Crime eleitoral em Belém - JORNAL PASSAPORTE

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Crime eleitoral em Belém


Houve um crime na eleição municipal deste ano em Belém.*

O Liberal é réu confesso desse crime, de manipulação dolosa para influenciar na votação e interferir na livre manifestação do voto. Embora tenha alegado repúdio a essa fraude, por publicar os principais resultados de todas as pesquisas que encomendou, mesmo denunciando a farsa, o jornal é coautor do crime. Seu parceiro, o Ibope Inteligência, autor direto das manipulações, se mantém calado, sem reagir às graves acusações do parceiro.

O que o Ministério Público Eleitoral, a polícia e a própria justiça eleitoral esperam para instaurar inquérito e investigar os fatos, públicos e notórios?

No dia 15 de novembro, O Liberal comunicou aos seus leitores que decidira excluir as simulações do 2º turno da eleição para prefeito de Belém da publicação dos resultados da última pesquisa de intenção de voto antes da disputa do 1º turno. O motivo era “muito simples”, explicou o jornal: o Ibope Inteligência excluiu das simulações o candidato “Delegado Federal Eguchi” (do Patriota).

A exclusão era injustificável, já que Eguchi aparecia tecnicamente empatado com o candidato José Priante (do MDB) na disputa pela segunda vaga do segundo turno. O líder era o candidato Edmilson Rodrigues, do PSOL.

O Ibope excluiu o delegado, mas em uma das simulações “incluiu um candidato que aparece em quarto lugar na nova pesquisa”. O Liberal não deu o nome desse candidato, que era Thiago Araújo, do Cidadania.

Para o jornal da família Maiorana, o Ibope “cometeu um erro inaceitável”. Por isso, O Liberal “repudia e não aceita compactuar com essa forma diferenciada de informar os eleitores adotando ‘dois pesos e duas medidas'”, prática que a publicação diz repudiar e não praticar. Daí a nota na primeira página justamente da edição do dia da eleição.

No dia 16, O Liberal anunciou que publicar, na edição do dia seguinte, “uma série de análises sobre as pesquisas eleitorais, grupos de pressão política e outros detalhes das eleições municipais no Pará”, conforme nota de abertura da coluna Repórter 70.
Não cumpriu, porém, a promessa. Mais do que isso: parecia ter esquecido tudo. No dia 22, publicou a primeira pesquisa do Ibope para o 2º turno. Nela, o delegado da Polícia Federal subiu tanto que apareceu empatado tecnicamente (considerando a margem de erro) com Edmilson Rodrigues, do PSOL, numericamente ainda à frente de Eguchi, mas por estreita margem.

Só nove minutos antes da meia-noite de domingo, dia 29, depois que a apuração dos votos do 2º turno fora concluído, com a vitória de Edmilson Rodrigues, é que O Liberal voltou ao assunto, com uma “nota de repúdio às pesquisas eleitorais do Ibope”, postada pela internet e publicada no jornal da segunda-feira.

Vale a pena reproduzir a íntegra da nota:

Há uma enorme distância entre o equívoco e uma tentativa de interferência. Ao longo da história, pesquisas eleitorais no Brasil têm sido mais danosas que esclarecedoras para a democracia, denotando evidente busca por influir resultados. Assim tem sido recorrentemente com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, que ao longo de seus 78 anos de história apresenta uma trajetória marcada por acertos, mas, sobretudo, por incontáveis e grosseiros erros – que resignadamente acreditamos ser culposos, em detrimento do inaceitável dolo.

A pesquisa do Ibope divulgada no último domingo (29), que dava ampla vitória ao candidato Edmilson Rodrigues (Psol) sobre delegado federal Everaldo Eguchi (Patriota) é um caso que configura tentativa de influenciar os votos dos belenenses. Aliás, esta é uma prática constante do Ibope, como ocorrera no primeiro turno, em Belém, quando mais uma vez o instituto agiu na manipulação dos dados, apresentando simulações de um eventual segundo turno com o primeiro, o segundo e o quarto colocado nas pesquisas, excluindo o terceiro colocado no seu próprio levantamento. Até que ponto a “pesquisa” teve êxito nessa infâmia, nunca saberemos ao certo.

Mas o que sabemos, e não se trata de achismo, é que os números mais recentes apresentados pelo instituto, dando vantagem de 58% para um candidato, que com a margem de erro poderia chegar a mais de 60% dos votos, como se viu, passou longe da realidade. A eleição foi decidida por uma diferença de aproximadamente 30 mil votos, pouco mais de 51% para o eleito, bem distante da simulação (ou dissimulação) apresentada pelo instituto.

Desvios similares foram percebidos neste segundo turno em outras capitais. Em São Paulo, o candidato Boulos (Psol) recebeu 40% das intenções de votos, contra 47% da última pesquisa. Em Porto Alegre, segundo a última pesquisa do Instituto, Manuela d’Ávila, do PC do B, teria sido eleita com 51% das intenções de votos, mas nas urnas obteve 45% da preferência do eleitor da capital gaúcha, perdendo o pleito. Já em Fortaleza, o Ibope apontou que o prefeito eleito Sarto (PDT) teria 61% das intenções, mas a vitória foi bem apertada, com 51% dos votos.

Diante desse fato, do erro grotesco ou da má-fé, o Ibope deve vir a público se explicar. No caso de Belém, terá que assumir uma posição que não será digna em nenhum cenário. Se assumir um erro, uma distorção em tamanha escala, muito além da margem de erro (em uma pesquisa que se dizia com 95% de chance de retratar a verdade), colocará por terra a credibilidade de seus métodos estatísticos.

Se assumisse a manipulação, o que nunca o fará, teria que fechar as portas, pois a (falta de) credibilidade não permitiria a sobrevivência do instituto em uma sociedade republicana que clama sempre por mais transparência e justiça. Mas ainda há um terceiro caminho que o instituto pode tomar, do silêncio, ignorando a interferências e os males que cometeu em um jogo político que deve ser justo.

De nossa parte, vamos levar ao Conselho Administrativo do Grupo a evidente tentativa do Ibope de prejudicar candidatos e eleitores há décadas no Brasil, de forma que sejam adotadas medidas que resguardem o papel da imprensa, de informar com clareza e exatidão, bem como a credibilidade de um veículo que tem 74 anos de tradição. Pelo exposto acima, respeitando a cada um de seus leitores, nós, do Grupo Liberal, pedimos sinceras desculpas por qualquer equívoco que tenha cometido a partir desta indução. Quanto ao Ibope, tomaremos as medidas judiciais cabíveis contra o instituto, a partir de provas circunstanciais e materiais que não poderão ser reveladas agora, por se encontrarem com corpo jurídico da empresa, que analisa os documentos para decidir quais trâmites serão adotados.  

Escrevi no dia 1º o seguinte comentário:

Normalmente, as edições dominicais do Diário do Pará e de O Liberal circulam do meio para o final da tarde de sábado. No dia 29, quando aconteceu o 2º turno da eleição municipal, elas só saíram no final da noite. O motivo: esperar a conclusão das pesquisas de intenção de voto encomendadas pelos dois jornais, executadas entre a sexta-feira e o sábado.

Pela primeira vez, o Ibope e o Acertar chegaram praticamente aos mesmos números: 58% para Edmilson Rodrigues e 51% para Everaldo Eguchi. A vantagem para o candidato do PSOL aumentara em relação ao seu adversário do Patriota, depois de eles estarem tecnicamente empatados logo depois do 1º turno. Na realidade, porém, a vantagem foi de pouco mais de 3% e não de 7% – ou 26 mil votos.

O Liberal acusou o Ibope de ter manipulado a pesquisa para favorecer Edmilson. Admitiu que a vantagem mais dilatada apurada pelo instituto, em manobra que classificou como de má fé, pode ter maculado a lisura da votação, induzindo a abstenção dos que não estavam mesmo dispostos a votar ou a opção dos indecisos pelo voto útil, que favorece o candidato apresentado nas prévias como favorito à vitória.

Mesmo tendo essa opinião desde a primeira das quatro pesquisas que a TV Liberal encomendou ao Ibope, o grupo de comunicação da família Maiorana publicou todas elas. Incluindo a última relativa ao 2º turno, concluída no dia 28, duas semanas depois de o jornal acusar o Ibope de manipular os números da sondagem em prejuízo do delegado federal. Prometeu que ia provar a fraude. Ao invés disso, veiculou a nova farsa.

O Diário do Pará não se manifestou sobre o grave erro do Instituto Acertar, que ficou acima do limite máximo da margem de erro, apesar de, nessa situação, a possibilidade de acerto ser de mais de 95%. Silêncio absoluto do jornal da família Barbalho.

Diante da “nota de repúdio” que O Liberal publicou na primeira página da sua edição do dia 29, que, excepcionalmente, foi retardada para abrigar o resultado da pesquisa manipulada do Ibope, a dedução que se poderia fazer, considerando-se verdadeiras as alegações da folha dos Maiorana, é que Ibope e Acertar combinaram uma pesquisa falsa para ajudar a eleger Edmilson? Sem a participação (nem mesmo o conhecimento) dos seus dois clientes?

Se os dois grupos de comunicação se mantiverem em silêncio, é de se supor que pelo menos o Ministério Público Eleitoral haverá de buscar uma resposta para esse mistério.
Por: Lúcio Flávio Pinto

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