.

Enquanto a verdade continua debaixo do tapete e ninguém publicamente mostra a cara para contar o que sabe, o Ver-o-Fato saiu a campo para trazer informações novas aos seus leitores. Como tem ocorrido, desde que o arcebispo antecipou-se ao fato e publicou a versão dele, as pessoas que temos ouvido exigem aparecer como fonte, temendo revelar suas identidades para se prevenirem de retaliações.

Relatos consistentes

Uma delas afirma estar convencida sobre a veracidade dos relatos já colhidos no inquérito. Na peça policial teria troca de mensagens de aplicativos, além de acusações frontais sobre o que vem ocorrendo atrás dos muros católicos do Pará. De acordo com a fonte, os relatos seriam coincidentes e consistentes.

Por sua vez, surge um elemento complicador: parte dos crimes relatados já estariam prescritos de enquadramento pela lei penal, notadamente os mais antigos, segundo a fonte com acesso ao inquérito da Polícia Civil. Não é assim, por outro lado, que a questão é vista pelo Vaticano. Para ele, nada está prescrito, até mesmo em razão de centenas de casos espalhados por todo o mundo, sobretudo nos Estados Unidos, Europa e América do Sul estarem em franca apuração por diversas comissões designadas pela Cúria Romana.

São casos de 30, às vezes mais de 40 anos, cujos sacerdotes acusados de abusos sexuais contra crianças e adolescentes foram afastados da Igreja Católica por ordem do papa. Encorajadas pelo rigor da Santa Sé – que, aliás, por décadas foi também acusada de omissão em razão do forte corporativismo religioso – muitas famílias das vítimas, em diversos países, têm ingressado na Justiça com várias ações de reparação por dano moral, material e psicológico. O trauma dos atingidos por meses e anos de ataques sexuais nunca prescreveu e jamais prescreverá, porque enraizou-se na alma das vítimas.

É preciso compreender, no caso paraense, que há duas investigações em andamento sobre as denúncias contra o arcebispo de Belém. A primeira é da Polícia Civil, provocada pelo Ministério Público. A segunda é do Vaticano, cuja apuração em Belém foi feita por comissão enviada de Roma por ordem do papa Francisco.

Provas frágeis ou fortes?

O pessoal do Vaticano já foi embora, ficou apenas uma semana por aqui, mas levou todos os documentos e depoimentos referentes às denúncias para manifestação do próprio papa. Fonte da Arquidiocese de Belém disse ao Ver-o-Fato, sem entrar em detalhes, que as provas colhidas pelo Vaticano seriam frágeis e devem inocentar Dom Alberto. Há porém quem garanta, como outra fonte, que a gravidade sobre o que foi investigado teria força suficiente para tirar do Arcebispado o líder dos católicos paraenses. Isso tem tirado o sono do arcebispo.

O Ministério Público, conforme divulgado pelo Ver-o-Fato no domingo, 6, foi o primeiro órgão do sistema judicial a ser procurado pelos denunciantes. Em nota, o MP diz apenas que acompanha os inquéritos policiais requisitados pela própria instituição sobre possíveis situações de abuso em relação ao arcebispo Metropolitano de Belém, Dom Alberto Taveira. Também informa que aguarda a conclusão dos inquéritos para a adoção das medidas legais cabíveis na esfera judicial.

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