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sábado, 2 de novembro de 2019

A exploração do turismo e do turista

Dia desses vi pela televisão as imensas filas de brasileiros diante dos consulados norte-americanos em busca de um visto. Após os costumeiros incômodos da espera e das entrevistas por vezes nada cordiais, aguarda-os nos aeroportos norte-americanos nova sucessão de chateações, que vão desde tirar os sapatos até, por vezes, quase a roupa toda!

Sem entender bem o motivo pelo qual tantos brasileiros não desanimam diante de tantos dissabores e ficam aqui pelo Brasil mesmo, decidi consultar uma agência de turismo. Descobri, por exemplo, que o preço normal de uma passagem aérea para Manaus fica em média por R$ 2.174,04. Se, no entanto, o turista decidir voar quase o dobro do percurso, indo até Miami, nos Estados Unidos, pagará apenas R$ 184,16 a mais. É difícil de compreender o motivo pelo qual voar o dobro do percurso custa só 8,47% a mais.

Chegando em Miami, o turista normalmente alugará um carro. Perguntei quanto sairia o aluguel de um veículo econômico durante duas semanas. Constatei, pasmo, que em Manaus o turista pagaria R$ 1.305,00 contra apenas R$ 1.252,80 em Miami – uma diferença de 4% a menos. E não custa lembrar que o litro de gasolina lá nos Estados Unidos custa cerca de R$ 1,20, menos da metade do que pagamos em nossos postos.

E o hotel? A partir de uma mesma rede, e dentro de uma mesma categoria, busquei saber quais seriam os valores. Nos Estados Unidos as 14 diárias sairiam por R$ 3.097,20, e em Manaus R$ 2.835,00 – apenas 8,46% a menos.

No final das contas, uma viagem para Manaus custaria R$ 6.314,04, contra R$ 6.708,20 de uma para os Estados Unidos – uma diferença global de apenas 6,25%! Considerada a distância e a estrutura oferecida, fica patente o desestímulo ao turismo interno. E é assim que o brasileiro acaba conhecendo pouco o tão grande e belo país no qual nasceu!

Diante destes números, não é surpresa o resultado de uma pesquisa encomendada pelo Ministério do Turismo em 2006, segundo a qual, dos 5 milhões de brasileiros que a cada ano viajam para o exterior, cerca de 3,5 milhões, ou 70% deles, trocariam o destino e viajariam pelo Brasil se os preços fossem mais baratos.

É uma pena, pois o dinheiro que sai do país não é pouco. Para que se tenha uma idéia, em apenas quatro meses do ano de 2005 uma massa de 1,4 milhão de brasileiros gastou em outros países US$ 1,2 bilhão. Se aplicarmos a este número os resultados da pesquisa do Ministério do Turismo, será fácil concluir que desta dinheirama toda US$ 840 milhões poderiam ter ficado no Brasil, se nossos preços fossem mais razoáveis. E falamos em apenas quatro meses de um único ano!

Para piorar, o alto custo das viagens pelo Brasil não é o nosso único problema. Há também a séria questão da discriminação. Sim, discriminação – os brasileiros são, com frequência, discriminados dentro do Brasil. Citarei um pequeno exemplo que dá bem a idéia do quanto somos desprestigiados: há alguns meses, almoçando em uma churrascaria da brasileiríssima Salvador, encontrei na mesa uma placa contendo os dizeres “meat” e “no meat”. Solicitei ao garçom uma plaquinha em português, e recebi a informação de que ela não existia. Passei, então, a receber uma aula de inglês, tendo sido informado de que “meat” significava “refeição” – eu não sabia, achava que significava “carne”. E foi assim que eu, um brasileiro, fiquei a me comunicar com os garçons brasileiros daquela churrascaria brasileira instalada dentro do Brasil com uma plaquinha em inglês!

Sobre este tipo de discriminação, tenho certeza de que todo brasileiro que já perdeu sua reserva confirmada de hotel ou avião para algum estrangeiro, ou foi condenado a ficar em instalações piores ou lugares mais desconfortáveis por conta de não falar inglês dentro do Brasil, sabe do que estou falando.

Somos um povo hospitaleiro e acolhedor – e neste quesito nos destacamos a nível mundial. É bom que sejamos assim. Nada há de errado nisso, e muito pelo contrário. Só não compreendo os motivos pelos quais muitas vezes não somos assim com nossos próprios conterrâneos!

A propósito, estas linhas foram escritas há mais de uma década. Mudou algo, de lá para cá?

Por: Pedro Valls Feu Rosa

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