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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Como tudo começou!

O CIRIO

O termo Círio vem da palavra latina "cereus", que significa vela ou tocha grande por serem as velas  a principal oferta dos fiéis para cumprimento das promessas nas procissões em Portugal e, com o tempo, o termo passou a ser sinônimo de procissão  aqui em Belém e em muitas outras cidades do interior do Estado.
A devoção à Virgem de Nazaré teve início  com os jesuítas, na localidade de Vigia de Nazaré, no Pará, no ano de 1653.
Existem algumas versões de como teria acontecido o aparecimento da pequena imagem, mas a mais corrente é que teria sido encontrada pelo caboclo Plácido José de Souza às margens do igarapé Murucutu, cujo leito corria onde hoje se encontra a trav. 14 de março,  que passa na parte traseira do Santuário de Nazaré. A versão é corroborada por um manuscrito em que Dom Frei Evangelista, quinto bispo do Pará ( 1772 a 1782), transcreve sua conversa com Plácido. Que lhe teria contado sobre como a imagem foi encontrada em 1700, tendo o bispo visitado a ermida que Plácido erguera logo após sua chegada em Belém.
O historiador Almeida Pinto confirma a existência do manuscrito, acrescentando que em 1773 foi iniciada a construção da segunda ermida por Plácido, com a primeira pedra abençoada pelo bispo.
O “milagre do retorno”
Relatos apontam que Plácido encontrara a imagem em uma bifurcação de um taperebazeiro (árvore do taperebá) e outros do que seria uma espécie de nicho natural em meio a trepadeiras. E que, após achar a imagem, que estaria com um manto, percebeu costurado na parte interna um papel onde se lia “Nossa Senhora de Nazaré do Desterro”. Ele a levara para sua casa e a colocara em um pequeno altar de miriti, onde estavam um crucifixo e outras imagens de santos de sua devoção. No dia seguinte, a imagem teria sumido. Ao retornar ao local do achado, percebeu que ela se encontrava no mesmo lugar do dia anterior. O fato repetiu-se durante alguns dias e a notícia do “desaparecimento” se espalhou, provocando a intervenção das autoridades civis e eclesiásticas, fazendo com que fosse levada ao Palácio do Governo, o Paço Episcopal e à recém-erguida Catedral, de onde ela também sumiu, sendo encontrada no mesmo local.

Por conta dos desaparecimentos, Plácido teria entendido que a imagem deveria ficar no local onde fora encontrada e ali construiu uma ermida para abrigá-la. O local do achado é onde hoje se encontra a majestosa Basílica Santuário.

O chamado milagre da “fuga da imagem” é tido como um prodígio que indica que o lugar teria sido escolhido por Deus para que ali a fé de seus filhos fosse manifestada. Ainda hoje a graça do Pai se manifesta por meio da intercessão da Vigem Santíssima, que acolhe seus filhos para celebrar, louvar, bendizer e suplicar ao Senhor.
A imagem é em si a memória e representação da Mãe que, trazendo o Filho amado nos braços, acolhe toda a humanidade N’Ele simbolizada. 

Ao longo da história, incontáveis são os relatos de graças alcançadas por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré aos que acorrem ao templo dedicado à Rainha da Amazônia, comprovando que se trata de um lugar abençoado e consagrado a Deus, onde seu poder se manifesta de maneira inigualável.

Origem da Imagem
A verdadeira origem da imagem é desconhecida, supondo-se que seja de Portugal, visto que à época não haveriam “santeiros” habilitados para a elaboração desta espécie de escultura em Vigia de Nazaré, local onde a devoção foi primeiramente implantada pelos colonizadores. A estatueta possivelmente teria sido trazida pelos missionários Jesuítas, responsáveis pela difusão da devoção por este título mariano em outros locais no território amazônico. A maioria dos pesquisadores contesta a versão de que a imagem teria sido transportada por terra da localidade de Vigia pelo fato de que o caminho era perigoso por conta da presença de povos arredios ao longo do seu curso, fazendo com que só fosse possível a comunicação com Belém pelos rios.

O primeiro Círio

As primeiras procissões
O primeiro Círio foi realizado na tarde do dia 8 de dezembro de 1793, saindo do palácio do governo. Este roteiro se manteve até 1881. O segundo domingo de outubro só foi definido como o dia de realização da procissão do Círio em 1901.

Em 1854 o Círio passou a ser realizado de manhã, para evitar as chuvas que são mais comuns no período da tarde. A partir de 1882, o bispo Dom Macedo Costa, de comum acordo com o Presidente da Província, Dr. Justino Ferreira Carneiro, resolveu que o ponto de partida seria a Catedral de Belém, como
acontece até hoje.
A imagem que participa das procissões é uma réplica, já que a santa encontrada por Plácido tem mais de 300 anos. Apenas no Círio 200, em 1992, a Imagem que saiu na procissão foi a Imagem Original.


Em fevereiro de 1773, Dom Frei João Evangelista Pereira, o quinto bispo da então Diocese de Belém, recém chegado, visitou o Arraial e resolveu enviar a imagem a Portugal para que fosse reformada. Além disso solicitou à Rainha, Dona Maria I, e ao Papa Pio VI a licença oficial para a realização da festividade de Nossa Senhora de Nazaré. O bispo visitou novamente o arraial em outubro daquele ano e realizou a bênção da pedra fundamental para a construção da terceira ermida e esperava que altar e o nicho estivessem prontos quando a imagem fosse trazida de volta. A imagem retornou a Belém dia 31 de outubro de 1774 (domingo). Atendendo ao convite do bispo, a população a recebeu com grande festa no porto, de onde foi conduzida em uma grande procissão até a ermida,

Dom Frei João Evangelista faleceu antes que a resposta quanto à realização da festividade fosse concedida. Seu sucessor, Dom Frei Caetano Brandão, reiterou o pedido em 1788. O despacho favorável do Pontífice aconteceu em 1790, mas a notícia chegou apenas dois anos depois, em um período de vacância no episcopado de Belém.

Em 1792, o então capitão geral do Rio Negro e Grão-Pará, Francisco de Souza Coutinho, visitou o arraial no mês de outubro e ficou impressionado com a movimentação dos devotos e também aderiu à devoção, resolvendo dar maior importância ao local, atraindo para Belém a atenção de toda a Província.
Após a autorização para a realização da festa, o capitão planejou organizar uma grande feira com produtos agrícolas oriundos das várias regiões da Capitania, marcada para iniciar no dia 8 de setembro de 1793. Cada vila ou cidade precisaria contribuir com a exposição, havendo condução gratuita até Belém, com embarcações saindo de diversas localidades. Alguns navios trariam inclusive indígenas de várias etnias.

Foram três meses de intensa preparação. Entretanto, no final do mês de junho, o capitão adoeceu e ficou receoso de não poder inaugurar a feira, prometendo que se ficasse curado iria mandar buscar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré ao Palácio e na capela seria celebrada uma missa, presidida pelo capelão, Padre José Ruiz de Moura, e em seguida levaria a imagem em um palanquim até a ermida, acompanhada pelo povo.

A graça foi alcançada e o capitão cumpriu sua promessa, com a celebração da missa e a realização de uma grande procissão, no dia 8 de setembro de 1793, sendo considerada como o primeiro Círio.
Á frente do cortejo seguiu a cavalaria e a imagem foi levada pelo capelão em um palanquim azul, ladeada pela guarda nobre. Estavam presentes o próprio capitão, o Cabido Diocesano, os vereadores da Câmara, todos os integrantes das Casas Civil e Militar e uma multidão de devotos, entre brancos, indígenas e negros que estima-se entre 5 e 10 mil pessoas. Na chegada à ermida foi celebrada outra missa e após foi concedida a bênção da pedra fundamental para a construção da terceira ermida, construída com pedras e cal.

Por toda a semana foram realizadas ladainhas na ermida e a feira no arraial. O governador compareceu todas as noites para apreciar as barracas de palha que vendiam os produtos regionais, entre frutas, animais vivos, carnes de caça, peixes, comidas típicas e utensílios diversos.
Da Matriz à Basílica

“Para o povo cristão, se os locais consagrados a Deus como igrejas e capelas apresentam-se como especiais por si mesmos e mais especiais ainda são os que apresentam a característica de terem sido escolhidos por Ele para a realização de acontecimentos importantes, como os locais sagrados da Terra Santa, os das aparições de Nossa Senhora ou de manifestações prodigiosas, como é o caso do achado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré em Belém, que colocou este lugar em um patamar importante que exige especial consagração por conta dos acontecimentos.
Em 1861 foi criada a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré do Desterro, enquanto as obras da construção da matriz, em substituição à terceira ermida, seguiam lentamente. Iniciadas em 1852, duraram até 1881, mas a entrega aconteceu apenas em 1884, após a resolução da chamada “Questão Nazarena”.

Em 1905 a Paróquia foi entregue à administração dos Clérigos Regulares de São Paulo (barnabitas), que haviam chegado a Belém em 1903 e até então teriam ficado à frente do Seminário Diocesano Nossa Senhora da Conceição.
Em 1908 chegou ao Pará o visitador dos Barnabitas no Brasil, padre Luiz Zóia, que considerou matriz acanhada e sem estilo. O templo sempre apresentou diversos problemas, a ponto de ter tido partes demolidas e reconstruídas, além do fato de a torre que foi pedida pela Comissão Estadual de Obras não ter sido concluída. Era necessário erguer um novo templo.

Padre Zóia sugeriu a construção de uma nova igreja ao lado da antiga para não interromper o andamento das atividades religiosas. Sua proposta foi de erguer uma réplica reduzida da Basílica de São Paulo Extra Muros, de Roma. O projeto foi inicialmente encomendado a um italiano que se dizia arquiteto, mas as plantas não foram aceitas pela Câmara Municipal. A tarefa então foi confiada aos arquitetos Gino Coppedé e Giusepe Pedrasso, de Gênova, na Itália. A Comissão Estadual de Obras, entretanto, interferiu no projeto original, incluindo as duas torres.

O sacerdote esteve à frente pessoalmente durante quase 20 anos dos trabalhos de construção. A primeira pedra foi abençoada pelo Arcebispo de Belém à época, Dom Santiago Coutinho, em 24 de outubro de 1909. No mesmo dia o poeta maranhense Euclydes Faria apresentou o que é considerado hino oficial do Círio, “Vós sois o lírio mimoso”, de sua autoria.Na segunda leva de Barnabitas que chegaram a Belém, em 1905, estava o jovem Padre Afonso Di Giorgio, que pôde acompanhar o início dos esforços pela construção até 1912, quando foi transferido para o Rio de Janeiro, retornando quatro anos depois como superior da comunidade, encarregado das obras e vigário, substituindo o confrade, Padre Francisco Richard.

Padre Afonso entregou-se de corpo e alma até sua morte à conclusão do templo, com a responsabilidade de revesti-lo de glória e esplendor, tornando-o uma joia da arquitetura sacra na Amazônia.
Devido à escassez de recursos, buscados de diversas maneiras, entre festividades, doações e até por cooperadores internacionais, as obras seguiram lentamente. Talvez por conta disso, cuidou-se minuciosamente de cada um dos muitos detalhes da arquitetura. Tantos são que torna-se impossível percebê-los em pouco tempo de visita.

Em 1920, mesmo com as obras ainda em andamento, a imagem encontrada por Plácido foi trasladada da antiga matriz para o interior do novo templo. Três anos depois foi inaugurado o altar-mor, comemorando-se os 25 anos de ordenação sacerdotal de Padre Afonso. Em 1926 foi concedido pelo papa Pio XI o título basilical, justificado pela importância do local para a devoção Mariana na Amazônia.

Praticamente todo o templo foi erguido com partes pré-moldadas por diversas empresas da França, Itália e também do Brasil. Trazidas a Belém de navio, foram encaixadas milimetricamente nos seus lugares.

Fazendo parte dos elementos que compõem o Círio de Nazaré, a Basílica integra o conjunto da declaração da festa como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ocorrida em 2013.
`Desde quando a imagem original foi entronizada no Glória, outra imagem, pertencente ao Colégio Gentil Bittencourt, passou a substituí-la nas romarias até 1969, quando foi confeccionada a Imagem Peregrina, que até hoje segue nas 12 romarias e visitas oficiais. A imagem possui status de Chefe de Estado, conferido por uma lei estadual paraense.

O Círio atualmente é considerado como a maior manifestação católica do planeta, atraindo mais de dois milhões de pessoas às ruas de Belém”.

O CIRIO DE NAZARÉ é considerado atualmente a maior procissão do mundo, envolvendo mais de dois milhões  de pessoas que acompanham a procissão pelas ruas de Belém sob o sol e, muitas vezes sob a chuva.
A procissão é recheada de simbologias que a tornam única, como os carros dos milagres, em número de 13, cada um contando uma história

Milagres e promessas

Diversos milagres são atribuídos pelos cristãos à Nossa Senhora de Nazaré. Um dos mais conhecidos teria sido a graça alcançada pelo fidalgo português Dom Fuas Roupinho, cujo cavalo galopava em uma mata perto de um abismo. Ao perceber que iria cair para a morte, o fidalgo pediu a proteção de Nossa Senhora e o cavalo conseguiu parar.

Outro milagre aconteceu no ano de 1846, com os passageiros do brigue português São João Batista, que deixou Belém rumo a Lisboa no dia 11 de julho. O brigue naufragou durante a viagem, e os passageiros foram salvos por um bote que os trouxe de volta à Belém. O brigue havia, anos antes, transportado a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré a Lisboa, para ser restaurada. O bote que salvou os náufragos também era o mesmo que tinha levado a Imagem até o brigue ancorado ao largo da cidade.

Muitos promesseiros que têm suas graças alcançadas, acompanham o Círio com uma representação das suas promessas. São objetos de cera, miniatura de barcos, casas e até mesmo cadernos e livros. Esses objetos são depositados nos carros das promessas. Ao todos são 13 carros que acompanham a procissão, os chamados .

CARROS DOS MILAGRES

São eles: O Carro de Plácido, a  Barca dos Escoteiros, a Barca Nova, Os Quatro Carros dos Anjos, O Cesto de Promessas, A Barca com Velas, A Barca Portuguesa, A Barca com Remos, O Carro  de Dom Fuas Roupinho e o Carro da Santíssima Trindade.

Os objetos depositados nos Carros do Círio, e que representam as graças alcançadas, vão para o Memorial de Nazaré, exposição permanente em espaço montado ao lado da Casa de Plácido e também para o  Museu do Círio, instalado no Complexo Feliz Lusitânia.

Por:Fabrício Coleny
Edição: Jornal Passaporte
Texto complementar: Iolanda Parente
Foto:Ray Nonato,

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